ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

23 setembro 2025

FILÓ E CETIM

 

FILÓ E CETIM

                                                                                                                       Maria da Glória Colucci



                               Cetim era o grande amor de Filó.

                               Entre eles a diferença de idade era visível, mas, nada, parecia incomodá-los...

                               Andavam abraçados, de mão dadas. Viajaram ao Rio de Janeiro..., faziam compras juntos...

                               Eram indiferentes aos olhares surpresos...

                               Assim viveram por 14 anos.

                               Achavam que, com o tempo, Cetim iria se afastar... seguir seu próprio caminho e esqueceria Filó...

                               Mas, ao contrário do esperado, a compreensão e amizade deles permaneciam intactas...

                               Conversavam o tempo inteiro... iam à Igreja juntos, visitavam os mesmos amigos...

                               Assistiam os mesmos programas de televisão, sendo o “Chaves” o preferido de ambos...

                               Quanta harmonia entre Filó e Cetim...

                               Porém, em uma bela manhã, em um ensolarado domingo, Cetim resolveu ir embora... Não avisou a ninguém. Nem a Filó...

                               Na verdade, Cetim foi convidado para uma viagem e não pensou duas vezes... Partiu...

                               Não deixou endereço, nem correios, ou mesmo e-mails chegavam lá. Era tão distante...

                               – Que pena! Pensavam todos. Coitada da Filó... tem chorado tanto...

                               Filó sentia tanta falta de Cetim... Era tão doce... Sua pele jovem e macia, seus cabelos claros, seus lindos olhos cheios de amor e bondade eram únicos...

                               Nada parecia preencher a vida de Filó. Lágrimas escorriam pela face envelhecida, tomada por definitiva e profunda solidão...

                               Vozes eram ouvidas, discretamente:

                               – Coitada da Filó..., parece que inda não se recuperou... Nessa idade avançada é tão difícil esquecer um amor perdido...

                               O tempo foi passando...

                               Notaram que Filó não mais aparecia nos lugares de sempre... sua idade..., o abandono..., a saudade...

                               Então, um certo dia, Filó resolveu ir ao encontro de Cetim; porque o Pai Eterno se compadeceu de sua dor e saudade...

                               Foi assim que Filó, a avó saudosa, e Cetim, o amoroso neto, se reencontraram para sempre...

 

 

11/06/2025

Em memória de

Felipe Cézar (2008-2023)

A CEREJEIRA E O CACTUS

 

A CEREJEIRA E O CACTUS

                                                                                               Maria da Glória Colucci

 

 

                                    À beira da estrada lá estava a bela, rósea e suave cerejeira. Nada a perturbava. Delicada. Floria na primavera e escondia-se em seus verdes ramos nos outros dias do ano...

                                    Um dia, cresceu ao seu lado um altivo e orgulhoso cactus; repleto de espinhos, conforme a Natureza o havia feito. Nada o incomodava. Defendia-se com seus afiados espinhos...

                                    Admirava a beleza e placidez da cerejeira, porém, o já crescido cactus notou que era solitária, e pensou em se aproveitar da situação, como fazem os invejosos e interesseiros... aproximou-se mais dela, ao final, estavam juntos no mesmo caminho...

                                    A cerejeira acolheu-o com toda sua afeição e, amorosamente, o tratou...

                                    O tempo passou e, já envelhecida, cansou-se a cerejeira de suportar seus duros espinhos e agressivas palavras; distanciando-se, tristemente, do invejoso cactus...

                                    Não mais floresceu. Silenciosa e infeliz, permaneceu em seu lugar; mas, suas raízes se enfraqueceram e suas delicadas flores não mais brotaram...

                                    Cego pela vaidade e ingratidão, o indiferente cactus nem reparou que a cerejeira desfalecia... Quando notou que não florescia e permanecia debilitada em sua amarga solidão; entendeu, enfim, que perdera o maior bem de sua vida:  – Sua única e verdadeira amiga.

                        Porém, era tarde demais.

                        A cerejeira secara.

 

 

“O amor e o respeito são a base da verdadeira amizade.”



Apresentação: Cinderela sem Sapatos

APRESENTAÇÃO:

CINDERELA SEM SAPATOS

                                                                                          Maria da Glória Colucci


                                    O genial conto infantil da Gata Borralheira tem encantado gerações de crianças...

                                    O imaginário da narrativa é tão rico que pode despertar até nos leitores adultos inúmeras emoções.

                                    Desde o deslumbrante vestido, até à abóbora que virou carruagem, passando pelos garbosos cavalos surgidos do nada; tudo é pura fantasia, mistério!

                                    Mas, sem dúvida, o reencontro da gentil Borralheira com seu Príncipe é o clímax do festejado conto...

                                    Há, porém, um detalhe que chama a atenção – no sapatinho de cristal da formosa Borralheira que, em grande parte do conto, é pobre e usa modestos tamanquinhos, – está o segredo do sucesso.

                                    Quando, enfim, calça seus mimosos pés com o delicado sapatinho de cristal; torna-se uma Princesa e se casa com seu apaixonado Príncipe.

                                    De fato, em grande parte de minha vida não fui além dos tamanquinhos...

                                    Meu Príncipe Amado, partiu ainda muito jovem, tinha à época, 40 anos, e continuei sem sapatinhos de cristal... por isso a escolha do nome – CINDERELA SEM SAPATOS.

                                    Tenham paciência! Muita paciência!

                                    Nas crônicas, estou sempre presente, por detrás dos objetos “personificados”, que são usados como metáforas para expressarem os sentimentos humanos, bons ou maus.

                                    Igualmente, os animais, em suas características, são “humanizados” para retratarem atitudes reprováveis ou não, encontradas no viver diário de todos nós...

                                    O fim de tudo – a passagem para o outro lado da vida, é um tema recorrente, muito presente na velhice.

                                    O Tempo e a velocidade com que escorre por entre os dedos, suas surpresas, dores e perdas que traz, também, aparece e reaparece nas entrelinhas das crônicas...

                                    As sínteses que ofereço ao final de cada crônica foram as lições que eu aprendi na minha longa vida..., que tomo a liberdade de compartilhar com os pacientes leitores(as)...

 

Curitiba, setembro/2025