O
SOLITÁRIO OBSERVADOR
Maria
da Glória Colucci
Com
a pontualidade de um relógio, a janela se abria às 6:00 horas da manhã, quando
o movimento dos veículos apenas começava...
De
frente para a agitada avenida, a janela se tornou uma espécie de “point”, um
quase “mirante”, dava visão ampla da rotina do bairro.
Não
se pode precisar quando a prática observadora se iniciou, e a janela do 4º
andar se transformou em lugar privilegiado para o atento morador.
Talvez,
sua presença constante na janela tenha sido motivada pela aposentadoria; quando
o tempo de inatividade forçada chega à vida de toda pessoa...
Comecei
a notar sua presença solitária à janela, quando me dirigia ao trabalho, pela
manhã e à tarde, usando o sistema de transporte do biarticulado.
Vivia-se
o enigmático ano de 2001, após os ataques das Torres Gêmeas, no Centro
Financeiro de Nova York; ao mesmo tempo que o mundo imergiu em conjecturas
sobre o futuro dos negócios e a insegurança do dólar nas “Bolsas”. Moedas
tradicionais, como a libra e o já enfraquecido real, também foram atingidas...
Nada
parecia abalar o senhor do 4º andar, em sua tranquila vida na janela...
Uma
postura isolada pode, todavia, não despertar grandes reflexões sobre a passagem
do tempo e a rapidez como o corpo envelhece e a sociedade “descarta” seus
trabalhadores (as)...
Não
é o que penso! Porque se trata de algo muito revelador da condição da pessoa
idosa no Brasil...
De
fato, aproximadamente, 15 anos se passaram e o ritual do observador do 4º andar
continuou...
Repentinamente,
a meu ver, não mais se postou à janela.
Senti
sua falta!
Inúmeras
questões afloraram à minha mente:
–
Estaria doente? Ficara acamado e não mais conseguiu permanecer de pé?
Com
a ausência definitiva de sua figura à janela, indaguei-me, com tristeza, se não
teria morrido? Teria se mudado?
Nunca
tive respostas...
Hoje,
todavia, rememoro este fato, transcorrido há mais de 10 anos, e que continua
tão presente em minha memória, porque tenho uma velhice ativa, pela graça de
Deus.
Observo,
porém, que em nosso País ainda faltam políticas públicas que intensifiquem os
cuidados voltados ao preparo para os tempos da aposentadoria...
Minimizar
o abandono emocional e afetivo daqueles que, igualmente, contribuíram para o
desenvolvimento da sociedade, é um dever de todos.
Sucessivos
escândalos em organismos públicos, envolvendo os aposentados; golpes pelo
telefone e em caixas eletrônicos, são, também, corriqueiros...
Ainda
se vê o idoso (a), nos pretensos dias “avançados” de hoje, ancorados na
Inteligência Artificial (IA), como pessoas de “segunda categoria”, “superados”,
uma espécie de “peso morto” para a sociedade...
Que
a imagem do solitário observador do 4º andar se torne uma espécie de ícone do
abandono a que são legados os “velhos” no País.
As injustiças contra a
pessoa idosa são o reflexo do abandono moral e afetivo de uma cultura
utilitarista e desumana.