ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

07 abril 2026

O HOMEM E O GUARDA-ROUPAS

 

O HOMEM E O GUARDA-ROUPAS

                                                                                                                       Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Foi criado com todo carinho, desde pequenino. Alimentado e acarinhado, por uma mãe carinhosa e dedicada. Nada lhe faltava... Tinha tudo para ser alguém amoroso e sensível.

                                    O tempo passou. Nada lhe parecia aprimorar os sentimentos. Sempre rude, agindo como se não tivesse recebido tanta atenção em sua adolescência e juventude, muito além do que merecia...

                                    Suas dificuldades de aceitar limites eram visíveis... Não conseguia obedecer às mínimas ordens, fossem de quem fossem... A qualquer “não” que recebia distribuía grosserias para todos os lados... 

                                    Um belo dia, recebeu de herança um guarda-roupas, que pertencera à sua avó materna. Com cinco portas, construído por mãos habilidosas, cuidadosamente preservado..., de madeira maciça.

                                    Veio à sua memória o quarto da avó. Parecia tão grande e espaçoso... Talvez fossem suas recordações de infância...

                                    Seus pensamentos, em turbilhão, se avolumaram em sua mente doentia... Quanto desperdício de propostas de trabalho, de cursos e estudos que fizera... Não conseguia ficar em nenhum emprego. Modelou suas atitudes no ódio e no rancor.

                                    Tinha, além de tudo, profunda inveja de seu irmão mais novo, que crescera profissionalmente e vivia ajudando sua mãe.

                                    Não aproveitou as oportunidades. Desperdiçou-as movido pelo medo e falta de autoestima. Nunca admitira os próprios erros...

                                    Em um ato extremo, lançou-se sobre o guarda-roupa e o desmontou peça por peça. Arrancou-lhe as portas, dobradiças e fechaduras e lançou-o na via pública como lixo...  

                                    Aos seus olhos doentios, derrubara um obstáculo... Mas, na verdade, acrescentara aos seus erros mais um peso de ingratidão e desonra à família e aos que o ajudaram.

                                    Deitou-se. Adormeceu. Quando acordou, o guarda-roupa tinha saído do seu quarto, mas, nunca de suas memórias e desvarios.

 

 

 

O ódio e o rancor são instrumentos de destruição das mais honrosas memórias.