A JABUTICABEIRA
Maria
da Glória Colucci
Era
a mais altiva árvore do pomar.
Estava
plantada no lugar desde quando o antigo dono a trouxera...
Pequenina
muda, ainda frágil em sua condição de semente recém-crescida, a jabuticabeira
desejava, apenas, sobreviver às violentas e constantes intempéries...
Os
ventos fortes, com suas rajadas constantes, a fragilizavam, de tal modo, que
pensou, em certa fase da sua vida, que não suportaria os invernos futuros...
No
entanto, com a chegada de cada nova primavera se alegrava e fortalecia seu
tronco e galhos nascentes; enchendo-se de tímidas jabuticabas, que a
embelezavam mais e mais...
Com
o seu acelerado crescimento e viço das folhas, a jabuticabeira despertou no
dono do pomar mais cuidados e elogios...
Aos
poucos, encheu-se a jovem árvore de orgulho e esperanças de que seria a
dominante do lugar...
Assim
aconteceu!
Tornou-se
tão alta, frondosa e atraente, que sua copa se sobrepunha a todas as árvores do
visitado pomar...
As
deliciosas jabuticabas, crescidas em seu forte tronco, eram as mais saborosas
de todas as redondezas.
Os
visitantes não lhe pouparam elogios durante anos, brotando em seu coração de
jabuticabeira um elevado senso de superioridade e desprezo pelas árvores
menores...
Um
dia, porém, foi acometida de desconhecida enfermidade, até porque os corações
orgulhosos são doentes em suas emoções...
O
dono do pomar consultou os melhores biólogos e botânicos afamados, procurando
um possível tratamento da fragilizada e decaída árvore.
Encontrou-se,
então, como melhor solução no combate à doença, uma poda quase radical de seus
belos galhos, agora secos e quebradiços.
Terminado
o “corte cirúrgico”, a jabuticabeira ficou profundamente abatida e triste,
tendo consciência de sua pequenez e insignificância no pomar...
Tornou-se
a menor árvore do pomar, não só em estatura, mas em importância e visibilidade,
pela sua esterilidade, ainda que temporária.
Houve,
por outro lado, um grande benefício coletivo para as demais árvores do pomar
que, com a poda, conseguiram descortinar as montanhas e o céu que estavam
ocultos por sua copa.
Todos
notaram, perplexos, que o sofrimento da orgulhosa árvore abriu novos
horizontes, porque viveram longo tempo sufocados pelo desprezo da jabuticabeira...
Porém,
as companheiras de pomar procuraram, cada uma a seu modo, lembrá-la que a
apoiavam e torciam por sua rápida recuperação.
Reduzida
à condição de árvore em tratamento, a jabuticabeira pôde refletir sobre seu
antigo comportamento; entendendo que, ao se sentir superior às demais e melhor
do que todas, perdeu muito em amizade e respeito coletivo.
O orgulho adoece o coração
e empobrece a alma humana, separando os melhores amigos e irmãos.