A ENTREVISTA
Maria da Glória Colucci
Na
pobreza em que vivia, tudo lhe parecia difícil. Faltava-lhe qualidade de vida,
alimentos e condições de moradia digna.
–
Como fazer milagres com um salário mínimo? Perguntava-se a mulher...
Decidida,
levantou-se bem cedo para tomar o ônibus. Estava com uma dor de cabeça que a
atormentava, pelo menos uma vez por dia...
O
primeiro desafio era conseguir sentar-se no ônibus, porque a viagem durava mais
de três horas.
Chegou
à cidade vizinha, decidida a voltar com um diagnóstico que aliviasse o longo
sofrimento.
Após
aguardar sua vez na clínica médica, foi atendida para a entrevista inicial.
A
fila de pacientes aumentava sem parar; e a agitação também.
Ela
observou que todos estavam silenciosos e sonolentos, porque, em sua maioria,
vinham de longe, tentando uma consulta...
O
atendente, apesar do dia apenas estar amanhecendo, parecia cansado e muito
irritado...; e sem paciência, perguntou-lhe:
–
Qual é o seu caso? Trouxe os documentos? Está com o cadastro em dia?
Atormentada
e confusa, a mulher respondeu-lhe:
–
Estou com uma dor de cabeça horrível! Acho que não vou aguentar...
Respondeu-lhe
o atendente, áspero:
– A senhora não poderia resolver isso na sua
cidade, precisava vir para a capital?
Quase
chorando a mulher respondeu-lhe:
– Lá não tem
ambulatório e eu não posso pagar consulta...; sou pobre!
O
funcionário, do alto de sua autoridade e ignorância, continuou, mais irritado
ainda:
–
A senhora está atrapalhando o atendimento dos outros e não tenho interesse na
sua vida particular, se é pobre ou não...
E
a fila aumentava mais e mais...
Acrescentou
o atendente, aos gritos, gesticulando:
–
Cada uma que me aparece! Vamos, já que a senhora veio ocupar a vaga de outro,
explique o seu problema de saúde para eu escolher o médico...
–
Já disse; tenho uma dor de cabeça terrível; acho que vou desmaiar...
–
Desmaie em outro lugar; chega de causar confusão... A senhora não poderia
resolver isso com um comprimido? Dor de cabeça é coisa comum...
Em
desespero, a mulher perguntou:
–
O que faço, senhor atendente?
–
Vá para casa e volte em outro dia mais cedo!
–
Será que o senhor não me arranja uma vaga para outro médico, sem ser para dor
de cabeça?
–
Por quê? Perguntou o funcionário.
–
Porque agora a dor está também na canela...; respondeu a mulher.
–
Como? Na canela?
–
É, sim, senhor. Acabei de receber um coice na canela!
–
Não vi. Coice de quem?
–
De uma mula...
–
Lamento, respondeu o atendente. Não temos esta especialidade aqui... um
veterinário?! Cada uma!...
–
O próximo da fila!
A
mulher foi embora para a rodoviária. Não chegou em casa. Morreu no caminho.
Teve um AVC.
A insensibilidade mata tanto
quanto a doença, a fome e a miséria; porque o abandono moral e afetivo do
vulnerável é uma chaga social.