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07 janeiro 2026

VESTIDO AZUL

 

VESTIDO AZUL

                                                 Maria da Glória Colucci

 

 

                                    No seu cotidiano, vestia-se discreta e elegantemente.

                                    Sempre de blazer, brincos delicados e calças compridas tradicionais.

                                    Mudava, apenas, as cores das peças, mas o estilo era sempre o mesmo: formal, corte de alfaiate, estruturado, sem detalhes chamativos...

                                    O tempo passava e, ela, uma empresária destacada, não conseguia formar sua família. Não encontrava alguém que pudesse ser seu companheiro de vida...

                                    Os que a conheciam de perto sabiam, em secreto, mas não ousavam comentar, que a Cinderela gostava de usar, em seus momentos informais e de descanso, um certo tipo de calçado...

                                    De fato, a formosa Cinderela apreciava calçar os tamancos de sua mãe, que lhe faziam lembrar suas travessuras de infância...

                                    Este hábito, divertido, porém estranho, para uma senhorita tão elegante..., refletia nos seus pés, um temperamento fechado, com pouco diálogo, às vezes, indelicado...

                                    Suspeitava-se que era muito solitária, quase não saía, ou tinha amizades...

                                    Mas, agora, estava prestes a realizar seu sonho de juventude – dançar com um elegante cavalheiro, em um grande baile...

                                    Tinha tudo preparado para a aguardada ocasião.

                                    Lá estava, junto ao espelho... seu vestido azul, de organza, forrado em tafetá, de igual cor, com saia longa godê, que parecia flutuar...

                                    Vestiu-o várias vezes; ajustando o laço de pontas compridas, em cujo nó havia uma camélia, arrematando, em suave e delicado azul...

                                    Escolheu um sapato de salto alto, bico fino, cor prata, combinando com a pequena bolsinha, ornada com discretos cristais Swarowsky...

                                    Sentiu-se pronta, aguardando com ansiedade a chegada do sábado, quando, em seu carro, recém-adquirido, triunfante, subiria as escadarias do Clube das Rosas.

                                    Imaginou-se recebida, na entrada, por um gentil e educado cavalheiro, que a conduziria pelo salão... Dançariam a noite toda. 

                                    No entanto, aguardou durante todo o baile que este momento chegasse; mas nada aconteceu...

                                    Amanheceu. A Cinderela voltou ao seu carro, com uma leve sensação de ter virado “Gata Borralheira” ...; de novo.

                                    Entrou no belo carro e sentou-se ao volante de sua “carruagem”, que a esta altura tinha se tornado uma “abóbora” gigante...

                                    Cansou-se. Tirou os sapatos finos e calçou, feliz, seus tamancos de madeira; bem talhados, que vieram de sua avó; calçara os pés de sua mãe e, agora, os seus próprios pés...

                                    Chegando em casa, decepcionada, perguntava-se, às lágrimas: Por que não consigo atrair nenhum cavalheiro? O que há de errado comigo?

                                    Pobre Cinderela de Tamancos, ninguém teve a coragem de dizer-lhe, com toda sinceridade, que o principal obstáculo, que a impedia de ser feliz, era ela mesma e sua notória timidez e falta de traquejo social.

 

 

 

O diálogo sincero é uma chave de ouro que abre muitas portas, sobretudo, a porta do coração...

O SOLITÁRIO OBSERVADOR

 

O SOLITÁRIO OBSERVADOR

                                                                 Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Com a pontualidade de um relógio, a janela se abria às 6:00 horas da manhã, quando o movimento dos veículos apenas começava...

                                    De frente para a agitada avenida, a janela se tornou uma espécie de “point”, um quase “mirante”, dava visão ampla da rotina do bairro.

                                    Não se pode precisar quando a prática observadora se iniciou, e a janela do 4º andar se transformou em lugar privilegiado para o atento morador.

                                    Talvez, sua presença constante na janela tenha sido motivada pela aposentadoria; quando o tempo de inatividade forçada chega à vida de toda pessoa...

                                    Comecei a notar sua presença solitária à janela, quando me dirigia ao trabalho, pela manhã e à tarde, usando o sistema de transporte do biarticulado.

                                    Vivia-se o enigmático ano de 2001, após os ataques das Torres Gêmeas, no Centro Financeiro de Nova York; ao mesmo tempo que o mundo imergiu em conjecturas sobre o futuro dos negócios e a insegurança do dólar nas “Bolsas”. Moedas tradicionais, como a libra e o já enfraquecido real, também foram atingidas...

                                    Nada parecia abalar o senhor do 4º andar, em sua tranquila vida na janela...

                                    Uma postura isolada pode, todavia, não despertar grandes reflexões sobre a passagem do tempo e a rapidez como o corpo envelhece e a sociedade “descarta” seus trabalhadores (as)...

                                    Não é o que penso! Porque se trata de algo muito revelador da condição da pessoa idosa no Brasil...

                                    De fato, aproximadamente, 15 anos se passaram e o ritual do observador do 4º andar continuou...

                                    Repentinamente, a meu ver, não mais se postou à janela.

                                    Senti sua falta!

                                    Inúmeras questões afloraram à minha mente:

                                    – Estaria doente? Ficara acamado e não mais conseguiu permanecer de pé?

                                    Com a ausência definitiva de sua figura à janela, indaguei-me, com tristeza, se não teria morrido? Teria se mudado?

                                    Nunca tive respostas...

                                    Hoje, todavia, rememoro este fato, transcorrido há mais de 10 anos, e que continua tão presente em minha memória, porque tenho uma velhice ativa, pela graça de Deus.

                                    Observo, porém, que em nosso País ainda faltam políticas públicas que intensifiquem os cuidados voltados ao preparo para os tempos da aposentadoria...

                                    Minimizar o abandono emocional e afetivo daqueles que, igualmente, contribuíram para o desenvolvimento da sociedade, é um dever de todos.

                                    Sucessivos escândalos em organismos públicos, envolvendo os aposentados; golpes pelo telefone e em caixas eletrônicos, são, também, corriqueiros...

                                    Ainda se vê o idoso (a), nos pretensos dias “avançados” de hoje, ancorados na Inteligência Artificial (IA), como pessoas de “segunda categoria”, “superados”, uma espécie de “peso morto” para a sociedade...

                                    Que a imagem do solitário observador do 4º andar se torne uma espécie de ícone do abandono a que são legados os “velhos” no País.

 

 

 

As injustiças contra a pessoa idosa são o reflexo do abandono moral e afetivo de uma cultura utilitarista e desumana.