ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

03 março 2026

 

PÃO NOSSO

                                                                                             Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Amanhecia quando a Velha Senhora chegou à porta da padaria, apenas entreaberta...

                                    Pouco a pouco, os fregueses foram aumentando a fila, aguardando o pão que ainda assava no antigo forno à lenha...

                                    Cheirava tão saboroso que dava água na boca de quem esperava...

                                    Lembrou-se que desde adolescente ia à padaria bem cedo, todas as manhãs, comprar pão para a família.

                                    Agora, havia rumores que o padeiro estava deixando o ofício, que lhe fora ensinado por seu pai... Alegavam os patrões que a cada dia as suas habilidades perdiam o interesse, face aos avanços da tecnologia.

                                    O pão, hoje, chega “congelado”, bastando, apenas, colocá-lo no forno elétrico, de altas temperaturas e, em poucos minutos, está pronto para consumo.  

                                    No entanto, para manter a tradição, todas as manhãs, antes das 6 horas, a antiga padaria ainda fazia uma fornada para seus fieis fregueses...

                                    – Que pena! Restam poucos padeiros de ofício! Pensou a Velha Senhora.

                                    Voltou, vagarosamente, para casa, pensando que, talvez, fosse interessante ler um pouco da história da panificação...

                                    Consultou sua velha coleção da Barsa, e encontrou algumas informações interessantes.

                                    Leu que os primeiros pães, que se têm notícia, remontam a 10.000 a.C, no período neolítico... Eram assados em pedras quentes ou cinzas...

                                    Os egípcios foram os primeiros a substituírem as pedras pelo forno. Em Jerusalém, havia uma rua só de padeiros, que costumavam fermentar o pão; mas, nos eventos religiosos, ofereciam apenas os pães ázimos (sem fermento).

                                    Em Roma, as mulheres tinham como tarefa doméstica assar o pão em casa, em fornos improvisados. 

                                    As padarias do bairro, onde havia passado a infância e adolescência, faziam o pão francês; mas, também, com outros condimentos e sabores.

                                    Trigo, centeio e sal produziam os pães preferidos, chamados de “pão branco”, ou “pão preto”, os mais procurados pelos fregueses,

                                    Broas, pães doces, roscas, etc, além das torradas, feitas com o “pão dormido”, ou “farinha de roscas” (ou de pão...), conforme se chamava à época.

                                    Em meio às suas reflexões, chegou em casa...

                                    Notou, então, que carregava os pães em uma sacolinha de plástico...

                                    Lembrou-se que, em sua adolescência, havia um tipo especial de papel, usado para rascunhos, anotações, cálculos... 

                                    Era o conhecido “papel de pão”, reutilizado pelas mães e crianças para escrever, desenhar, fazer listas de compras...

                                    Pensou, com um certo ar nostálgico:

                                    – Será que ainda existe? Não me lembro de tê-lo visto, recentemente...

                                   Começou a saborear o pão, ainda quente, enquanto sentiu que suas lembranças quase a fizeram chorar...

                                    Comentou consigo mesma:

                                    – As memórias, às vezes, nos pregam cada peça!...

 

 

“Em homenagem aos padeiros e seu precioso trabalho”.

 

 

 

 

OS BRINCOS DE ESMERALDA

                                                      Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Era ainda bem jovem quando ganhou o par de brincos de seu amado esposo. Estavam apaixonados e viviam de modo simples...

                                    A joia era de família e devia ser guardada como verdadeira raridade e autêntica relíquia...

                                    O tempo foi passando... e, em algumas ocasiões festivas, como Natal e Ano Novo, tinha pensado em usá-los... Mas acabava por desistir...

                                    Os filhos chegaram. As despesas aumentaram e os recursos cada vez se tornavam mais escassos...

                                    Ela desenvolveu, com o tempo, o hábito de guardar as melhores roupas, sapatos e adereços..., para algum dia, quem sabe, enfeitar-se...

                                    Em algumas ocasiões, seu gentil esposo a estimulara a colocar os brincos, amoroso presente dos primeiros anos de casamento... Mas, não fora ouvido!

                                    As lindas esmeraldas, no delicado estojo de veludo verde, foram ficando opacas, ofuscadas pela falta de contato com a luz e o ar...

                                    Sua pequena moradia foi sendo entulhada com objetos que recebera, presentes de amigos e parentes... Não se desfazia de nada...

                                    Tornou-se, a cada dia, mais difícil circular entre os apertados móveis, caixas, almofadas, louças, enfeites, etc...

                                    Por fim, seu amado esposo foi levado para a morada eterna... Seus filhos foram embora... Cada um encontrou seu próprio destino... e ela, rodeada pelos verdadeiros entulhos que juntara, não tinha força para doá-los...

                                    Procurou pelos brincos de esmeralda; pensou em usá-los... Mas, não tinha nenhuma roupa à altura. Havia emagrecido tanto que seu pescoço e braços pareciam tão esquálidos que não combinavam com tão valiosa joia...

                                    Revirou as gavetas...; começou a separar peças de roupas da juventude; louças antigas, sapatos mofados... tudo sem uso, mas inutilizado pelo tempo...

                                    Começou a chorar, desesperada... Não havia quem a consolasse... Por que, pensou, dei mais valor às coisas do que às pessoas? E os brincos de esmeraldas nunca foram usados...

 

 

 

Objetos guardados falam mais alto do que parece; trazendo memórias, por vezes, muito dolorosas sobre o tempo perdido.