ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

08 dezembro 2025

JARDIM DAS FLORES DE PAPEL

 

JARDIM DAS FLORES DE PAPEL

                                                                                             Maria da Glória Colucci

 

 

                        De minha infância, nos anos 50, tenho vívidas lembranças, nem todas agradáveis...

                        Foi uma época em que a desatenção com os infantes era muito comum; não havendo a menor percepção social e jurídica, nem política, de suas múltiplas vulnerabilidades...

                        As doenças grassavam e eram consideradas “normais” na infância, tratadas como “andaços”, como eram chamadas as sucessivas epidemias...

                        As doenças infantis mais temidas, causadoras de verdadeiro pânico aos pais, eram meningite, coqueluche, sarampo, varíola, varicela, diarreias, poliomielite, além das gripes.

                        Era tão grave a situação sanitária da época, que as crianças que conseguiam completar 1 (um) ano de idade eram consideradas “sortudas”...

                        Meus pais foram muito cuidadosos com a higiene e saúde dos 4 (quatro) filhos.

                        Em nossa família, nenhuma criança morreu!

                        Graças a Deus!

                        Mas, a ignorância popular e a falta de vacinas, já conhecidas e comprovadas em sua eficácia, contribuíram para a propagação dos vírus e doenças...

                        Por isso, eu e minha irmã fomos ao velório de uma criança vizinha, que morrera por sequelas da poliomielite (ou meningite?) – não sei, não posso afirmar o que aconteceu...

                        O grande número de crianças que rodeavam o caixãozinho, sobre a mesa de uma pequena sala da casa, apinhada de curiosos e adultos, hoje, seria inaceitável...

                        Lembro-me que fiquei muito impactada, por ser a primeira vez que tive aquela experiência com a morte, aos meus 8 (oito) anos, no Rio de janeiro.

                        Fotografias eram tiradas como um costume da época, sobretudo, do corpinho e sua face, por ser a última lembrança a ser deixada para a família...

                        Muitas das crianças morriam sem ter tirado nenhuma fotografia durante suas curtas vidas, porque o acesso a um fotógrafo, ou a uma máquina de fotografia, era inacessível para a maioria das pessoas, de baixa renda...

                        Não havia o menor conhecimento do perigo que a exposição às doenças e aos vírus poderia vir da presença a um velório...

                        Hoje, ainda se adota a filmagem do entorno do velório, para fins de divulgação na mídia, ou mesmo a transmissão dos ofícios religiosos para os que estão distantes do local...

                        Depende de autorização da família.

                        As crianças levavam flores, tiradas dos jardins de suas casas...

                        Entregavam-nas à mãe do “anjinho” falecido, em meio ao choro convulsivo dos presentes.

                        Quantas crianças morreram naquele tempo! O “anjinho” era vestido todo de branco, para ser levado à sua última morada; acompanhado de um grupo de crianças inocentes que nada compreendiam...

                        As “coroas”, hoje, tão comuns, que representam o apreço dos amigos e conhecidos, são de flores naturais, caras e muito bem elaboradas...

                        À época, nas famílias pobres, quando apareciam, eram feitas de papel crepom, delicadas, artisticamente preparadas.

                        Ainda nos dias atuais, nos locais mais pobres do País, os cemitérios são enfeitados com flores artificiais, mas, em sua maioria de plástico...

                        No “Jardim das Flores de Papel”, de minha infância esquecida, tenho lembranças bem tristes das mortes de tantas crianças brasileiras.

 

Em memória de meu neto

Felipe Cezar (2008-2023)

 

 

A morte de uma criança representa uma perda inavaliável sob qualquer prisma; de modo que a ciência, a sociedade e o Estado, tudo devem fazer para evitá-la.