BISCOITOS
PARTIDOS
Maria da Glória Colucci
Separava
com todo cuidado os biscoitos salgados.
Amanteigados
e saborosos, eram irresistíveis, até mesmo para sua única filha, que apreciava
os doces...
Sempre
precavida, tinha dois potes de vidro, em um colocava os quebrados e, no outro,
os inteiros...
Conservava
esse hábito antigo, mas, agora, não havia mais porque...
Coisas
de mãe!
No
passado, quando sua linda menina lhe pedia biscoitos, dava-lhe, apenas, os
inteiros...
Mas,
às vezes, em sua pequenina mão, partiam-se, o que a deixava chorosa...
–
Mãe, “cola” para mim?
Não
conseguia, em sua infantil ingenuidade, entender que os biscoitos podiam se
quebrar, se fossem apertados...
Indagou-se,
pensativa:
–
Por que os segurava com tanta força em suas mãozinhas?
–
É claro, para não deixá-los cair e se perderem!... respondeu para si
mesma.
Mas,
espantoso mesmo, era o fato de acreditar que sua mãe teria “o poder” de
emendá-los...
Coisas
de criança!
Sua
confiança era tão grande, que não se apercebia que ao entregá-los não mãos de
sua mãe, ela apenas os tirava inteiros de outro pote...
Sua
doçura e carinho infantis se expressavam com um gesto amoroso:
–
“Bigada”, mãe!
Tudo
foi mudando à medida que, a outrora menina, se tornou adulta...
Agora,
crescida, seu pobre coração partido pelas decepções da vida, silenciou-se...
–
Que pena! pensou, enquanto continuava a cuidadosa separação dos biscoitos...
Nada mais podia fazer...
–
Como poderia “emendar” seu coração, terrivelmente partido, com a perda de seu
único filho?
Como
avó, guardava para si as lágrimas que derramava pelo seu neto que partira tão
cedo...
Coisas
da vida!
Era
uma ferida viva, ainda aberta...
Palavras,
por mais carinhosas que sejam, não são suficientes para cicatrizar uma dor tão
grande...!
Enquanto
terminava a tarefa de separar os biscoitos, nos dois potes, deixando-os bem
fechados, pensou consigo mesma:
–
Não há mais motivo para separá-los, devem ficar juntos... porque os corações
partidos, mesmo partidos, permanecem com outros corações que, algum dia, também
serão, de algum modo, quebrados...
Coisas
do destino!
Enquanto
se levantava da mesa e guardava os potes no armário, veio à sua mente a famosa
canção da década de 70, de Al Green – How can you mend a broken Heart
...
Na
verdade, só Deus pode “emendar” um coração partido!
À minha filha, Ana Priscila, com
carinho.
Outubro, 2025.