ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

17 novembro 2025

A COBRA E O VAGALUME

 

A COBRA E O VAGALUME

                                                                                                    Maria da Glória Colucci

 

 

            A cobra desfilava lentamente... Sentia-se bela e poderosa, afinal, por onde passava despertava medo. Sua arma secreta, o veneno mortal que injetava em suas vítimas, não era visível, mas todos o temiam...

 

            Todavia, por entre os arbustos voava o vagalume. Cuidadoso e humilde, evitava ser visto e até mesmo devorado... pousava cauteloso nos arbustos e escondia-se, camuflado em suas discretas cores, mas sua luz própria o denunciava...

 

            Cheia de inveja, a cobra não admitia que as atenções fossem divididas com um minúsculo inseto... Não aceitava que seu temido poder não destruísse o vagalume. Odiava-o. Foi, então, que resolveu atingi-lo com um jato do seu malcheiroso veneno...

 

            Pressentindo os ardis da cobra, o vagalume alçou mais alto o voo, quando, então, seu brilho transpareceu ainda mais...

 

            A cobra, em seu esforço perverso, desequilibrou-se e seu corpo viscoso caiu sobre um denso espinheiro...; ferida em seu corpo, muito mais em seu orgulho, desistiu do malfadado bote...

 

            Por sua vez, o vagalume continuou seu discreto e brilhante percurso..., voando cada vez mais alto. 

 

 

“A inveja é o veneno dos medíocres, alimentado pelo orgulho e incompetência.”

O ESPELHO E A ÚLTIMA FACE

 

O ESPELHO E A ÚLTIMA FACE

                                                                                 Maria da Glória Colucci

 

                                    Na juventude economizou seus poucos recursos mês a mês, porque desejava comprar aquele valioso espelho. Não era qualquer espelho. Era de puro cristal; captava todos os detalhes das imagens à sua frente...

                                    Muitos anos se passaram. Quem sabe? Talvez, mais de cinquenta. Agora, pequenas e sutis manchas escuras começaram a aparecer...

                                    O tempo não perdoa nem os espelhos de cristal... (pensou consigo mesma). Sua própria face envelhecera tanto e o mesmo espelho testemunhara seu declínio... ano após ano.

                                    Murchara como uma flor, sem ar e água, depois que um a um dos seus amados partiram... Ninguém a visitava, já nem precisavam mais de sua companhia ou ajuda...

                                    Recordou quantas faces queridas tinham sido contempladas naquele espelho. Seu esposo se fora... seu amado neto partira ainda criança, começando a adolescência... Quantas recordações!

Lembrou-se de seu neto quando disse:

            – Vovó, veja se meu “bigode” está crescendo... E a barba, vó, vai aparecer, também?...

                        – Claro, respondeu encantada, vendo a alegria inocente dele com a “penugem”, ainda escassa em seu lindo rosto!...

                                    Prosseguiu em suas recordações...

                                    Reviveu em sua memória a foto que tirara diante do espelho, no dia de seu casamento... Os enfeites de Natal ao seu redor... A Páscoa... Os cartões de felicitações pelos seus aniversários, que gostava de pendurar em sua moldura... Estavam todos lá, ocultos no espelho... Pessoas e memórias...

                        Mas, um aperto tomou conta de seu peito e transbordou-se em lágrimas, como se ouvisse sua voz dizendo:

                        – Bom dia, vovó!

                        Foi, naquele momento, que se lembrou que seu neto voltou a deitar-se, porque era domingo e o dia apenas nascia; então, sua alma infantil de beija-flor partiu e não mais voltou!

                        Lá estava o perfil dele, refletido no espelho de tantas imagens... Sua última e derradeira face...

                                 Pensou sobre o que faria do espelho... Entendeu que deveria guardá-lo pelo seu significado imaterial e por todas as recordações nele gravadas. 

 

 

Em memória de Felipe Cezar

                 (2008-2023)