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15 abril 2026

A PULGA FALANTE

 

A PULGA FALANTE

                                                        Maria da Glória Colucci     

 

 

                                    Cansada de não ser ouvida nas Assembleias dos Bichos, a pulga decidiu que ia fazer um curso de oratória.

                                    Começou por longa pesquisa sobre a duração, o preço e os professores disponíveis.

                                    Surpreendeu-se, positivamente, com a variedade e os valores acessíveis cobrados dos interessados, além das exigências quanto ao treinamento dos alunos...

                                    Muitos dos concluintes, conforme a pulga constatou, se destacaram pelo brilho dos seus discursos na festa de formatura, dentre os quais o tucano...

                                    Entusiasmada, iniciou as aulas, dedicando-se, fervorosa e atenta, aos exercícios vocais...

                                    Treinou o tom de voz que, apesar de fraca, pela sua pequena estatura, era agradável e melodiosa.

                                    Seus esforços lhe valeram alegrias, considerando-se satisfeita quando recebeu o certificado de aptidão em oratória...

                                    Marcada a Assembleia Anual dos Bichos, a pulga inscreveu-se como oradora na abertura do esperado evento; quando eram apresentadas novas propostas em benefício dos mais vulneráveis...

                                    O microfone foi ajustado no máximo de sua potência, para que sua tímida voz fosse ouvida por todos.

                                    Recebeu muitos aplausos, como aconteceu com todos os oradores que participavam da abertura...

                                    Terminada a Assembleia, constatou a esforçada pulga que nenhuma das propostas inovadoras foi aprovada, nem sequer examinada...

                                    Foram mantidos os mesmos procedimentos e privilégios de sempre.

                                    Retornando à sua morada, sentiu profunda tristeza e decepção com o ocorrido, apesar de seu empenho e preparo.

                                    Então, ao passar, ouviu o papagaio conversar com a arara dizendo:

                                    – Vencemos mais uma vez! Tudo ficou como antes!

                                    Ao que a arara replicou:

                                    – Tolos! Ainda não entenderam que suas ideias não interessam aos maiorais?

                                    Foi, então, que a pulga compreendeu o abismo existente entre seus sonhos de mudanças e inovação e a realidade dos fatos. 

                                    A coruja, com sua proverbial sabedoria, vendo o desanimo da pulga e seus inúteis esforços, acrescentou:

                                    – Não desanime! Os sonhadores são os únicos que podem resistir ao tradicionalismo e promoverem mudanças...

                                    Em silêncio, a pulga prosseguiu em seu caminho, nutrindo leve esperança que, talvez, algum dia, sua fraca voz pudesse ser ouvida pelos governantes..., em prol dos mais vulneráveis. 

 

 

A exclusão social dos mais pobres e vulneráveis somente será extirpada pelo acesso à educação e pleno exercício dos direitos.