O ESPELHO E
A ÚLTIMA FACE
Maria
da Glória Colucci
Na juventude economizou seus poucos recursos mês a mês,
porque desejava comprar aquele valioso espelho. Não era qualquer espelho. Era
de puro cristal; captava todos os detalhes das imagens à sua frente...
Muitos anos se passaram. Quem sabe? Talvez, mais de
cinquenta. Agora, pequenas e sutis manchas escuras começaram a aparecer...
O tempo não perdoa nem os espelhos de cristal... (pensou
consigo mesma). Sua própria face envelhecera tanto e o mesmo espelho
testemunhara seu declínio... ano após ano.
Murchara
como uma flor, sem ar e água, depois que um a um dos seus amados partiram...
Ninguém a visitava, já nem precisavam mais de sua companhia ou ajuda...
Recordou
quantas faces queridas tinham sido contempladas naquele espelho. Seu esposo se
fora... seu amado neto partira ainda criança, começando a adolescência...
Quantas recordações!
Lembrou-se de seu neto quando disse:
– Vovó, veja se meu
“bigode” está crescendo... E a barba, vó, vai aparecer, também?...
– Claro,
respondeu encantada, vendo a alegria inocente dele com a “penugem”, ainda
escassa em seu lindo rosto!...
Prosseguiu
em suas recordações...
Reviveu em
sua memória a foto que tirara diante do espelho, no dia de seu casamento... Os
enfeites de Natal ao seu redor... A Páscoa... Os cartões de felicitações pelos
seus aniversários, que gostava de pendurar em sua moldura... Estavam todos lá,
ocultos no espelho... Pessoas e memórias...
Mas,
um aperto tomou conta de seu peito e transbordou-se em lágrimas, como se
ouvisse sua voz dizendo:
– Bom dia,
vovó!
Foi, naquele
momento, que se lembrou que seu neto voltou a deitar-se, porque era domingo e o
dia apenas nascia; então, sua alma infantil de beija-flor partiu e não mais
voltou!
Lá estava o
perfil dele, refletido no espelho de tantas imagens... Sua última e derradeira
face...
Pensou
sobre o que faria do espelho... Entendeu que deveria guardá-lo pelo seu
significado imaterial e por todas as recordações nele gravadas.
Em memória de Felipe Cezar
(2008-2023)