O HOMEM E O
GUARDA-ROUPAS
Maria da
Glória Colucci
Foi criado
com todo carinho, desde pequenino. Alimentado e acarinhado, por uma mãe
carinhosa e dedicada. Nada lhe faltava... Tinha tudo para ser alguém amoroso e
sensível.
O tempo
passou. Nada lhe parecia aprimorar os sentimentos. Sempre rude, agindo como se
não tivesse recebido tanta atenção em sua adolescência e juventude, muito além
do que merecia...
Suas
dificuldades de aceitar limites eram visíveis... Não conseguia obedecer às
mínimas ordens, fossem de quem fossem... A qualquer “não” que recebia
distribuía grosserias para todos os lados...
Um belo dia,
recebeu de herança um guarda-roupas, que pertencera à sua avó materna. Com
cinco portas, construído por mãos habilidosas, cuidadosamente preservado..., de
madeira maciça.
Veio à sua
memória o quarto da avó. Parecia tão grande e espaçoso... Talvez fossem suas
recordações de infância...
Seus
pensamentos, em turbilhão, se avolumaram em sua mente doentia... Quanto
desperdício de propostas de trabalho, de cursos e estudos que fizera... Não
conseguia ficar em nenhum emprego. Modelou suas atitudes no ódio e no rancor.
Tinha, além
de tudo, profunda inveja de seu irmão mais novo, que crescera profissionalmente
e vivia ajudando sua mãe.
Não
aproveitou as oportunidades. Desperdiçou-as movido pelo medo e falta de
autoestima. Nunca admitira os próprios erros...
Em um ato
extremo, lançou-se sobre o guarda-roupa e o desmontou peça por peça.
Arrancou-lhe as portas, dobradiças e fechaduras e lançou-o na via pública como
lixo...
Aos seus
olhos doentios, derrubara um obstáculo... Mas, na verdade, acrescentara aos
seus erros mais um peso de ingratidão e desonra à família e aos que o ajudaram.
Deitou-se.
Adormeceu. Quando acordou, o guarda-roupa tinha saído do seu quarto, mas, nunca
de suas memórias e desvarios.
O ódio e o rancor são instrumentos de destruição das mais honrosas
memórias.