AS
ROSAS DE OUTRORA
Maria
da Glória Colucci
As
rosas exercem incrível fascínio sobre quem as aprecia.
Seu
magnetismo vem da delicadeza, colorido e aroma suave, que possuem.
Em
minha experiência de vida, aos oitenta anos, aprendi a admirá-las nas canções,
nos jardins, nos eventos formais, ou mesmo em aniversários...
Sempre
maravilhosas, em especial, as vermelhas!
Hoje,
ecos do passado trazem à memória antigas lembranças, quando escuto a
encantadora canção “As Rosas não Falam”, do melodioso Cartola.
Comecei
a amá-las desde sempre, porém, muito mais a partir de quando convivi com seu
doce perfume, em minha casa, nos idos de 1964. Cursava, à época, Direito, na
Faculdade Nacional, no Passeio Público, no Rio de Janeiro...
Em
nossa humilde casa, que abrigava meus pais e irmãos, havia uma bela roseira,
próxima ao portão de acesso à moradia e ao jardim.
Tão
linda! Tão viçosa! Carregada de rosas, de agradável perfume e, por óbvio, de
muitos espinhos...
Ao
passar por ela, era necessário se esgueirar, cuidadosamente, para não ser
atingido pelos espinhos e galhos e não derrubar as rosas que a enfeitavam...
Ninguém
ousava podá-la, porque poderia se enfraquecer e perder o viço, afetando os
nascentes botões.
Ao
anoitecer, a formosa roseira e seu suave aroma se misturavam ao inebriante
cheiro do manacá.
Hoje,
ao visitar as floriculturas de Curitiba, em busca de flores, ainda me emociono
ao ver as coloridas rosas, em tantas cores, mesmo quando ladeadas por raras
orquídeas.
Recebi,
ao longo de minha vida acadêmica, em diversas situações, buquês de rosas, em
graciosas homenagens; apenas por amorosas gentilezas de alunos e amigos, em
formaturas, premiações e/ou por gestos de simples gratidão.
Relembro
as brincadeiras de roda, os jogos de amarelinha, de casinha, os cabos-de-guerra
etc., onde havia inocente alegria e espontaneidade, e lá estavam as roseiras
por perto...
A
mencionada casa, de minha juventude, embora simples, possuía uma arquitetura
com traços vintage, com uma varandinha e sacadas com colunas, uma escada
com poucos degraus, que lhe davam um ar acolhedor... Duas janelas, pequenas,
laterais à porta de entrada, com vidros coloridos, permitiam ver a florida
roseira em todo seu esplendor...
Nas
brincadeiras, cantávamos com vozes infantis e desafinadas:
Fiz a cama na varanda
Me esqueci do cobertor
Deu um vento na roseira
Ai meus cuidados
Me cobriu toda de flor...
Tudo,
enfim, parecia convergir para estreitar o meu amor pelas rosas.
Quando, na
minha juventude, voltava para casa, do meu estágio em um escritório de
advocacia, no terceiro ano da FND – Faculdade Nacional de Direito, à época
pertencente à Universidade do Brasil, lá estava a amada roseira chamando minha
atenção...
Os
movimentos acadêmicos, dos idos de 1964 em diante, repudiando os tempos da
ditadura, o medo de ser presa e sumir nos porões do terror e tortura dos
opressores, nos fizeram calar por longo tempo...; escurecendo os horizontes dos
jovens de minha época.
Tinha
tantos sonhos, alguns foram realizados, outros não; mas o principal deles,
exercer o magistério no Direito, consegui alcançar...
Ao
lado dos sucessos no ensino do Direito, com publicações e prêmios, aprendi a
conviver com os obstáculos criados por velados antagonismos, devido à minha
condição feminina.
Como
sempre acontece, por mais “perfumadas” que sejam as alegrias e os sucessos
profissionais, sempre há dissabores.
O
mesmo ocorre no convívio com as rosas e seus espinhos; por conta dos
“parasitas”, que se escondem nos seus ramos; como tive a experiência de
suportar.
Digo
“suportar” porque uma lagarta escondida entre as folhas da tão admirada
roseira, à beira do portão, queimou meu braço esquerdo, de tal maneira, que
tenho até hoje, passados 60 (sessenta) anos, a marca da extensa ferida feita à
época...
As feridas da alma não se
curam com doces lembranças, mas, com o perfume do perdão, que permanece até o
fim da vida.