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11 fevereiro 2026

OS DONOS DA LAGOA

 

OS DONOS DA LAGOA

                                                 Maria da Glória Colucci

 

                                     Os dias transcorriam calmos.

                                    A paz reinava na Lagoa, até o pequeno jacaré chegar, trazido pelo tratador...

                                    Tinha sido recolhido pela “Vigilância Veterinária”, apreendido e retirado de uma família, que o criava como animal de estimação...

                                    Trazido contra a sua vontade, e dos seus afetuosos donos, o pequeno jacaré sentiu-se ameaçado em sua frágil condição...

                                    Ficou a cada dia mais e mais desconfiado de tudo e de todos...

                                    Mas, ao permanecer por longo tempo na Lagoa, começou a descuidar de sua integridade, e ficar dormitando, placidamente, ao calor do sol...

                                    Então, um jacaré mais experiente da Lagoa, e muito esperto, lhe transmitiu uma proverbial verdade; advertindo-o dos perigos da desatenção:

                                    – “Jacaré que cochila vira bolsa”...

                                    Deu-lhe, também, outras instruções para ter sucesso na vida que o esperava em local tão frequentado...

                                    Aconselhou-o a não se envaidecer com os elogios; não comer guloseimas que os visitantes lhe atirassem e, sobretudo, não se espreguiçar fora da Lagoa, na grama que a rodeava, quando os visitantes estivessem no Parque...

                                    Mas, na insensatez e inexperiência de sua juventude, o jovem jacaré não lhe deu a merecida atenção.

                                    Continuou distraído. Preguiçoso e desinteressado como sempre; massageando o ego com os elogios recebidos; pensando consigo mesmo:

                                    – “Quem não é visto; não é lembrado”.   

                                    Em um inesperado dia, uma Comitiva de Especialistas visitou o Parque e a Lagoa, procurando por um jacaré que preenchesse certos requisitos de saúde, beleza e juventude...

                                    Ansioso por se destacar, enquanto os outros companheiros se escondiam no fundo das águas escuras da Lagoa, o jovem e pretensioso jacaré se esticou na grama...

                                    Expôs, com orgulho, sua bela forma, esperando ser escolhido...

                                    Foi o que aconteceu!

                                    Levado, após a captura, dentro de uma estreita gaiola; de pronto, não se deu conta da armadilha na qual caíra, por sua própria vontade e iniciativa...

                                    Conduzido ao local onde ficaria, viu que havia grande movimentação de público, indo e vindo...

                                    Ficou na exposição, em vitrina ornamentada, durante muitos dias.

                                    Afinal, entendeu que se tratava de uma “Feira de Acessórios Femininos e Masculinos”, mais adequadamente, de bolsas e sapatos...

                                    Em pânico, lembrou-se das advertências do experiente jacaré da Lagoa, a quem não dera a devida atenção.

                                    – Muito tarde! pensou...

                                    No entanto, não sabia que os referidos acessórios tinham sido confeccionados com material que imitava couro de jacaré...

                                    Os meses se passaram e na Lagoa todos o consideravam um caso perdido...; porém, para espanto dos seus moradores, um dia, o apavorado jacaré voltou...

                                    Estava mais amadurecido e respeitoso. Contou para os perplexos ouvintes, seus companheiros, que foi salvo por uma lei, que proibia o tráfico de animais e plantas silvestres, além de derivados, como couro, penas, chifres, etc.

                                    Assim, livrou-se no último minuto, quando seria vendido para o exterior e viraria “bolsa”, de uma grande marca internacional...

                                    Entenderam os moradores da Lagoa que os verdadeiros “donos” do espaço em que viviam eram eles...

 

 

A defesa e proteção dos animais e da Natureza é uma urgência inadiável; antes que a extinção de muitas espécies se torne irreversível.