ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

27 novembro 2025

O PESCOÇO DA GIRAFA

 

O PESCOÇO DA GIRAFA

                                                              Maria da Glória Colucci

 

 

                                    A girafa vivia com sua família no zoológico, desde que nascera. Tornara-se, com o passar dos tempos, o centro das atenções e “mimos” dos visitantes...

                                    Houve, no entanto, uma certa ocasião que, por acaso, viu sua imagem de girafa refletida em um espelho de uma linda jovem do parque...

                                    Espantou-se muito...

                                    Na verdade, entrou em pânico quando notou o tamanho de seu pescoço, em cuja extremidade estava sua pequena cabeça...

                                    Imaginou, de pronto, que havia algo de muito errado com suas orelhas, que saltavam de sua cabeça, de forma desajeitada...

                                    Exclamou para si mesma:

                                    – Quão feia e desconjuntada que sou!

                                    Todos do reservado das girafas começaram a reparar em sua repentina mudança de humor...

                                    Seus pais, muito preocupados, resolveram chamar os tratadores e solicitar um atendimento médico urgente...

                                    Mas, até então, os veterinários não sabiam como enfrentar tão delicada situação, em que uma girafa estava em profunda tristeza e desgostosa com sua imagem...

                                    Reuniram-se em secreta reunião técnica, convidando outros especialistas estrangeiros para opinarem sobre o grave e intrincado dilema...

                                    Perguntavam-se, solícitos:

                                    – O que fazer com o pescoço da girafa?

                                    Houve quem sugerisse que se chamasse um cirurgião plástico, especialista em pescoços longos e finos...

                                    Após sucessivos contactos, conseguiram encontrar na África um cirurgião renomado no procedimento estético...

                                    No dia da consulta, com todo cuidado, foi chamado um tradutor sensível, que pudesse entender os desejos da jovem girafa...

                                    Houve quem lembrasse que a paciente ainda estava em idade de “casar” e poderia ser prejudicada em seus “atrativos” femininos...

                                    Após longas e complexas tratativas, tão “complexas” e “longas” quanto o tamanho do indigitado pescoço, foi falado aos pais da atormentada girafa:

                                    – Se o pescoço for diminuído, vai ficar desproporcional em relação ao corpo, ancas e pernas... Haveria necessidade de intervenções em outras partes também!

                                    Em pânico, sua família procurou mostrar à desesperada girafa que todos os seus irmãos tinham a mesma aparência que ela, e se sentiam felizes, assim, compartilhando o mesmo DNA...

                                    Levou algum tempo para a decisão final...

                                    Com grande espanto de todos, a dengosa girafa acabou por desistir da cirurgia plástica...

                                    Até hoje não se sabe como conseguiram convencê-la a retroceder do seu propósito...

                                    Dizem, à boca pequena, que ela viu e ouviu no rádio e na televisão, que havia um grande número de insucessos nestes casos.

                                    Temendo perder a própria beleza natural, em um fracasso cirúrgico, achou melhor não interferir no que Deus fez perfeito...

                                    Todos louvaram a decisão amadurecida da jovem girafa e seu comportamento passou a servir de exemplo para outras...

 

 

    Um coração humilde e agradecido torna mais leve e feliz o     viver diário, semeando alegria e paz ao redor.

 

 

    “Tudo Deus fez formoso a seu tempo.”

    (Bíblia Sagrada, Eclesiastes 3:11.)    

"CHICLETE"

 

“CHICLETE”

                                      Maria da Glória Coluicci

 

 

                                    Ele foi nosso primeiro e único animal de estimação, embora à época, não fosse visto assim.

                                    Éramos quatro crianças, morando em uma pequena casa, nos fundos da residência de nossos avós adotivos.

                                    Vivia-se os anos cinquenta, no Rio de Janeiro.

                                    No pós-guerra o acesso aos alimentos, e aos recursos financeiros e econômicos, praticamente, inexistia...

                                    Quando “Chiclete” chegou à nossa casa, foi trazido por motivo de segurança; porque um ladrão havia roubado, na área de serviço, um cano de chumbo...

                                    O material retirado, em tempos tão difíceis, representava custo muito elevado para a maioria dos cidadãos, de classe média, no Rio de Janeiro.

                                    A relação entre os animais domésticos e seus “donos” resultava de simples utilidade, até porque não se nutria ou estimulava afeto por eles...

                                    Tratados como propriedades por seus “donos”, os animais da casa não tinham proximidade com a família, não sendo afagados por seus membros.

                                    Assim, quando “Chiclete” chegou, ainda bem novinho, demandava maiores cuidados e atenção. Todavia, vivia e dormia fora de casa, no quintal em uma casinha de madeira feita para ele.

                                    Hoje, sob uma nova percepção de sensibilidade animal, que demanda atenção à saúde e bem-estar destes seres vivos, pode-se entender como “Chiclete” sofreu por carência de afeto.

                                    Somente à noite ficava solto e se alimentava porque, para que não fosse atraído por estranhos, precisava estar de barriga bem cheia...

                                    “Chiclete” alimentava-se com os restos de comida da família, não havendo ração especial para ele; inovação no trato dos animais que surgiu muito depois daqueles dias.

                                    A escolha de seu nome, que pode parecer um tanto “esquisito”, foi decorrente de uma “chamada” publicitária, que estava sendo veiculada pelo rádio, único meio de comunicação daqueles idos dos anos cinquenta...

                                    Dizia alguém, perguntando, de forma incisiva, aos ouvintes:

                                    – Chiclets? Chiclets? O que será Chiclets?

                                    Repetida a pergunta durante muitos dias, gerou grande curiosidade...

                                    Até que o produto foi conhecido por todos, algo completamente desconhecido para a maioria dos ouvintes...

                                      Tratava-se de uma goma de mascar, de uma empresa americana (Adams), que se tornou uma “febre” entre os jovens que podiam adquirir a novidade...

                                    Em sua casinha de madeira, preso à corrente, “Chiclete” latia acompanhando as nossas correrias e brincadeiras infantis...

                                    Certamente sentia vontade de brincar e correr também...

                                    Mas, isso seria inadmissível, porque havia temor que o contato com gatos e cães transmitisse doenças às crianças.

                                    De todos os medos, a raiva canina levaria à morte certa...

                                    Não havia a mínima consciência de maus tratos aos animais, nem das suas necessidades de afeto e cuidado...

                                    Muito menos dos benefícios que os animais trazem à saúde física e mental dos seres humanos.

                                    Não havia, ao tempo de “Chiclete”, remédios e produtos veterinários, de higiene e combate a pulgas, carrapatos, e sarna nos animais... Quando adoeciam, ou tinham parasitas, eram tratados com querosene, inseticidas para mosquitos e baratas...

                                    Talvez, os produtos específicos pudessem já existir, mas não eram acessíveis à maioria dos “donos” de animais, à época...

                                    Meus pais fizeram tudo o que puderam, tanto que “Chiclete” morreu bem idoso... Seu pelo preto estava já embranquecido, quando terminou seus dias na Terra...

 

Conhecemos o coração de uma pessoa pelo modo como trata seus animais.

24 novembro 2025

NA CORDA BAMBA

 

NA CORDA BAMBA

                                                       Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Uma bela jovem! – diziam os amigos.

                                    Além de ser inteligente! – acrescentavam os mais próximos e parentes.

                                    Mais bela do que inteligente!... – murmuravam os invejosos...

                                    De fato, divergências de opinião à parte, sua fama era mais pela beleza e elegância, do que por suas aptidões intelectuais...

                                    Porém, em um mundo digital, se a inteligência faltar, basta se safar da própria ignorância e arriscar-se, usando a Inteligência Artificial (IA)...

                                    Seguindo carreira de sucesso e admiração dos seus seguidores na internet, a jovem, que se pode identificar como Belarmina, qual seja “Bela Menina”, assim continuou vivendo...

                                    Com a maturidade chegando...; lembrava-se, com frequência, de conhecido provérbio, citado pelos mais antigos:

                                    – Nem tudo o que reluz é ouro!

                                    Pensava, consigo mesma, que tendo apenas a aparência física com o que contar e poucos recursos intelectuais, seus dias de “falso brilho” estavam por findar.

                                    Sua verdadeira natureza, baseada na beleza e frivolidade digital, estava aparecendo a olhos vistos dos seus seguidores e “admiradores”. 

                                    Procurando manter-se na “crista da onda”, sentia que a cada dia sua desatualização era gritante.

                                    Começou por cogitar de mudanças na aparência física, mediante cirurgias plásticas, exercícios nas academias, medicamentos emagrecedores etc...

                                    Estava instalada a crise da meia idade!

                                    Quantos desafios?!

                                    Procurou uma consultora de moda, recebendo orientação sobre como vestir-se, com mais moderação, discretamente, sem decotes profundos demais, ou minissaias...

                                    Consultando uma psicóloga, entendeu que, em tudo, uma estória de vida não se constrói de uma hora para outra...

                                    É preciso sintonia consigo mesma e os valores que nortearam toda uma vida.

                                    Foi, com o tempo, aprendendo a viver e a respeitar-se, dando valor a si mesma; ao seu passado, escolhas e amizades...

                                    Descobriu, então, que havia vivido um grande teatro, procurando agradar mais aos outros; do que dirigir sua profissão e vida por princípios, em bases morais, como fora educada por seus pais.

                                    Deu-se conta que precisaria voltar ao começo de tudo, retomando antigos marcos de família e reatando laços afetivos desprezados...

                                    Telefonou para velhos conhecidos, insistindo na importância de suas presenças... e festejou, com alegria, os seus 50 anos!

                                    Notou que muitos dos convidados pareciam confortáveis em suas idades; com as chamadas “rugas de expressão”, alguns mais calvos, mais gordos, mais envelhecidos...   

                                    Percebeu que alguns, mesmo insistentemente convidados, não vieram! – Por quê? – perguntou-se, entristecida... Será que não lhes dei a merecida atenção e afeto? – indagou-se...

                                    Ao final do dia, pode entender-se que se manter vivo e participante, é uma arte, quase circense; qual seja, manter-se na “corda-bamba”, sobre a velocidade do Tempo!

                                   

 

Viver é a arte de superar com coragem, dia após dia, os conflitos existenciais; equilibrando-se sobre o abismo da passagem do Tempo.

O ORGULHO E A MODÉSTIA

 

O ORGULHO E A MODÉSTIA

                                                                                                                   Maria da Glória Colucci

 

                                    O Orgulho e a Modéstia seguiam juntos pelo caminho da vida. Haviam se encontrado, por acaso, em longa peregrinação ao redor do mundo.

                                    Belo, garboso e inteligente, o Orgulho não deixava passar nenhuma oportunidade de apresentar suas qualidades ao “grande público”...

                                    Vivia como se estivesse sempre sob os aplausos de “deslumbrada” plateia no palco da vida, interpretando o papel de protagonista em qualquer cenário...

                                    Em suas andanças, encontrou a Modéstia. Discreta, jovem e bela, não parecia atrair muitos olhares; embora, aqueles que a conheciam, a louvassem por seu talento e habilidades.

                                    No coração do Orgulho havia muito de si mesmo. Seus sucessos eram atribuídos às próprias conquistas e, os fracassos, a seu ver, eram causados por invejosos...

                                    Por outro lado, a Modéstia creditava os seus sucessos à ajuda de amigos e, as derrotas, a ela mesma; procurando aprender com os próprios erros.

                                    Continuaram seguindo, lado a lado, e, em diversas ocasiões, a Modéstia procurou dialogar com o Orgulho, mas, este, não lhe dava atenção, sempre magoado com o que os outros diziam...

                                    O Orgulho costumava atribuir às pessoas que o rodeavam os tropeços de sua carreira profissional, casamento, emoções etc.

                                    A Modéstia, por seu turno, perdoava e se esforçava para compreender os deslizes alheios, como fraquezas humanas, vivendo de modo a espalhar a paz e o bem-estar.

                                    Longos anos se passaram.

                                                                       Um dia, o Orgulho e a Modéstia se depararam, diante de duas portas, que precisavam escolher para continuar a jornada.

                                    Uma era alta, com os portais de madeira talhados em cuidadosa marcenaria; com filetes de ouro incrustados e pedras preciosas. Majestosa, bela e deslumbrante.

                                    A outra, da mesma altura, com seus portais lisos, retos e discretos, sem quaisquer adereços ou enfeites. Simples, polida e despojada.

                                    Os viajantes, Orgulho e Modéstia, pararam para ler o aviso, postado ao alto das duas portas:  

                                    - Escolha uma e entre!

                                    O Orgulho não teve dúvidas. A porta mais alta e exuberante combinava com ele: pessoa brilhante, cheia de esperteza e, então, entrou...

                                    A Modéstia, em momento algum, duvidou que a porta desprovida de atrativos era a sua “cara” e, então, entrou...

                                    Quando as duas portas se fecharam, o Orgulho descobriu, em pânico, que estava no inferno e, a Modéstia, por sua vez, percebeu que chegara ao Paraíso!

                                    O Orgulho transforma a vida da pessoa em um verdadeiro inferno, afastando amigos e isolando-a na cegueira de suas convicções erradas.

                                    A Modéstia permite que reconheçamos os próprios erros e perdoemos os alheios, porque são tão frágeis como nós mesmos.

 

 

 

O orgulho cega os olhos, endurecendo o coração e sufocando a sensibilidade, em prejuízo próprio e alheio.