ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

11 fevereiro 2026

O TREM PARA SÃO LUIS

 

O TREM PARA SÃO LUIS

                                               Maria da Glória Colucci

 

 

                                    No final de cada ano escolar, os meses de dezembro a fevereiro eram destinados às férias no Sítio São Luis.

                                    Esperávamos, com alegria e expectativa infantil, a viagem da “Maria Fumaça”, com duração de vinte e quatro horas, até à morada de meus avós paternos.

                                    Construída nos moldes arquitetônicos da época, comprida (longa) e espaçosa, com muitos cômodos, janelas e portas, era acolhedora e fresca.

                                    Os móveis que a guarneciam, cuidadosamente feitos à mão, tinham detalhes únicos, talhados em madeira e palha nas suas estruturas.

                                    Nas paredes altas, retratos de família, antigos, preservavam lembranças queridas dos antepassados.

                                    Meus avós, Zulmira e Pedro, eram muito afetuosos, além das tias Sara, Betinha, Vera e Guiomar, que cuidavam de todos os sobrinhos; um verdadeiro bando de “esfomeados” pelos doces, salgados e saborosos quitutes de milho...

                                    Mas, a viagem do Rio para a localidade onde o Sítio São Luis se encontrava, Comendador Venâncio, era a parte mais excitante do trajeto.

                                    A “Maria Fumaça”, literalmente, soltando fogo pela boca (caldeira), lançava durante todo o caminho férreo “fagulhas” que entravam pelas janelas do trem...

                                    Os vagões subiam a “serra” um a um, puxados por um mecanismo que os levava até o ponto desejado (no topo) e iam, gradativamente, sendo unidos de novo à “locomotiva”, onde estava o “foguista”, colocando lenha na caldeira...

                                    Nós, meus irmãos e meu pai, aguardávamos ansiosos a conclusão dos trabalhos, para que a viagem prosseguisse.

                                    Nossa mãe, Irene, providenciava guarda-pós para vestirmos sobre as roupas de viagem (vestidos e blusas, calças); porque a fuligem e a fumaça se incumbiam de sujá-las muito bem...

                                    Tudo era festa!

                                    Na inocência de crianças de 7 (sete) a 10 (dez) anos, que quase nunca passeavam; se compararmos com as oportunidades de lazer hoje, o cansaço, sono e medo de que o “trem” escorregasse trilhos abaixo, não afastavam a alegria da viagem.

                                    Na chegada ao destino final, a estação de Comendador Venâncio, a “Maria Fumaça” era saudada com vigorosas batidas do sino, que tinha a função de avisar que o trem poderia sair a qualquer momento...

                                    Descíamos do trem a numerosa bagagem e, ainda, subíamos no carro de bois, que nos esperava para um percurso de, aproximadamente, 6 quilômetros, até o Sítio São Luis.

                                    Na chegada, cansados do longo percurso, sujos da fuligem da “Maria Fumaça”, com fome, somente queríamos dormir...

                                    Meu pai nos deixava no Sítio São Luis, onde permanecia por apenas dois ou três dias, e retornava para o trabalho no Rio de Janeiro e para ajudar minha mãe que estava para dar à luz...

                                    Até hoje, ainda preservo na memória a diversão daqueles dias e as saudades que sentia de meus pais pelos meses que passava longe; em uma época em que a comunicação era inexistente...

                                    Minha avó, amorosa e boa, tinha uma paciência inacreditável com os netos e, à medida que envelheço, admiro-a muito mais.

                                    Sempre fui muito introspectiva e observadora do entorno, por isso, as emoções daquela época afloraram com tanta nitidez, apesar de terem ocorrido há mais de 70 (setenta) anos...

                                    Agradeço a todos que me propiciaram lembranças tão felizes; a meus pais que já partiram, e a meus irmãos, que as compartilharam comigo.

 

 

A memória não envelhece se os momentos desfrutados tiverem sido marcados pelo amor, na companhia dos mais chegados.      

OS DONOS DA LAGOA

 

OS DONOS DA LAGOA

                                                 Maria da Glória Colucci

 

                                     Os dias transcorriam calmos.

                                    A paz reinava na Lagoa, até o pequeno jacaré chegar, trazido pelo tratador...

                                    Tinha sido recolhido pela “Vigilância Veterinária”, apreendido e retirado de uma família, que o criava como animal de estimação...

                                    Trazido contra a sua vontade, e dos seus afetuosos donos, o pequeno jacaré sentiu-se ameaçado em sua frágil condição...

                                    Ficou a cada dia mais e mais desconfiado de tudo e de todos...

                                    Mas, ao permanecer por longo tempo na Lagoa, começou a descuidar de sua integridade, e ficar dormitando, placidamente, ao calor do sol...

                                    Então, um jacaré mais experiente da Lagoa, e muito esperto, lhe transmitiu uma proverbial verdade; advertindo-o dos perigos da desatenção:

                                    – “Jacaré que cochila vira bolsa”...

                                    Deu-lhe, também, outras instruções para ter sucesso na vida que o esperava em local tão frequentado...

                                    Aconselhou-o a não se envaidecer com os elogios; não comer guloseimas que os visitantes lhe atirassem e, sobretudo, não se espreguiçar fora da Lagoa, na grama que a rodeava, quando os visitantes estivessem no Parque...

                                    Mas, na insensatez e inexperiência de sua juventude, o jovem jacaré não lhe deu a merecida atenção.

                                    Continuou distraído. Preguiçoso e desinteressado como sempre; massageando o ego com os elogios recebidos; pensando consigo mesmo:

                                    – “Quem não é visto; não é lembrado”.   

                                    Em um inesperado dia, uma Comitiva de Especialistas visitou o Parque e a Lagoa, procurando por um jacaré que preenchesse certos requisitos de saúde, beleza e juventude...

                                    Ansioso por se destacar, enquanto os outros companheiros se escondiam no fundo das águas escuras da Lagoa, o jovem e pretensioso jacaré se esticou na grama...

                                    Expôs, com orgulho, sua bela forma, esperando ser escolhido...

                                    Foi o que aconteceu!

                                    Levado, após a captura, dentro de uma estreita gaiola; de pronto, não se deu conta da armadilha na qual caíra, por sua própria vontade e iniciativa...

                                    Conduzido ao local onde ficaria, viu que havia grande movimentação de público, indo e vindo...

                                    Ficou na exposição, em vitrina ornamentada, durante muitos dias.

                                    Afinal, entendeu que se tratava de uma “Feira de Acessórios Femininos e Masculinos”, mais adequadamente, de bolsas e sapatos...

                                    Em pânico, lembrou-se das advertências do experiente jacaré da Lagoa, a quem não dera a devida atenção.

                                    – Muito tarde! pensou...

                                    No entanto, não sabia que os referidos acessórios tinham sido confeccionados com material que imitava couro de jacaré...

                                    Os meses se passaram e na Lagoa todos o consideravam um caso perdido...; porém, para espanto dos seus moradores, um dia, o apavorado jacaré voltou...

                                    Estava mais amadurecido e respeitoso. Contou para os perplexos ouvintes, seus companheiros, que foi salvo por uma lei, que proibia o tráfico de animais e plantas silvestres, além de derivados, como couro, penas, chifres, etc.

                                    Assim, livrou-se no último minuto, quando seria vendido para o exterior e viraria “bolsa”, de uma grande marca internacional...

                                    Entenderam os moradores da Lagoa que os verdadeiros “donos” do espaço em que viviam eram eles...

 

 

A defesa e proteção dos animais e da Natureza é uma urgência inadiável; antes que a extinção de muitas espécies se torne irreversível.