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25 fevereiro 2026

AS TRANÇAS DE MARIA

 

AS TRANÇAS DE MARIA

                                                        Maria da Glória Colucci

                                   

 

                                    Permaneceu desolada à beira da cama, no modesto quarto de casal.

                                    Chorava inconsolável. Acabara de perder suas preciosas tranças.

                                    Desde criança tinha sido educada para amar sua família e respeitar os pais.

                                    Como única menina era a mais mimada dos irmãos, tendo se acostumado a receber dos pais gentilezas e “agradinhos” para alegrar sua infância.

                                    Os cuidados de sua mãe com seus longos cabelos pretos e crespos, davam-lhe uma aparência caprichosa, com duas tranças, grossas e bonitas.

                                    Casou-se cedo, aos 18 anos, muito mais para aliviar as despesas familiares de seus pais, do que por vontade própria.

                                    Nasceram de sua convivência conjugal, dois filhos, um casal, ambos amorosos e obedientes, porque os educara do mesmo modo que fora ensinada. 

                                    Sentiu aumentar a insegurança de sua nova família, quando o marido, todos os finais de semana, chegava em casa, bêbado e ao amanhecer; gastando o dinheiro ganho no trabalho de pedreiro.

                                    Sem preparo adequado para funções melhor remuneradas, assumiu tarefas de diarista em várias casas, dia após dia...

                                    Deixava os filhos na escola, em regime integral; dedicando-se às exaustivas condições do trabalho doméstico remunerado.

                                    Na monotonia de seus dias, o relacionamento conjugal de Maria foi se diluindo, até porque não conseguia suportar as contínuas bebedeiras e agressividade do companheiro...

                                    Resolveu interpelá-lo, buscando estabelecer um mínimo diálogo, chamando-o à responsabilidade de pai de família e marido, como já fizera antes; tentando manter a união...

                                    No entanto, enfurecido, o companheiro de Maria golpeou-a na cabeça e na face, derrubando-a no chão...

                                    Não satisfeito, cortou-lhe as tranças, como já tinha avisado que faria..., em discussões anteriores...

                                    Maria examinou, de relance, os 10 últimos anos de sua vida e entendeu que, embora ainda jovem, não tinha mais alento diante de tanta brutalidade.

                                    Esperou que o violento marido adormecesse.

                                    Arrumou as malas.

                                    Aguardou o amanhecer e, com os dois filhos, viajou para o interior, para casa de seus pais, de onde nunca deveria ter saído...

                                    Lá havia amor e respeito, embora os recursos financeiros fossem escassos.

                                    Antes de partir, foi à Delegacia da Mulher e relatou, nos detalhes, o que lhe havia ocorrido...

                                    Sabia de uma tal “Lei Maria da Penha”, que a protegeria da violência doméstica...

                                    Partiu, então, com profunda sensação de fracasso; mas, pensou consigo mesma:

                                    – Ainda estamos vivos! Eu e meus dois filhos conseguimos escapar de tanta violência...

                                    Ao amanhecer, o espantado companheiro acordou ao ouvir as batidas na porta da humilde casa.

                                    Era a Delegada de Polícia, com um mandado de busca e apreensão no interior da casa, dos instrumentos usados nas lesões corporais em Maria...

                                    Levando o violento companheiro para os procedimentos de praxe... Preso e envergonhado.

 

 

A Lei Maria da Penha é a melhor e mais eficaz ferramenta legal para a prevenção e combate à violência doméstica, disponível para as mulheres no Brasil.

A JABUTICABEIRA

 

A  JABUTICABEIRA

                                               Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Era a mais altiva árvore do pomar.

                                    Estava plantada no lugar desde quando o antigo dono a trouxera...

                                    Pequenina muda, ainda frágil em sua condição de semente recém-crescida, a jabuticabeira desejava, apenas, sobreviver às violentas e constantes intempéries...

                                    Os ventos fortes, com suas rajadas constantes, a fragilizavam, de tal modo, que pensou, em certa fase da sua vida, que não suportaria os invernos futuros...

                                    No entanto, com a chegada de cada nova primavera se alegrava e fortalecia seu tronco e galhos nascentes; enchendo-se de tímidas jabuticabas, que a embelezavam mais e mais...

                                    Com o seu acelerado crescimento e viço das folhas, a jabuticabeira despertou no dono do pomar mais cuidados e elogios...

                                    Aos poucos, encheu-se a jovem árvore de orgulho e esperanças de que seria a dominante do lugar...

                                    Assim aconteceu!

                                    Tornou-se tão alta, frondosa e atraente, que sua copa se sobrepunha a todas as árvores do visitado pomar...

                                    As deliciosas jabuticabas, crescidas em seu forte tronco, eram as mais saborosas de todas as redondezas.   

                                    Os visitantes não lhe pouparam elogios durante anos, brotando em seu coração de jabuticabeira um elevado senso de superioridade e desprezo pelas árvores menores...

                                    Um dia, porém, foi acometida de desconhecida enfermidade, até porque os corações orgulhosos são doentes em suas emoções...

                                    O dono do pomar consultou os melhores biólogos e botânicos afamados, procurando um possível tratamento da fragilizada e decaída árvore.

                                    Encontrou-se, então, como melhor solução no combate à doença, uma poda quase radical de seus belos galhos, agora secos e quebradiços.

                                    Terminado o “corte cirúrgico”, a jabuticabeira ficou profundamente abatida e triste, tendo consciência de sua pequenez e insignificância no pomar...

                                    Tornou-se a menor árvore do pomar, não só em estatura, mas em importância e visibilidade, pela sua esterilidade, ainda que temporária.

                                    Houve, por outro lado, um grande benefício coletivo para as demais árvores do pomar que, com a poda, conseguiram descortinar as montanhas e o céu que estavam ocultos por sua copa.

                                    Todos notaram, perplexos, que o sofrimento da orgulhosa árvore abriu novos horizontes, porque viveram longo tempo sufocados pelo desprezo da jabuticabeira...

                                    Porém, as companheiras de pomar procuraram, cada uma a seu modo, lembrá-la que a apoiavam e torciam por sua rápida recuperação.

                                    Reduzida à condição de árvore em tratamento, a jabuticabeira pôde refletir sobre seu antigo comportamento; entendendo que, ao se sentir superior às demais e melhor do que todas, perdeu muito em amizade e respeito coletivo.

 

 

O orgulho adoece o coração e empobrece a alma humana, separando os melhores amigos e irmãos.