URUBUSSERVANDO
Maria
da Glória Colucci
Dizem
que há uma lenda urbana muito repetida, pela sua criatividade, quanto à origem
das redes sociais...
Ao
que consta, até mesmo o modo como hoje divulgam a intimidade das pessoas,
devassando suas vidas, sem dó, nem piedade; é prática muito antiga.
Sabe-se,
em informações que passaram boca a boca, que um casal de urubus, recém-casados,
instalou-se em uma construção abandonada, em um bairro nobre da cidade e, sem
diversões, inventou um jogo, barato e muito dinâmico:
–
Bisbilhotar a vida alheia!...
O
cenário era propício, principalmente, à noite, quando o poleiro dos urubus (o
prédio em construção) ficava às escuras...
Podia-se
ver, como em tela de cinema, tudo o que se passava nos lares dos moradores, em
seus quartos e banheiros...
Desavisados,
os inocentes senhores e senhoras e seus filhos, ficavam expostos aos maldosos
olhos do casal de urubus...
Não
satisfeitos de se alimentar com a vida alheia e seus conflitos, deleitando-se
com a “carniça” moral de muitos dos desconhecidos; o casal de urubus resolveu
convidar seus parentes, amigos e conhecidos para o divertido jogo...
Assim,
a “urubusservação” que era feita apenas por dois urubus, alastrou-se por muitos
quarteirões...
Foi
aí que surgiram a internet e as redes sociais...
O
sucesso da troca de novidades, criadas e inventadas sem qualquer base de
verdade, se tornaram o “must” nas preferências dos “urubunautas” ...;
nascendo aí as fakenews...
Aproveitando-se
do retorno financeiro das mentiras, “falar da vida alheia” tornou-se um negócio
rentável.
Grande
descoberta! Ninguém mais da “urubuzada” quis se empregar no presencial, porque
trabalhar na “urubusservação” dava muitos likes e lucros.
“Ideias
novas”, frutos de atividades legais, foram roubadas e seus autores perderam
seus direitos, sem ter como reconquistá-los, judicialmente, pela falta de
provas, consideradas “robustas” ...
Já
cansados e envelhecidos, o casal de urubus constatou que uma brincadeira,
despretensiosa, ao que parecia, ampliou-se causando muitos danos à famílias
humanas e de outros urubus...
Resolveram
voltar para o campo e se alimentarem, apenas, da comida, que lhes era própria e
lícita – carniça de animais mortos; e não mais se empanturrarem com a vida
alheia...
Mas,
o mal já havia se alastrado...
Ficaram
aliviados quando, algum tempo depois, souberam que as autoridades estavam
elaborando estudos para regulamentação das redes sociais...
–
Que assim seja! Pensaram!
E
nunca mais o casal de urubus foi visto.
Antes que o mal cresça, corta-se sua cabeça!