VIOLETAS
NA JANELA
Maria
da Glória Colucci
Quando
os vasinhos chegaram, o inverno estava findando...
Ainda
eram pequenas mudinhas de violetas, uma branca e, a outra, lilás.
Quem
as visse ficaria tocado pela delicadeza e fragilidade de seus talos e
folhinhas...
Impulsionadas
pelo frescor e luz da janela cresceram e se tornaram viçosas...
A
Velha Senhora amava-as com doçura, pela lembrança saudosa de quem as
presenteara no passado...
Observava
seu crescimento, dia após dia, cuidando que tivessem água e luz suficientes...
Mas,
como todo ser vivo, um dia a violeta branca começou a definhar, atacada por
pulgões, e não foi possível resgatá-la...
A
violeta lilás permaneceu saudável por longo tempo, sob os olhos amorosos da
Velha Senhora...
Movida
pela beleza e solidão da violeta lilás, a Velha Senhora resolveu adquirir
outros vasinhos, aumentando sua coleção e preenchendo os espaços do parapeito
da janela...
Feliz
com a companhia de suas violetas, que alegravam o ambiente da sala de visitas,
a Velha Senhora nem reparou a tempestade que se avizinhava...
O
vento que surgiu de repente, ela não sabia de onde, nem como se formaram as
nuvens carregadas de chuva...
Impactados,
os vasinhos de violetas, mesmo protegidos pelo parapeito da janela e por um
grosso plástico que os cobria, foram derrubados, um a um, de sua frágil
proteção...
Apenas
ficou a antiga violeta lilás, a primeira de todas, isolada em seu vasinho...
A
Velha Senhora nunca compreendeu como a violeta lilás sobreviveu à fúria da
tempestade...
No
seu íntimo, sabia que ela mesma, já enfrentara tantas tempestades, surgidas do
nada... e sobrevivera...
Decidiu
que não mais voltaria a ter uma coleção como aquela, porque a dor da perda
superou em muito a alegria da presença de seus preciosos vasinhos...
Lembrou-se
de todos os abandonos, despedidas, idas e vindas, em sua longa vida, e já não
mais sentia vontade de reiniciar sua amada coleção...
Sentou-se
à beira da janela, em seu lugar preferido, na velha cadeira de balanço, à
espera de um milagre...
Seu
coração apertou-se quando se lembrou que aprendera que as violetas simbolizam a
humildade e, também, a saudade...
Foram,
apenas, essas que lhe restaram...
Todo amor dedicado às plantas e
animais é retribuído com a silenciosa companhia que oferecem.
Em memória de minha mãe,
Maria
Irene
(1918 – 2020)
Flores anunciam a primavera,
Frutas amadurecem no verão,
Ventos agitam o outono,
Chuvas umedecem o inverno,
Dores entristecem o coração.