ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

03 março 2026

 

OS BRINCOS DE ESMERALDA

                                                      Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Era ainda bem jovem quando ganhou o par de brincos de seu amado esposo. Estavam apaixonados e viviam de modo simples...

                                    A joia era de família e devia ser guardada como verdadeira raridade e autêntica relíquia...

                                    O tempo foi passando... e, em algumas ocasiões festivas, como Natal e Ano Novo, tinha pensado em usá-los... Mas acabava por desistir...

                                    Os filhos chegaram. As despesas aumentaram e os recursos cada vez se tornavam mais escassos...

                                    Ela desenvolveu, com o tempo, o hábito de guardar as melhores roupas, sapatos e adereços..., para algum dia, quem sabe, enfeitar-se...

                                    Em algumas ocasiões, seu gentil esposo a estimulara a colocar os brincos, amoroso presente dos primeiros anos de casamento... Mas, não fora ouvido!

                                    As lindas esmeraldas, no delicado estojo de veludo verde, foram ficando opacas, ofuscadas pela falta de contato com a luz e o ar...

                                    Sua pequena moradia foi sendo entulhada com objetos que recebera, presentes de amigos e parentes... Não se desfazia de nada...

                                    Tornou-se, a cada dia, mais difícil circular entre os apertados móveis, caixas, almofadas, louças, enfeites, etc...

                                    Por fim, seu amado esposo foi levado para a morada eterna... Seus filhos foram embora... Cada um encontrou seu próprio destino... e ela, rodeada pelos verdadeiros entulhos que juntara, não tinha força para doá-los...

                                    Procurou pelos brincos de esmeralda; pensou em usá-los... Mas, não tinha nenhuma roupa à altura. Havia emagrecido tanto que seu pescoço e braços pareciam tão esquálidos que não combinavam com tão valiosa joia...

                                    Revirou as gavetas...; começou a separar peças de roupas da juventude; louças antigas, sapatos mofados... tudo sem uso, mas inutilizado pelo tempo...

                                    Começou a chorar, desesperada... Não havia quem a consolasse... Por que, pensou, dei mais valor às coisas do que às pessoas? E os brincos de esmeraldas nunca foram usados...

 

 

 

Objetos guardados falam mais alto do que parece; trazendo memórias, por vezes, muito dolorosas sobre o tempo perdido.