O
TEMPO E A CONSCIÊNCIA
Maria
da Glória Colucci
O
Tempo e a Consciência seguiam cada um o seu caminho, sem notar que andavam lado
a lado...
O
Tempo dava passos largos, acelerados porque agia sempre movido pela urgência.
A
Consciência, lenta e meditativa, por vezes parava, buscando soluções, imersa em
perguntas sem respostas...
Assim,
permaneceram ano após ano, cada qual seguindo a estrada da Vida.
Não
se conheciam, nem conversavam.
Todavia,
suas atitudes estavam profundamente interligadas, pelos mais diferentes
motivos...
O
Tempo se incomodava com a lentidão da Consciência, porque lhe parecia que
demorava muito para tomar decisões.
A
Consciência, igualmente, se afligia com a pressa do Tempo, que não lhe dava
espaço para pensar e decidir com prudência...
Um
dia, ambos se encontraram, inesperadamente, no grande cruzamento da linha
férrea, por onde passaria o “Trem do Destino”...
Chegaram
juntos, Tempo e Consciência, segundo pensaram, por acaso, à plataforma onde
todos esperavam a chegada do “Trem do Destino”...
Surpresos,
viram que pareciam irmãos gêmeos: a mesma face... os mesmos olhos... traços
idênticos...
Pequenas
diferenças, todavia, mínimas, os distinguiam...
O
Tempo, mais ousado, interrompeu o silêncio, constrangedor entre ambos e, então,
disse:
–
Com licença, senhora.
–
Pois não, respondeu-lhe a Consciência, timidamente.
–
Por acaso nos conhecemos de algum lugar? Acrescentou o Tempo.
–
Acho que sim...; imagino que, talvez, sejamos parentes. Somos tão parecidos...;
falou a Consciência.
–
É verdade, respondeu-lhe o Tempo, estendendo-lhe a mão, em gesto de
cordialidade...
–
Podemos, então, prosseguir na viagem juntos; sugeriu a Consciência.
E
assim fizeram.
A
plataforma do cruzamento fervilhava com tantos passageiros à espera da chegada
do “Trem do Destino”...
De
súbito, um grande burburinho se levantou em meio à agitada multidão, quebrando
o silêncio...
Apressados,
os passageiros tomaram seus lugares, alguns com muitas bagagens, outros não...
Nesse
momento, a Consciência, com a prudência de sempre, disse ao Tempo:
–
Será que devemos embarcar nesse “Trem do Destino”, ou esperar o Próximo, que
não sabemos quando virá?
Com
a sua natureza ansiosa, espantou-se o Tempo com a indagação da Consciência...
Impactado,
o Tempo lhe perguntou:
–
Por que deveríamos esperar e que “Destino” é esse ao qual tu te referes?
Ao
que a Consciência lhe respondeu:
–
O “Trem do Destino” leva todos os que aqui estão para o terminal do “Grande
Tribunal da Consciência Plena”; não sabias, Tempo?
Tomado
pelo medo, o Tempo empalideceu e, hesitando, achou melhor deixar a esperada
viagem para depois...
Sentiu
que precisava refletir mais sobre muitas das suas atitudes... Deveria deixar a
precipitação... Arrepender-se de outras tantas... Pedir perdão e perdoar,
também...
De
comum acordo, Tempo e Consciência resolveram adiar a derradeira viagem...
Vida
A vida é longa rota imaginária,
Misteriosa, desafiadora,
solitária,
Das muitas escolhas que oferece...
Pouco a pouco cada um tece
Seus caminhos, fracassos,
vitórias,
Em individual, perene e única
estória.