O PAR DE
LUVAS
Maria da Glória Colucci
Ganhou de presente de
Natal um par de luvas de tricô, feitas por uma cliente de seu escritório.
Ficou sensibilizado pela
lembrança e singeleza do presente, pois quem a tecera era uma senhora bem
idosa, amiga de longa data da família.
No entanto, ainda que
bem trabalhada e modelada como se fosse feita por uma máquina industrial, a cor
vermelha da lã o desagradava muito.
Ao receber o presente,
em uma caixa bem enfeitada por um farto laço de fita de seda, igualmente,
vermelho, sentiu-se incomodado pela brilhante cor.
Não tinha nada contra o
vermelho, mas não o achava discreto o suficiente para ser usado por um famoso
advogado, profissional renomado e bem sucedido como ele.
Deixou-a guardada por
longos anos, até que teve a oportunidade de viajar com a família, para os Alpes
e, então, levou o par de luvas vermelhas para usá-lo no frio alpino.
Nas
várias vezes que as usou, procurava tirá-las na hora das fotos ou disfarçá-las
de forma a não se tornarem o “foco” das futuras imagens fotográficas...
Aprendeu, após longos
esforços, a esquiar, e confiante, um dia saiu, sozinho, para reforçar suas
novas habilidades de esquiador, ainda que nascido no verão carioca...
Tudo parecia ir bem, até
que, de repente, desequilibrou-se e caiu em uma fenda da pista de neve,
escorregando para o despenhadeiro...
Por lá, em longo
desespero, permaneceu esquecido e ignorado pelos outros turistas... até que
seus familiares saíram à sua procura, esperando encontrá-lo morto, devido à
hipotermia ou por fraturas graves.
Os socorristas, ao
pedirem sua descrição física, tiveram a informação que usava luvas vermelhas
que o distinguiam dos demais senhores do resort.
Após demoradas buscas
foi avistado, em meio ao despenhadeiro, apenas por um pequeno “ponto vermelho”,
suas luvas, o que permitiu que fosse resgatado, são e salvo!
Ao voltar para sua casa,
no ensolarado Rio de Janeiro, mandou emoldurar as, agora, “belas luvas
vermelhas”, em quadro, igualmente, vermelho...
Pendurou-o em lugar de
destaque em seu elegante escritório e, quando perguntavam porque estavam ali, o
famoso causídico contava-lhes a história do par de luvas vermelhas e seu
salvamento.
Os preconceitos erguem muitas barreiras ao longo da vida das pessoas;
impedindo-as de terem novas experiências e realizarem seus sonhos.