JARDIM
DAS FLORES DE PAPEL
Maria da Glória Colucci
De
minha infância, nos anos 50, tenho vívidas lembranças, nem todas agradáveis...
Foi
uma época em que a desatenção com os infantes era muito comum; não havendo a
menor percepção social e jurídica, nem política, de suas múltiplas
vulnerabilidades...
As
doenças grassavam e eram consideradas “normais” na infância, tratadas como
“andaços”, como eram chamadas as sucessivas epidemias...
As
doenças infantis mais temidas, causadoras de verdadeiro pânico aos pais, eram
meningite, coqueluche, sarampo, varíola, varicela, diarreias, poliomielite,
além das gripes.
Era
tão grave a situação sanitária da época, que as crianças que conseguiam
completar 1 (um) ano de idade eram consideradas “sortudas”...
Meus
pais foram muito cuidadosos com a higiene e saúde dos 4 (quatro) filhos.
Em
nossa família, nenhuma criança morreu!
Graças
a Deus!
Mas,
a ignorância popular e a falta de vacinas, já conhecidas e comprovadas em sua
eficácia, contribuíram para a propagação dos vírus e doenças...
Por
isso, eu e minha irmã fomos ao velório de uma criança vizinha, que morrera por
sequelas da poliomielite (ou meningite?) – não sei, não posso afirmar o que
aconteceu...
O
grande número de crianças que rodeavam o caixãozinho, sobre a mesa de uma
pequena sala da casa, apinhada de curiosos e adultos, hoje, seria
inaceitável...
Lembro-me
que fiquei muito impactada, por ser a primeira vez que tive aquela experiência
com a morte, aos meus 8 (oito) anos, no Rio de janeiro.
Fotografias
eram tiradas como um costume da época, sobretudo, do corpinho e sua face, por
ser a última lembrança a ser deixada para a família...
Muitas
das crianças morriam sem ter tirado nenhuma fotografia durante suas curtas vidas,
porque o acesso a um fotógrafo, ou a uma máquina de fotografia, era inacessível
para a maioria das pessoas, de baixa renda...
Não
havia o menor conhecimento do perigo que a exposição às doenças e aos vírus
poderia vir da presença a um velório...
Hoje,
ainda se adota a filmagem do entorno do velório, para fins de divulgação na
mídia, ou mesmo a transmissão dos ofícios religiosos para os que estão
distantes do local...
Depende
de autorização da família.
As
crianças levavam flores, tiradas dos jardins de suas casas...
Entregavam-nas
à mãe do “anjinho” falecido, em meio ao choro convulsivo dos presentes.
Quantas
crianças morreram naquele tempo! O “anjinho” era vestido todo de branco, para
ser levado à sua última morada; acompanhado de um grupo de crianças inocentes
que nada compreendiam...
As
“coroas”, hoje, tão comuns, que representam o apreço dos amigos e conhecidos,
são de flores naturais, caras e muito bem elaboradas...
À
época, nas famílias pobres, quando apareciam, eram feitas de papel crepom,
delicadas, artisticamente preparadas.
Ainda
nos dias atuais, nos locais mais pobres do País, os cemitérios são enfeitados com flores artificiais, mas, em sua maioria de plástico...
No
“Jardim das Flores de Papel”, de minha infância esquecida, tenho lembranças bem
tristes das mortes de tantas crianças brasileiras.
Em memória de meu neto
Felipe Cezar (2008-2023)
A morte de uma criança representa uma perda inavaliável sob
qualquer prisma; de modo que a ciência, a sociedade e o Estado, tudo devem
fazer para evitá-la.