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30 outubro 2025

A MONTANHA E A TARTARUGA

 

A MONTANHA E A TARTARUGA

                                                                                               Maria da Glória Colucci

 

                                    A solitária tartaruga sempre viveu ao pé da montanha, rodeada de árvores, cercada por passarinhos e rios.

                                    Fora bela, em sua juventude, como são todas as tartarugas... O casco lustroso, os olhos límpidos e o passo suave, porém, mais rápido...

                                    Formou sua própria família... Mas, um a um partiu; deixando-a sozinha em sua morada.

                                    Os dias transcorreram em conhecida e tediosa rotina...

                                    Deixou suas ocupações habituais, não por vontade sua, mas, porque foi substituída por outras tartarugas, mais rápidas, mais atualizadas, mais jovens e belas.

                                    Nunca foi “modernosa”, nem “chiquetosa”; mas, tradicional e elegante, procurando respeitar a discrição, em seus trajes e modos... Com o envelhecimento foi sendo considerada antiga, superada, fora de moda...

                                    Com o peso da idade, a cansada tartaruga, ainda ao pé da elevada montanha, resolveu subi-la, como último desafio a ser enfrentado...

                                    Como começar, se já tão lenta, dolorida e sem forças?

                                    A tartaruga procurou encontrar estratégias... deveria começar ao amanhecer? Porque a elevada montanha não seria vencida em um dia! Mas, escalando-a enfrentaria a noite sem ter chegado ao topo.

                                    Pensou em desanimar... Já se programara tantas vezes... Era um projeto da sua juventude, sempre adiado...

                                    Agora, na velhice, deveria ser o seu projeto principal: subir a montanha e continuar no alto dos seus sonhos..., sempre em movimento...

                                    Recordou-se do conselho de seu pai: “Para terminar, basta começar!”

                                    Assim, em um alvorecer luminoso, a velha tartaruga subiu a montanha a seu jeito: devagar... devagar sempre... passo a passo...

                                    Enfim, chegou ao topo e de lá nunca mais desceu!

 

 

 

A vida é uma desafiadora montanha, que precisa ser enfrentada com coragem; nunca desanimando, por mais alto que seja o sonho!

AS PEDRAS DO RIO

 

AS PEDRAS DO RIO

                                                                                               Maria da Glória Colucci

 

                                    Era apenas um tímido olho d’água...

                                    Jorrou à sombra de arbustos e foi evoluindo em seu curso em direção ao mar...

                                    Sua nascente borbulhava em pequenas ondas, formando círculos, como uma mina de águas doces e cristalinas...

                                    Ao longo do caminho, riachos se lançavam em sua corrente, adensando o leito do rio, levando de roldão folhas, galhos e pequenos pássaros e insetos...

                                    Nas suas margens, ervas, flores e barrancos se deslocavam em aluviões, arrancando pedras em sua passagem... Frágeis e pequenas criaturas eram esmagadas, porque penduradas nos galhos à beira da volumosa torrente...

                                    As pedras em seu leito, de todos os tamanhos, tinham cada uma sua própria estória de vida... Algumas chegaram trazidas pelas enchentes... Outras, despencaram de suas margens ao impulso das águas descontroladas...

                                    Não havia segurança... As pedras podiam ser surpreendidas, a qualquer momento, pela força dos ventos sobre as águas, pelo mover contínuo das intempéries...

                                    As pedras são como os seres humanos, tomados pelos sentimentos, paixões e impulsos de suas naturezas... Torrentes do Tempo, guerras, desesperos da existência, apelos da sobrevivência arrebatam vidas...

                                    Loucas pedras do rio da vida, sem pensar, dominadas pelo medo, se lançam na correnteza do Tempo!

                                    Pobres seres humanos, subjugados pela dor e sofrimento, envelhecidos, ou mesmo jovens e crianças, ceifados pela maldade alheia, ao sabor do Tempo! 

                                    As pedras do rio da vida, por maiores que sejam, são indefesas; os cascalhos, pedras partidas pela ação do Tempo, são as mais vulneráveis; a qualquer movimento repentino das águas desaparecem em seus turbilhões...

                                    A velocidade das águas, sem controle, sem freios, ninguém consegue deter; porque o Tempo controla a tudo e todos...

 

 

 

Só Deus, Senhor do Tempo, pode dominá-lo, revertê-lo, usá-lo a seu favor; porque tem em suas mãos as rédeas do Tempo e da Vida...