O TREM
PARA SÃO LUIS
Maria
da Glória Colucci
No
final de cada ano escolar, os meses de dezembro a fevereiro eram destinados às
férias no Sítio São Luis.
Esperávamos,
com alegria e expectativa infantil, a viagem da “Maria Fumaça”, com duração de
vinte e quatro horas, até à morada de meus avós paternos.
Construída
nos moldes arquitetônicos da época, comprida (longa) e espaçosa, com muitos
cômodos, janelas e portas, era acolhedora e fresca.
Os
móveis que a guarneciam, cuidadosamente feitos à mão, tinham detalhes únicos,
talhados em madeira e palha nas suas estruturas.
Nas
paredes altas, retratos de família, antigos, preservavam lembranças queridas
dos antepassados.
Meus
avós, Zulmira e Pedro, eram muito afetuosos, além das tias Sara, Betinha, Vera
e Guiomar, que cuidavam de todos os sobrinhos; um verdadeiro bando de
“esfomeados” pelos doces, salgados e saborosos quitutes de milho...
Mas,
a viagem do Rio para a localidade onde o Sítio São Luis se encontrava,
Comendador Venâncio, era a parte mais excitante do trajeto.
A
“Maria Fumaça”, literalmente, soltando fogo pela boca (caldeira), lançava
durante todo o caminho férreo “fagulhas” que entravam pelas janelas do trem...
Os
vagões subiam a “serra” um a um, puxados por um mecanismo que os levava até o
ponto desejado (no topo) e iam, gradativamente, sendo unidos de novo à
“locomotiva”, onde estava o “foguista”, colocando lenha na caldeira...
Nós,
meus irmãos e meu pai, aguardávamos ansiosos a conclusão dos trabalhos, para
que a viagem prosseguisse.
Nossa
mãe, Irene, providenciava guarda-pós para vestirmos sobre as roupas de viagem
(vestidos e blusas, calças); porque a fuligem e a fumaça se incumbiam de
sujá-las muito bem...
Tudo
era festa!
Na
inocência de crianças de 7 (sete) a 10 (dez) anos, que quase nunca passeavam;
se compararmos com as oportunidades de lazer hoje, o cansaço, sono e medo de
que o “trem” escorregasse trilhos abaixo, não afastavam a alegria da viagem.
Na
chegada ao destino final, a estação de Comendador Venâncio, a “Maria Fumaça”
era saudada com vigorosas batidas do sino, que tinha a função de avisar que o
trem poderia sair a qualquer momento...
Descíamos
do trem a numerosa bagagem e, ainda, subíamos no carro de bois, que nos
esperava para um percurso de, aproximadamente, 6 quilômetros, até o Sítio São
Luis.
Na
chegada, cansados do longo percurso, sujos da fuligem da “Maria Fumaça”, com
fome, somente queríamos dormir...
Meu
pai nos deixava no Sítio São Luis, onde permanecia por apenas dois ou três
dias, e retornava para o trabalho no Rio de Janeiro e para ajudar minha mãe que
estava para dar à luz...
Até
hoje, ainda preservo na memória a diversão daqueles dias e as saudades que
sentia de meus pais pelos meses que passava longe; em uma época em que a
comunicação era inexistente...
Minha
avó, amorosa e boa, tinha uma paciência inacreditável com os netos e, à medida
que envelheço, admiro-a muito mais.
Sempre
fui muito introspectiva e observadora do entorno, por isso, as emoções daquela
época afloraram com tanta nitidez, apesar de terem ocorrido há mais de 70
(setenta) anos...
Agradeço
a todos que me propiciaram lembranças tão felizes; a meus pais que já partiram,
e a meus irmãos, que as compartilharam comigo.
A memória não envelhece se
os momentos desfrutados tiverem sido marcados pelo amor, na companhia dos mais
chegados.