PÃO
NOSSO
Maria da Glória Colucci
Amanhecia
quando a Velha Senhora chegou à porta da padaria, apenas entreaberta...
Pouco
a pouco, os fregueses foram aumentando a fila, aguardando o pão que ainda
assava no antigo forno à lenha...
Cheirava
tão saboroso que dava água na boca de quem esperava...
Lembrou-se
que desde adolescente ia à padaria bem cedo, todas as manhãs, comprar pão para
a família.
Agora,
havia rumores que o padeiro estava deixando o ofício, que lhe fora ensinado por
seu pai... Alegavam os patrões que a cada dia as suas habilidades perdiam o
interesse, face aos avanços da tecnologia.
O
pão, hoje, chega “congelado”, bastando, apenas, colocá-lo no forno elétrico, de
altas temperaturas e, em poucos minutos, está pronto para consumo.
No
entanto, para manter a tradição, todas as manhãs, antes das 6 horas, a antiga
padaria ainda fazia uma fornada para seus fieis fregueses...
–
Que pena! Restam poucos padeiros de ofício! Pensou a Velha Senhora.
Voltou,
vagarosamente, para casa, pensando que, talvez, fosse interessante ler um pouco
da história da panificação...
Consultou
sua velha coleção da Barsa, e encontrou algumas informações interessantes.
Leu
que os primeiros pães, que se têm notícia, remontam a 10.000 a.C, no período
neolítico... Eram assados em pedras quentes ou cinzas...
Os
egípcios foram os primeiros a substituírem as pedras pelo forno. Em Jerusalém,
havia uma rua só de padeiros, que costumavam fermentar o pão; mas, nos eventos
religiosos, ofereciam apenas os pães ázimos (sem fermento).
Em
Roma, as mulheres tinham como tarefa doméstica assar o pão em casa, em fornos
improvisados.
As
padarias do bairro, onde havia passado a infância e adolescência, faziam o pão
francês; mas, também, com outros condimentos e sabores.
Trigo,
centeio e sal produziam os pães preferidos, chamados de “pão branco”, ou “pão
preto”, os mais procurados pelos fregueses,
Broas,
pães doces, roscas, etc, além das torradas, feitas com o “pão dormido”, ou
“farinha de roscas” (ou de pão...), conforme se chamava à época.
Em
meio às suas reflexões, chegou em casa...
Notou,
então, que carregava os pães em uma sacolinha de plástico...
Lembrou-se
que, em sua adolescência, havia um tipo especial de papel, usado para
rascunhos, anotações, cálculos...
Era
o conhecido “papel de pão”, reutilizado pelas mães e crianças para escrever,
desenhar, fazer listas de compras...
Pensou,
com um certo ar nostálgico:
–
Será que ainda existe? Não me lembro de tê-lo visto, recentemente...
Começou a
saborear o pão, ainda quente, enquanto sentiu que suas lembranças quase a
fizeram chorar...
Comentou
consigo mesma:
–
As memórias, às vezes, nos pregam cada peça!...
“Em homenagem aos padeiros e seu precioso
trabalho”.