O CANTO DO
GALO
Maria da
Glória Colucci
O Galo
andava pensativo e triste de um lado para outro em seus limites territoriais –
o galinheiro.
Procurava
não tirar os olhos dos afazeres das galinhas. Fiscalizando cada detalhe dos seus
desempenhos...
No entanto,
ainda havia em seu coração um sentimento de inutilidade, ou pouca valia de suas
atribuições.
Pensava
consigo mesmo:
– As
galinhas produzem muitos ovos e os donos estão sempre preocupados para que não
adoeçam. São muito importantes...
Continuou
analisando a situação:
– Seus ovos
são vendidos no mercado cada dia mais caros... Recebem rações balanceadas e
aparecem em exposições e feiras com um carimbo de “produto de qualidade” ...
E ele – o
Galo – o que recebia de atenção, reconhecimento e apreço pelo seu trabalho?
Nada!
Mas, havia
nascido naquele espaço; ali tinha vivido longos anos; fora “pai” de muitos
pintinhos... Não conhecia outra “família”: lá estavam suas irmãs e irmãos e,
também, seus amigos.
Uma manhã,
porém, o cuidador deixou a porta do galinheiro entreaberta. Chegou, enfim, sua
grande oportunidade de sair pelo mundo... Iria encontrar seu próprio rumo, um
lugar onde mostraria seus méritos e serviços...
O “Sol”
ainda não havia nascido. Era ainda bem escuro, quando pegou seus poucos trastes
e partiu...
Andou
muito... O Sol já estava em pleno meio-dia; sedento e faminto, não havia
encontrado um lugar para pousar e descansar sem medo...
Nos
galinheiros que encontrou pelo caminho não havia vaga para mais “um galo” e,
ele, não tinha habilidade para fazer mais nada... Somente o que um galo
experiente deve fazer – cantar...
Aquietou-se.
Reavaliou suas atividades no galinheiro. Cabia-lhe dar ordens, fiscalizando o
trabalho das galinhas – mantendo a produção de ovos.
Também,
tinha a missão de promover a segurança, avisando aos cuidadores a aproximação
de inimigos, tempestades ou outros agravos que afetariam o galinheiro... Tinha
importância, também...
Resolveu,
então, voltar para casa, enquanto ainda era noite... Precisava chegar antes do
amanhecer, porque, afinal de contas, o “Sol” só apareceria no horizonte se ele
cantasse bem alto, comandando o raiar de um novo dia...
Chegou ao
galinheiro, ofegante e apressado. Foi rodeado por todas as galinhas que lhe
perguntavam, curiosas, gritando, ao mesmo tempo, porque se ausentara. Com ares
de superioridade, o Galo respondeu:
– Saí para
resolver negócios particulares pendentes!
Admiradas,
as galinhas não ousaram lhe perguntar mais nada e o saudaram, com todo o
carinho, lamentando sua falta.
Então, a
paz, a ordem e o respeito voltaram ao galinheiro e cada qual retornou aos seus
afazeres.
Belo, o
“Sol”, brilhou no horizonte, outra vez, ao canto do galo...
O prazer de servir confere às pequenas tarefas um valioso e excelente
significado: ter um propósito no mundo dado por Deus.