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24 março 2026

O CANTO DO GALO

 

O CANTO DO GALO

                                               Maria da Glória Colucci

 

 

                                    O Galo andava pensativo e triste de um lado para outro em seus limites territoriais – o galinheiro.

                                    Procurava não tirar os olhos dos afazeres das galinhas. Fiscalizando cada detalhe dos seus desempenhos...

                                    No entanto, ainda havia em seu coração um sentimento de inutilidade, ou pouca valia de suas atribuições.

                                    Pensava consigo mesmo:

                                    – As galinhas produzem muitos ovos e os donos estão sempre preocupados para que não adoeçam. São muito importantes...

                                    Continuou analisando a situação:

                                    – Seus ovos são vendidos no mercado cada dia mais caros... Recebem rações balanceadas e aparecem em exposições e feiras com um carimbo de “produto de qualidade” ...

                                    E ele – o Galo – o que recebia de atenção, reconhecimento e apreço pelo seu trabalho? Nada!

                                    Mas, havia nascido naquele espaço; ali tinha vivido longos anos; fora “pai” de muitos pintinhos... Não conhecia outra “família”: lá estavam suas irmãs e irmãos e, também, seus amigos.

                                    Uma manhã, porém, o cuidador deixou a porta do galinheiro entreaberta. Chegou, enfim, sua grande oportunidade de sair pelo mundo... Iria encontrar seu próprio rumo, um lugar onde mostraria seus méritos e serviços...

                                    O “Sol” ainda não havia nascido. Era ainda bem escuro, quando pegou seus poucos trastes e partiu...

                                    Andou muito... O Sol já estava em pleno meio-dia; sedento e faminto, não havia encontrado um lugar para pousar e descansar sem medo...

                                    Nos galinheiros que encontrou pelo caminho não havia vaga para mais “um galo” e, ele, não tinha habilidade para fazer mais nada... Somente o que um galo experiente deve fazer – cantar...

                                    Aquietou-se. Reavaliou suas atividades no galinheiro. Cabia-lhe dar ordens, fiscalizando o trabalho das galinhas – mantendo a produção de ovos.

                                    Também, tinha a missão de promover a segurança, avisando aos cuidadores a aproximação de inimigos, tempestades ou outros agravos que afetariam o galinheiro... Tinha importância, também...

                                    Resolveu, então, voltar para casa, enquanto ainda era noite... Precisava chegar antes do amanhecer, porque, afinal de contas, o “Sol” só apareceria no horizonte se ele cantasse bem alto, comandando o raiar de um novo dia...

                                    Chegou ao galinheiro, ofegante e apressado. Foi rodeado por todas as galinhas que lhe perguntavam, curiosas, gritando, ao mesmo tempo, porque se ausentara. Com ares de superioridade, o Galo respondeu:

                                    – Saí para resolver negócios particulares pendentes!

                                    Admiradas, as galinhas não ousaram lhe perguntar mais nada e o saudaram, com todo o carinho, lamentando sua falta.

                                    Então, a paz, a ordem e o respeito voltaram ao galinheiro e cada qual retornou aos seus afazeres.

                                    Belo, o “Sol”, brilhou no horizonte, outra vez, ao canto do galo...

 

 

O prazer de servir confere às pequenas tarefas um valioso e excelente significado: ter um propósito no mundo dado por Deus.   

 

 

O DESMAIO DA BORBOLETA

 

O DESMAIO DA BORBOLETA

                                                                                                  Maria da Glória Colucci        

 

 

                                    Era uma linda borboleta Monarca.

                                    Com suas cores fortes, porem delicadas, vivia em plena liberdade.

                                    Em voo rasante sobre as douradas flores do parque, divertia-se com as diferentes cores e fragrâncias.

                                    Um belo dia, na paz do sol matinal, conheceu um sedutor macho de sua espécie, recém-chegado ao jardim.

                                    Tão belo!... Encantou-se à primeira vista, deixando-se levar pelos olhos da sedução...

                                    A seu lado, desfrutava de agradáveis bate-papos, sobre as mais variadas questões do momento...

                                    Parecia-lhe que o belo macho era versado em artes, política e religião, um autodidata, sem dúvida.

                                    Os meses, praticamente, voaram...

                                    Que dias tranquilos! Que tardes maravilhosas! Que noites cheias de sonhos!...

                                    Havia, porém, no singelo coração da borboleta, uma desconfiança sempre presente sobre quais seriam os sentimentos e intenções do amigo conquistador...

                                    Observava, todavia, que ele atraía muitos olhares e atenções de outras borboletas, mais jovens e mais coloridas...

                                    Começou a enamorada borboleta a se sentir desbotada e sem atrativos. Foi perdendo, aos poucos, a autoestima e o seu respeito próprio se esvaiu aos poucos...

                                    – Que estranho! Pensou a borboleta cativada pela beleza, juventude e doces palavras do sedutor...

                                    – Por que será que me sinto assim, tão desconfiada?

                                    Entendeu, em suas mais íntimas reflexões, que as dúvidas que tinha, era um tipo de aviso do Alto...

                                    – Cuidado! Pensou consigo mesma... Dizem que as aparências enganam e o amor cega a realidade, inebriando, com a fumaça da paixão, a racionalidade dos fatos.

                                    Os dias fluíam cada vez mais nebulosos e sem o brilho dos primeiros encontros e conversações.

                                    Afastou-se, discretamente, alegando muitos afazeres, com a chegada da primavera e a polinização dos campos. Desejava, de longe, observar o pretenso amigo, seus sorrisos, trejeitos e melodiosa voz masculina...

                                    Foi, então, que em relance, conseguiu vê-lo em toda a sua “feiura interior”, mascarada pela sedução e fala macia...  

                                    A discreta borboleta, então, sentiu-se tão chocada e triste que adoeceu, sem aparente explicação, durante alguns dias...

                                    Ao recobrar o domínio próprio, procurava, ainda que perante si mesma (já que ninguém soubera dos seus desvarios sentimentais), justificar seu tolo e terrível engano...

                                    – Foi, dizia a si própria, apenas uma perda de consciência, momentânea, como um passageiro desmaio...

                                    Mas, em sua triste e solitária alma, a cicatriz que aquele afeto tão profundo deixou, mais parecia uma cratera, do que um simples e pequeno corte...

                                    E seguiu, a partir de então, o seu próprio caminho, sem se deixar enganar por ninguém, por mais sedutor que pudesse ser!

 

 

A falsidade e engano humanos produzem marcas tão profundas, que somente podem ser apagadas pelo perdão e o incomensurável amor de Deus.