VESTIDO AZUL
Maria da Glória Colucci
No
seu cotidiano, vestia-se discreta e elegantemente.
Sempre
de blazer, brincos delicados e calças compridas tradicionais.
Mudava,
apenas, as cores das peças, mas o estilo era sempre o mesmo: formal, corte de
alfaiate, estruturado, sem detalhes chamativos...
O
tempo passava e, ela, uma empresária destacada, não conseguia formar sua
família. Não encontrava alguém que pudesse ser seu companheiro de vida...
Os
que a conheciam de perto sabiam, em secreto, mas não ousavam comentar, que a
Cinderela gostava de usar, em seus momentos informais e de descanso, um certo
tipo de calçado...
De
fato, a formosa Cinderela apreciava calçar os tamancos de sua mãe, que lhe
faziam lembrar suas travessuras de infância...
Este
hábito, divertido, porém estranho, para uma senhorita tão elegante..., refletia
nos seus pés, um temperamento fechado, com pouco diálogo, às vezes,
indelicado...
Suspeitava-se
que era muito solitária, quase não saía, ou tinha amizades...
Mas,
agora, estava prestes a realizar seu sonho de juventude – dançar com um
elegante cavalheiro, em um grande baile...
Tinha
tudo preparado para a aguardada ocasião.
Lá
estava, junto ao espelho... seu vestido azul, de organza, forrado em tafetá, de
igual cor, com saia longa godê, que parecia flutuar...
Vestiu-o
várias vezes; ajustando o laço de pontas compridas, em cujo nó havia uma
camélia, arrematando, em suave e delicado azul...
Escolheu
um sapato de salto alto, bico fino, cor prata, combinando com a pequena
bolsinha, ornada com discretos cristais Swarowsky...
Sentiu-se
pronta, aguardando com ansiedade a chegada do sábado, quando, em seu carro,
recém-adquirido, triunfante, subiria as escadarias do Clube das Rosas.
Imaginou-se
recebida, na entrada, por um gentil e educado cavalheiro, que a conduziria pelo
salão... Dançariam a noite toda.
No
entanto, aguardou durante todo o baile que este momento chegasse; mas nada
aconteceu...
Amanheceu.
A Cinderela voltou ao seu carro, com uma leve sensação de ter virado “Gata
Borralheira” ...; de novo.
Entrou
no belo carro e sentou-se ao volante de sua “carruagem”, que a esta altura
tinha se tornado uma “abóbora” gigante...
Cansou-se.
Tirou os sapatos finos e calçou, feliz, seus tamancos de madeira; bem talhados,
que vieram de sua avó; calçara os pés de sua mãe e, agora, os seus próprios
pés...
Chegando
em casa, decepcionada, perguntava-se, às lágrimas: Por que não consigo atrair
nenhum cavalheiro? O que há de errado comigo?
Pobre
Cinderela de Tamancos, ninguém teve a coragem de dizer-lhe, com toda
sinceridade, que o principal obstáculo, que a impedia de ser feliz, era ela
mesma e sua notória timidez e falta de traquejo social.
O diálogo sincero é uma
chave de ouro que abre muitas portas, sobretudo, a porta do coração...