O
CACHO DE UVAS
Maria
da Glória Colucci
A
avó andava pela areia e admirava a beleza das águas esverdeadas, em suaves
ondas, batendo nas pedras.
Na
agradável companhia de seu neto e filha, além de conhecidos e amigos,
desfrutava dos calmos dias de férias.
Observava
a luminosidade cadente do sol, já se debruçando no horizonte...
Quantas
expectativas havia acumulado em sua vida e, agora, parecia que uma a uma se
concretizavam.
Os
vendedores ambulantes ofereciam seus produtos, os mais variados, alguns
pareciam deliciosos, outros nem tanto...
Mas,
todos, a seu próprio modo, estavam certos que seus quitutes, frutos, objetos
praianos, seriam comprados pelos turistas...
Houve,
no entanto, uma banca de frutas, que chamou a atenção do menino, com uvas
grandes, verdes e adocicadas, que estavam à venda por preço acessível.
Ao
levantar o cacho de uvas, retirando-o de seu acomodado espaço na banquinha, o
menino verificou que as uvas, que estavam comprimidas na cesta, pareciam
amassadas, descoradas, com uma coloração escura, típica das frutas estragadas
pelo calor ou mesmo pelo decurso do tempo...
A
decepção em seu rosto adolescente foi perceptível; porque não havia outro lugar
onde poderia comprar as saborosas uvas verdes...
Perguntou
à avó: – E agora, vó?
Aproveitando
o momento, e a oportunidade de ensinar-lhe algo para sua vida, disse-lhe:
–
Querido, mesmo nas decepções da vida, há sempre algo que se pode aprender!
–
Peça um desconto no preço, acrescentou; e retire as uvas estragadas, comendo as
que estão em bom estado.
Pagando
o valor, o menino prosseguiu o passeio na companhia da avó e mãe, até o
entardecer daquele sábado de verão.
Refletindo
sobre tão singela e antiga memória, a avó passou a valorizar as situações,
mesmo as mais difíceis, procurando retirar algo de bom de cada momento vivido.
Em tudo existe uma oportunidade de
crescimento, basta ter o coração aberto para aprender, e humildade para
renunciar aos hábitos antigos.
Em memória de Felipe Cezar
(2008 - 2023)