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08 dezembro 2025

O PAR DE LUVAS

 

O PAR DE LUVAS

                                                              Maria da Glória Colucci

 

                        Ganhou de presente de Natal um par de luvas de tricô, feitas por uma cliente de seu escritório.

                        Ficou sensibilizado pela lembrança e singeleza do presente, pois quem a tecera era uma senhora bem idosa, amiga de longa data da família.

                        No entanto, ainda que bem trabalhada e modelada como se fosse feita por uma máquina industrial, a cor vermelha da lã o desagradava muito.

                        Ao receber o presente, em uma caixa bem enfeitada por um farto laço de fita de seda, igualmente, vermelho, sentiu-se incomodado pela brilhante cor.

                        Não tinha nada contra o vermelho, mas não o achava discreto o suficiente para ser usado por um famoso advogado, profissional renomado e bem sucedido como ele.

                        Deixou-a guardada por longos anos, até que teve a oportunidade de viajar com a família, para os Alpes e, então, levou o par de luvas vermelhas para usá-lo no frio alpino.

                        Nas várias vezes que as usou, procurava tirá-las na hora das fotos ou disfarçá-las de forma a não se tornarem o “foco” das futuras imagens fotográficas...

                        Aprendeu, após longos esforços, a esquiar, e confiante, um dia saiu, sozinho, para reforçar suas novas habilidades de esquiador, ainda que nascido no verão carioca...

                        Tudo parecia ir bem, até que, de repente, desequilibrou-se e caiu em uma fenda da pista de neve, escorregando para o despenhadeiro...

                        Por lá, em longo desespero, permaneceu esquecido e ignorado pelos outros turistas... até que seus familiares saíram à sua procura, esperando encontrá-lo morto, devido à hipotermia ou por fraturas graves.

                        Os socorristas, ao pedirem sua descrição física, tiveram a informação que usava luvas vermelhas que o distinguiam dos demais senhores do resort.

                        Após demoradas buscas foi avistado, em meio ao despenhadeiro, apenas por um pequeno “ponto vermelho”, suas luvas, o que permitiu que fosse resgatado, são e salvo!

                        Ao voltar para sua casa, no ensolarado Rio de Janeiro, mandou emoldurar as, agora, “belas luvas vermelhas”, em quadro, igualmente, vermelho...

                        Pendurou-o em lugar de destaque em seu elegante escritório e, quando perguntavam porque estavam ali, o famoso causídico contava-lhes a história do par de luvas vermelhas e seu salvamento.

 

 

 

Os preconceitos erguem muitas barreiras ao longo da vida das pessoas; impedindo-as de terem novas experiências e realizarem seus sonhos.