OS
DONOS DA LAGOA
Maria da Glória Colucci
A
paz reinava na Lagoa, até o pequeno jacaré chegar, trazido pelo tratador...
Tinha
sido recolhido pela “Vigilância Veterinária”, apreendido e retirado de uma
família, que o criava como animal de estimação...
Trazido
contra a sua vontade, e dos seus afetuosos donos, o pequeno jacaré sentiu-se
ameaçado em sua frágil condição...
Ficou
a cada dia mais e mais desconfiado de tudo e de todos...
Mas,
ao permanecer por longo tempo na Lagoa, começou a descuidar de sua integridade,
e ficar dormitando, placidamente, ao calor do sol...
Então,
um jacaré mais experiente da Lagoa, e muito esperto, lhe transmitiu uma
proverbial verdade; advertindo-o dos perigos da desatenção:
–
“Jacaré que cochila vira bolsa”...
Deu-lhe,
também, outras instruções para ter sucesso na vida que o esperava em local tão
frequentado...
Aconselhou-o
a não se envaidecer com os elogios; não comer guloseimas que os visitantes lhe
atirassem e, sobretudo, não se espreguiçar fora da Lagoa, na grama que a
rodeava, quando os visitantes estivessem no Parque...
Mas,
na insensatez e inexperiência de sua juventude, o jovem jacaré não lhe deu a
merecida atenção.
Continuou
distraído. Preguiçoso e desinteressado como sempre; massageando o ego com os
elogios recebidos; pensando consigo mesmo:
–
“Quem não é visto; não é lembrado”.
Em
um inesperado dia, uma Comitiva de Especialistas visitou o Parque e a Lagoa,
procurando por um jacaré que preenchesse certos requisitos de saúde, beleza e
juventude...
Ansioso
por se destacar, enquanto os outros companheiros se escondiam no fundo das
águas escuras da Lagoa, o jovem e pretensioso jacaré se esticou na grama...
Expôs,
com orgulho, sua bela forma, esperando ser escolhido...
Foi
o que aconteceu!
Levado,
após a captura, dentro de uma estreita gaiola; de pronto, não se deu conta da
armadilha na qual caíra, por sua própria vontade e iniciativa...
Conduzido
ao local onde ficaria, viu que havia grande movimentação de público, indo e
vindo...
Ficou
na exposição, em vitrina ornamentada, durante muitos dias.
Afinal,
entendeu que se tratava de uma “Feira de Acessórios Femininos e Masculinos”,
mais adequadamente, de bolsas e sapatos...
Em
pânico, lembrou-se das advertências do experiente jacaré da Lagoa, a quem não
dera a devida atenção.
–
Muito tarde! pensou...
No
entanto, não sabia que os referidos acessórios tinham sido confeccionados com
material que imitava couro de jacaré...
Os
meses se passaram e na Lagoa todos o consideravam um caso perdido...; porém,
para espanto dos seus moradores, um dia, o apavorado jacaré voltou...
Estava
mais amadurecido e respeitoso. Contou para os perplexos ouvintes, seus
companheiros, que foi salvo por uma lei, que proibia o tráfico de animais e
plantas silvestres, além de derivados, como couro, penas, chifres, etc.
Assim,
livrou-se no último minuto, quando seria vendido para o exterior e viraria
“bolsa”, de uma grande marca internacional...
Entenderam
os moradores da Lagoa que os verdadeiros “donos” do espaço em que viviam eram
eles...
A defesa e proteção dos
animais e da Natureza é uma urgência inadiável; antes que a extinção de muitas
espécies se torne irreversível.