A MULA
E SUAS CARGAS
Maria
da Glória Colucci
A
Mula carregava no lombo pesada carga, distribuída em dois grandes sacos de
estopa, de igual tamanho.
Do
lado esquerdo, estava o carregamento de areia e, do direito, de açúcar.
Fazia
este trajeto todos os dias, levando ao seu destino as mesmas mercadorias, do
mesmo peso e textura.
Começou
a reparar, embora sendo animal não muito inteligente, que havia dias que o peso
parecia aumentar...
Pensou
com seus “botões” que se soubesse falar, perguntaria ao condutor que a acompanhava porque isso acontecia; porém, mesmo que falasse, não teria tal
audácia, porque era homem irado, violento, de “maus bofes”, como diziam...
Havia
muitos que o viam como verdadeiro verdugo, perverso e sem misericórdia, pois
que chicoteava os animais de carga, sem explicação ou motivo...
Assim,
passaram-se meses e anos e a Mula, envelhecendo, pediu ao Criador que lhe
resolvesse, ainda que só no pensamento, este enigma, que a acompanhara por toda
a vida...
O
Senhor Deus, Todo Poderoso, antes de responder às suas indagações, lhe fez
outra inquietante pergunta:
–
Mula, como és obediente, submissa e laboriosa, observe quando acontece
isso: –
em dia de chuva ou de sol?
Destarte,
ainda um tempo se passou, até que a Mula e seu condutor, foram surpreendidos
por grande tempestade no caminho, sem que houvesse onde se abrigar...
À
medida que andava, a Mula percebeu que a carga do lado direito tinha,
praticamente, desaparecido ao longo do trajeto e o finíssimo açúcar
dissolvido...
No
entanto, do lado esquerdo, o peso só aumentava, porque a grossa areia havia se
encharcado, dobrando o peso.
Neste
instante, a Mula, então, entendeu que já podia responder à pergunta do
Altíssimo! O que fez, em pensamento, de imediato...
Mas,
não conseguiu compreender porque o açúcar se dissolvia e a grossa areia, não;
mais pesada ficava?!
O
Todo Poderoso, vendo a sinceridade de seu coração humilde, então, lhe
respondeu:
–
A chuva torrencial são as oportunidades que todos os seres humanos recebem de
Deus, de pedir e oferecer perdão, dissolvendo as mágoas recíprocas, adoçando a
vida e o coração.
E
continuou em sua soberana lição, o Divino Criador:
–
A areia que não se desfaz, ainda que sob intensa chuva de oportunidades, é o
ódio; que muitos fazem questão de reter e nunca perdoar. Com o passar do tempo,
mais e mais, pesado o ódio vai ficando...
Estarrecida,
a Mula, ainda, pensou:
–
E o condutor que a vergastava sem parar, quem seria?
Respondeu,
ainda, o Maravilhoso Deus:
–
É o Mal, que açoita noite e dia os corações endurecidos; ao peso do ódio que
nutrem por outros seres humanos e, até mesmo, por animais...
Abaixando-se
ao chão, a Mula lançou para longe o saco de areia grossa, pesada e suja, e saiu
cavalgando livremente...
Olhando
para trás, viu que o condutor desaparecera, e então, sentiu-se leve como uma
pluma... podia até voar!...
E
foi trotando, alegremente, ficando a cada passo mais bela, mais atraente e
bonita... verificando, então, que não era mais uma Mula, mas um Ser Humano!
O perdão é uma dádiva divina, que
remove o ódio e transforma a vida do ser humano.