IMPROVÁVEIS
ENCONTROS DE NATAL
Maria
da Glória Colucci
Subia a ladeira puxando o carrinho
repleto de caixas de papelão, que arrecadara durante a madrugada...
Eram seus valiosos “tesouros”, que
lhe renderiam alguns “trocados” para as festas de fim de ano...
Quase não descansara...
Pensava, com preocupação, como
juntar recicláveis em quantidade suficiente, e levá-los à cooperativa da
cidade.
O carrinho, à medida que ela
envelhecia, lhe parecia cada vez mais pesado...
No entanto, apesar do esforço, seu
intento, talvez, não fosse alcançado – comprar um presente de Natal para sua
amada menina.
Com apenas 5 anos, esperava ganhar
do Papai Noel uma boneca dos sonhos..., conforme contara para ela, sua mãe...
Como toda criança, não entendia as
dificuldades que enfrentava todos os dias...
Como suprir as necessidades básicas
de duas pessoas, da menina e dela mesma, com tão poucos recursos? – pensava a
frágil carrinheira, enquanto puxava o pesado carrinho...
Em meio às reflexões, sentiu-se tão
sobrecarregada, que se sentou no batente do portão de uma das mansões, que
ladeavam a subida... e adormeceu...
Olhando para o lindo céu, ainda
estrelado, que enfeitava a madrugada da noite de Natal, teve um breve sonho...
De repente, percebeu alguém que a
observava, silenciosamente...
Espantou-se quando ouviu o estranho
lhe falar com voz amável:
– Boa noite, Feliz Natal! Desci à Terra para
cumprir três desejos de Natal, só falta o seu!
Nesse momento, a desfalecida mulher
se lembrou de quanto sacrificara por sua filha, e que não tinha moradia e nem
trabalho para um futuro melhor...
O que poderia pedir?
Em sobressalto, acordou e não havia
feito os pedidos que desejara...
Prosseguiu o duro percurso,
aumentando o volume e peso das embalagens, quando, então, ao recolher uma das
muitas caixas deixadas na calçada, lá estava, intacta, a tão almejada boneca,
fechada, como chegaria da fábrica, pronta para ser levada...
Seu primeiro desejo de Natal tinha
sido atendido! Um verdadeiro milagre...
Desceu a ladeira, sem sentir o chão,
parecia-lhe que “voava” de tanta felicidade...
Parou na calçada da última mansão da
descida..., recolheu as caixas e outros volumes com roupas, sapatos e coisas
deixadas...
Surpreendeu-se quando encontrou uma
pequena caixa de madeira, entalhada, muito bonita...
Abriu-a. estava guardando joias
antigas, valiosas...; cujo preço inestimável, aos seus olhos, lhe causaram um
certo medo.
Tocou a campainha. Alguém veio
atender à porta.
Em um relance, pensou em calar-se,
ou perguntar qualquer coisa...; mas, indagou:
– Por acaso essa caixa de joias não
está aqui, por engano?
Uma alegria imensa invadiu o rosto
do homem, um senhor idoso, bem vestido e educado, quando respondeu:
– Sim, estamos procurando esta caixa
de joias o dia inteiro... Que bom, que foi achada...
Acrescentando, a seguir:
– Vejo-a passar aqui, todas as
noites com seu carrinho de recicláveis. Agora, descubro que além de
trabalhadeira, é honesta. Gostaria de deixar este ofício pesado e ser
chacareira em minha propriedade no interior?
Surpresa, a mulher respondeu de
imediato:
– Tenho uma filha de cinco anos, se
for possível levá-la, aceito o trabalho hoje mesmo.
No dia seguinte, ao amanhecer,
viajou com suas poucas bagagens e a filha para o novo trabalho...
Antes, passou na cooperativa e
deixou o carrinho de recicláveis, sentindo-se liberada de um grande peso.
Enquanto o ônibus trafegava pelas
estradas vicinais, em direção à chácara, pensava consigo mesma:
– Deus usa pessoas para espalhar o
bem por toda parte. Somos seus preciosos anjos, quando ajudamos o próximo.
Ao chegar à propriedade, espantou-se
com a semelhança física do chacareiro com o anjo que lhe falara em sonhos...
Pensou consigo mesma:
– Seriam a mesma pessoa? Ou Deus
usara a face de um ser humano para lhe fazer saber sua santa vontade?
Calou-se, com profundo respeito pelo
mistério divino que acabara de constatar.
“Mistérios” são a secreta vontade
de Deus comunicada aos homens...; por seus anjos e pelos seres humanos de
coração voluntário.
Natal,
2025.