OS BRINCOS
DE ESMERALDA
Maria da
Glória Colucci
Era ainda
bem jovem quando ganhou o par de brincos de seu amado esposo. Estavam
apaixonados e viviam de modo simples...
A joia era
de família e devia ser guardada como verdadeira raridade e autêntica
relíquia...
O tempo foi
passando... e, em algumas ocasiões festivas, como Natal e Ano Novo, tinha
pensado em usá-los... Mas acabava por desistir...
Os filhos chegaram.
As despesas aumentaram e os recursos cada vez se tornavam mais escassos...
Ela
desenvolveu, com o tempo, o hábito de guardar as melhores roupas, sapatos e
adereços..., para algum dia, quem sabe, enfeitar-se...
Em algumas
ocasiões, seu gentil esposo a estimulara a colocar os brincos, amoroso presente
dos primeiros anos de casamento... Mas, não fora ouvido!
As lindas
esmeraldas, no delicado estojo de veludo verde, foram ficando opacas, ofuscadas
pela falta de contato com a luz e o ar...
Sua pequena
moradia foi sendo entulhada com objetos que recebera, presentes de amigos e
parentes... Não se desfazia de nada...
Tornou-se, a
cada dia, mais difícil circular entre os apertados móveis, caixas, almofadas,
louças, enfeites, etc...
Por fim, seu
amado esposo foi levado para a morada eterna... Seus filhos foram embora...
Cada um encontrou seu próprio destino... e ela, rodeada pelos verdadeiros
entulhos que juntara, não tinha força para doá-los...
Procurou
pelos brincos de esmeralda; pensou em usá-los... Mas, não tinha nenhuma roupa à
altura. Havia emagrecido tanto que seu pescoço e braços pareciam tão esquálidos
que não combinavam com tão valiosa joia...
Revirou as
gavetas...; começou a separar peças de roupas da juventude; louças antigas,
sapatos mofados... tudo sem uso, mas inutilizado pelo tempo...
Começou a
chorar, desesperada... Não havia quem a consolasse... Por que, pensou, dei mais
valor às coisas do que às pessoas? E os brincos de esmeraldas nunca foram
usados...
Objetos guardados falam mais alto do que parece; trazendo memórias, por
vezes, muito dolorosas sobre o tempo perdido.