MAMÃO COM
AÇÚCAR
Maria da
Glória Colucci
Conta-se que certo agricultor
cultivava uma exitosa plantação de mamoeiros há longo tempo.
Era um
negócio de família...
Dedicava-se
com muito esmero à sua qualidade, evitando o uso de agrotóxicos.
Com
insistência, porém, seus filhos e netos o criticavam pela falta de inovação.
Alegavam que
a antiga e pequena propriedade poderia alargar seus horizontes, na produção das
frutas, se empregasse menos mão-de-obra e mais tecnologia em automação...
O velho
chefe de família e agricultor procurava justificar sua atividade e a forma como
a conduzia, dizendo que visava, como prioridade, não o lucro e a quantidade
produzida; mas a qualidade e o bem-estar de seus empregados(as) e da família.
Considerava
que seus empregados(as) eram muito mais amigos(as) do que apenas
trabalhadores(as).
Um dia,
cansado de ser questionado em suas práticas, resolveu lhes contar uma velha
lenda, que conhecia desde sua adolescência.
Dizem, afirmou
o agricultor, que a expressão “mamão com açúcar” surgiu como um ensinamento
dado por um professor a seus alunos(as).
Pretendia
o professor incentivar o consumo das frutas e o valor nutricional delas,
usando, então, o mamão como exemplo.
Disse,
então, à turma:
–
O mamão é uma fruta simples de cultivar, suportando ao longo de sua existência
toda sorte de intempéries, mas, sempre, resistindo...
Possui,
continuou, uma forma alongada, que lhe dá uma aparência semelhante ao seio
materno, podendo, desde a mais tenra infância, alimentar os bebês.
Quando
começa a brotar, na fase inicial é, ainda, verde e pequeno, representando o
início, também, da vida humana.
É
servido com Leite, acentuando a pureza de seu sabor, simbolizando a inocência
da criança. Nada lhe deve ser acrescido para ingestão, além do Leite.
Todavia,
com a adolescência, o ser humano, com as descobertas e novidades desta fase,
procura aumentar o seu sabor, adicionando-lhe Açúcar.
Assemelha-se
esta época da vida humana, ao momento em que o mamão, também, está amadurecendo
e no auge de seu sabor e viço.
E
o Açúcar, que lhe é acrescentado, torna-o mais convidativo ao paladar...
Prosseguindo,
com o evoluir da vida e a chegada da juventude, os embates do dia a dia
aumentam as necessidades nutricionais do mamão, por isso que há os que lhe
acrescentam uma pitada de Pimenta...
Na
juventude, os grandes conflitos desta fase são o sucesso profissional, o
dinheiro e o sexo...
É
uma época da vida que se costuma afirmar, alegoricamente, “apimentada” ...; por
isso, o Açúcar da adolescência, ainda exige algo mais, o forte sabor da Pimenta...
Na
maturidade, o sabor do mamão parece se diluir com os conflitos dos anos que
passam; porque com os 50 anos, as expectativas mudam e o tempero do mamão
precisa ser mais intenso, o Sal...
O
simbolismo do Sal está no fato de sua natureza conservante, porque, além de
depurar o sabor dos alimentos, lhes aumenta a durabilidade...
Tempera
as decisões e controla os desatinos...
Na
maturidade, assim, as pessoas se tornam mais seletivas em tudo o que fazem... e
o Sal as pode simbolizar.
No
anoitecer da vida, na velhice, diante das perdas inevitáveis que se sucedem; o
ser humano, pelas muitas lágrimas derramadas..., entende que pouco pode
acrescentar ao sabor do mamão e à própria vida...
Não
lhe acrescentam mais nenhum sabor, porque já está bem maduro, no seu potencial
pleno; devendo ser ingerido como foi feito pelo Criador; por isso, deverá ser
apreciado em sua condição natural...
Terminada
a explanação, disse o velho agricultor aos seus silenciosos filhos:
–
Nas fases da vida, o Leite significa a inocência e doçura da infância; o Açúcar,
na adolescência, traduz os encantamentos e paixões; na juventude, seus loucos
desafios e arroubos são representados pela Pimenta; a maturidade é conduzida
pelo equilíbrio e bom-senso; simbolizados pelo Sal que, apenas uma pitada,
tempera as decisões; na velhice, diante das experiências vividas, sabe-se que nada
se pode acrescentar ao que foi posto por Deus. A esperança é o fio que conduz a
vida... se estiver alicerçada na fé.
A vida sempre será um eterno e
inexplicável enigma, desde seu início até seu inesperado fim.