“CHICLETE”
Maria da
Glória Coluicci
Ele
foi nosso primeiro e único animal de estimação, embora à época, não fosse visto
assim.
Éramos
quatro crianças, morando em uma pequena casa, nos fundos da residência de
nossos avós adotivos.
Vivia-se
os anos cinquenta, no Rio de Janeiro.
No
pós-guerra o acesso aos alimentos, e aos recursos financeiros e econômicos,
praticamente, inexistia...
Quando
“Chiclete” chegou à nossa casa, foi trazido por motivo de segurança; porque um
ladrão havia roubado, na área de serviço, um cano de chumbo...
O
material retirado, em tempos tão difíceis, representava custo muito elevado
para a maioria dos cidadãos, de classe média, no Rio de Janeiro.
A
relação entre os animais domésticos e seus “donos” resultava de simples
utilidade, até porque não se nutria ou estimulava afeto por eles...
Tratados
como propriedades por seus “donos”, os animais da casa não tinham proximidade
com a família, não sendo afagados por seus membros.
Assim,
quando “Chiclete” chegou, ainda bem novinho, demandava maiores cuidados e
atenção. Todavia, vivia e dormia fora de casa, no quintal em uma casinha de
madeira feita para ele.
Hoje,
sob uma nova percepção de sensibilidade animal, que demanda atenção à saúde e
bem-estar destes seres vivos, pode-se entender como “Chiclete” sofreu por
carência de afeto.
Somente
à noite ficava solto e se alimentava porque, para que não fosse atraído por
estranhos, precisava estar de barriga bem cheia...
“Chiclete”
alimentava-se com os restos de comida da família, não havendo ração especial
para ele; inovação no trato dos animais que surgiu muito depois daqueles dias.
A
escolha de seu nome, que pode parecer um tanto “esquisito”, foi decorrente de
uma “chamada” publicitária, que estava sendo veiculada pelo rádio, único meio
de comunicação daqueles idos dos anos cinquenta...
Dizia
alguém, perguntando, de forma incisiva, aos ouvintes:
–
Chiclets? Chiclets? O que será Chiclets?
Repetida
a pergunta durante muitos dias, gerou grande curiosidade...
Até
que o produto foi conhecido por todos, algo completamente desconhecido para a
maioria dos ouvintes...
Tratava-se de uma goma de mascar, de uma
empresa americana (Adams), que se tornou uma “febre” entre os jovens que podiam
adquirir a novidade...
Em
sua casinha de madeira, preso à corrente, “Chiclete” latia acompanhando as
nossas correrias e brincadeiras infantis...
Certamente
sentia vontade de brincar e correr também...
Mas,
isso seria inadmissível, porque havia temor que o contato com gatos e cães
transmitisse doenças às crianças.
De
todos os medos, a raiva canina levaria à morte certa...
Não
havia a mínima consciência de maus tratos aos animais, nem das suas
necessidades de afeto e cuidado...
Muito
menos dos benefícios que os animais trazem à saúde física e mental dos seres
humanos.
Não
havia, ao tempo de “Chiclete”, remédios e produtos veterinários, de higiene e
combate a pulgas, carrapatos, e sarna nos animais... Quando adoeciam, ou tinham
parasitas, eram tratados com querosene, inseticidas para mosquitos e baratas...
Talvez,
os produtos específicos pudessem já existir, mas não eram acessíveis à maioria
dos “donos” de animais, à época...
Meus
pais fizeram tudo o que puderam, tanto que “Chiclete” morreu bem idoso... Seu
pelo preto estava já embranquecido, quando terminou seus dias na Terra...
Conhecemos o coração de uma pessoa pelo modo como
trata seus animais.