ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

18 dezembro 2025

 

IMPROVÁVEIS ENCONTROS DE NATAL

                                                                                                                    Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Subia a ladeira puxando o carrinho repleto de caixas de papelão, que arrecadara durante a madrugada...

                                    Eram seus valiosos “tesouros”, que lhe renderiam alguns “trocados” para as festas de fim de ano...

                                    Quase não descansara...

                                    Pensava, com preocupação, como juntar recicláveis em quantidade suficiente, e levá-los à cooperativa da cidade.

                                    O carrinho, à medida que ela envelhecia, lhe parecia cada vez mais pesado...

                                    No entanto, apesar do esforço, seu intento, talvez, não fosse alcançado – comprar um presente de Natal para sua amada menina.

                                    Com apenas 5 anos, esperava ganhar do Papai Noel uma boneca dos sonhos..., conforme contara para ela, sua mãe...

                                    Como toda criança, não entendia as dificuldades que enfrentava todos os dias...

                                    Como suprir as necessidades básicas de duas pessoas, da menina e dela mesma, com tão poucos recursos? – pensava a frágil carrinheira, enquanto puxava o pesado carrinho...

                                    Em meio às reflexões, sentiu-se tão sobrecarregada, que se sentou no batente do portão de uma das mansões, que ladeavam a subida... e adormeceu...

                                    Olhando para o lindo céu, ainda estrelado, que enfeitava a madrugada da noite de Natal, teve um breve sonho...

                                    De repente, percebeu alguém que a observava, silenciosamente...

                                    Espantou-se quando ouviu o estranho lhe falar com voz amável:

                                     – Boa noite, Feliz Natal! Desci à Terra para cumprir três desejos de Natal, só falta o seu!

                                    Nesse momento, a desfalecida mulher se lembrou de quanto sacrificara por sua filha, e que não tinha moradia e nem trabalho para um futuro melhor...

                                    O que poderia pedir?

                                    Em sobressalto, acordou e não havia feito os pedidos que desejara...

                                    Prosseguiu o duro percurso, aumentando o volume e peso das embalagens, quando, então, ao recolher uma das muitas caixas deixadas na calçada, lá estava, intacta, a tão almejada boneca, fechada, como chegaria da fábrica, pronta para ser levada...

                                    Seu primeiro desejo de Natal tinha sido atendido! Um verdadeiro milagre...  

                                    Desceu a ladeira, sem sentir o chão, parecia-lhe que “voava” de tanta felicidade...

                                    Parou na calçada da última mansão da descida..., recolheu as caixas e outros volumes com roupas, sapatos e coisas deixadas...

                                    Surpreendeu-se quando encontrou uma pequena caixa de madeira, entalhada, muito bonita...

                                    Abriu-a. estava guardando joias antigas, valiosas...; cujo preço inestimável, aos seus olhos, lhe causaram um certo medo.

                                    Tocou a campainha. Alguém veio atender à porta.

                                    Em um relance, pensou em calar-se, ou perguntar qualquer coisa...; mas, indagou:

                                    – Por acaso essa caixa de joias não está aqui, por engano?

                                    Uma alegria imensa invadiu o rosto do homem, um senhor idoso, bem vestido e educado, quando respondeu:

                                    – Sim, estamos procurando esta caixa de joias o dia inteiro... Que bom, que foi achada...

                                    Acrescentando, a seguir:

                                    – Vejo-a passar aqui, todas as noites com seu carrinho de recicláveis. Agora, descubro que além de trabalhadeira, é honesta. Gostaria de deixar este ofício pesado e ser chacareira em minha propriedade no interior?

                                    Surpresa, a mulher respondeu de imediato:

                                    – Tenho uma filha de cinco anos, se for possível levá-la, aceito o trabalho hoje mesmo.     

                                    No dia seguinte, ao amanhecer, viajou com suas poucas bagagens e a filha para o novo trabalho...

                                    Antes, passou na cooperativa e deixou o carrinho de recicláveis, sentindo-se liberada de um grande peso. 

                                    Enquanto o ônibus trafegava pelas estradas vicinais, em direção à chácara, pensava consigo mesma:

                                    – Deus usa pessoas para espalhar o bem por toda parte. Somos seus preciosos anjos, quando ajudamos o próximo.

                                    Ao chegar à propriedade, espantou-se com a semelhança física do chacareiro com o anjo que lhe falara em sonhos...

                                    Pensou consigo mesma:

                                    – Seriam a mesma pessoa? Ou Deus usara a face de um ser humano para lhe fazer saber sua santa vontade?

                                    Calou-se, com profundo respeito pelo mistério divino que acabara de constatar.

 

 

“Mistérios” são a secreta vontade de Deus comunicada aos homens...; por seus anjos e pelos seres humanos de coração voluntário.

 

                            Natal, 2025.