AS
TRANÇAS DE MARIA
Maria da Glória Colucci
Permaneceu
desolada à beira da cama, no modesto quarto de casal.
Chorava
inconsolável. Acabara de perder suas preciosas tranças.
Desde
criança tinha sido educada para amar sua família e respeitar os pais.
Como
única menina era a mais mimada dos irmãos, tendo se acostumado a receber dos
pais gentilezas e “agradinhos” para alegrar sua infância.
Os
cuidados de sua mãe com seus longos cabelos pretos e crespos, davam-lhe uma
aparência caprichosa, com duas tranças, grossas e bonitas.
Casou-se
cedo, aos 18 anos, muito mais para aliviar as despesas familiares de seus pais,
do que por vontade própria.
Nasceram
de sua convivência conjugal, dois filhos, um casal, ambos amorosos e
obedientes, porque os educara do mesmo modo que fora ensinada.
Sentiu
aumentar a insegurança de sua nova família, quando o marido, todos os finais de
semana, chegava em casa, bêbado e ao amanhecer; gastando o dinheiro ganho no
trabalho de pedreiro.
Sem
preparo adequado para funções melhor remuneradas, assumiu tarefas de diarista
em várias casas, dia após dia...
Deixava
os filhos na escola, em regime integral; dedicando-se às exaustivas condições
do trabalho doméstico remunerado.
Na
monotonia de seus dias, o relacionamento conjugal de Maria foi se diluindo, até
porque não conseguia suportar as contínuas bebedeiras e agressividade do
companheiro...
Resolveu
interpelá-lo, buscando estabelecer um mínimo diálogo, chamando-o à
responsabilidade de pai de família e marido, como já fizera antes; tentando
manter a união...
No
entanto, enfurecido, o companheiro de Maria golpeou-a na cabeça e na face,
derrubando-a no chão...
Não
satisfeito, cortou-lhe as tranças, como já tinha avisado que faria..., em
discussões anteriores...
Maria
examinou, de relance, os 10 últimos anos de sua vida e entendeu que, embora
ainda jovem, não tinha mais alento diante de tanta brutalidade.
Esperou
que o violento marido adormecesse.
Arrumou
as malas.
Aguardou
o amanhecer e, com os dois filhos, viajou para o interior, para casa de seus
pais, de onde nunca deveria ter saído...
Lá
havia amor e respeito, embora os recursos financeiros fossem escassos.
Antes
de partir, foi à Delegacia da Mulher e relatou, nos detalhes, o que lhe havia
ocorrido...
Sabia
de uma tal “Lei Maria da Penha”, que a protegeria da violência doméstica...
Partiu,
então, com profunda sensação de fracasso; mas, pensou consigo mesma:
–
Ainda estamos vivos! Eu e meus dois filhos conseguimos escapar de tanta
violência...
Ao
amanhecer, o espantado companheiro acordou ao ouvir as batidas na porta da
humilde casa.
Era
a Delegada de Polícia, com um mandado de busca e apreensão no interior da casa,
dos instrumentos usados nas lesões corporais em Maria...
Levando
o violento companheiro para os procedimentos de praxe... Preso e envergonhado.
A Lei Maria da Penha é a
melhor e mais eficaz ferramenta legal para a prevenção e combate à violência
doméstica, disponível para as mulheres no Brasil.