O DIA
DAS COISAS PEQUENAS
Maria
da Glória Colucci
Todos
os finais de ano, a Velha Senhora fazia uma espécie de balanço das pendências
de limpeza e arrumação da casa...
Aprendera,
na infância, com a vida doméstica, que era muito positivo dispensar objetos,
roupas, papéis, louças etc., na virada de cada ano...
O
agito do ambiente familiar era grande... Revirando-se armários, gavetas, caixas
e guardados, com a finalidade de tornar a chegada do Ano Novo em tempo mais
leve...
O
rádio ligado, tocando Dalva de Oliveira e outros artistas da época, oferecia o
fundo musical apropriado para a ocasião e abafava gritos e escorregões da
reorganização dos espaços...
Era
o ritual de sempre... nos idos dos anos 60...
Coisas quebradas
eram lançadas no lixo...; as reutilizáveis deixadas a um canto do quintal, para
posteriores doações.
Havia
o entendimento, passado de geração em geração, que manter em casa coisas não
utilizadas representa retrocesso para a vida familiar...
Além
de significar, a olhos mais atentos, egoísmo, avareza e acumulação de bens
(tralhas)...
A
Velha Senhora imersa em seus tardios pensamentos, teve, então, ligeiro
sobressalto ao ouvir a campainha tocar...
Já
sabia de quem se tratava.
Sua
ajudante havia chegado com pontualidade, às 8:30h, conforme havia sido
combinado.
Cabia
à Velha Senhora separar os objetos, alguns já retirados das gavetas, para serem
deixados no quartinho dos fundos...
Começou
por um rádio transistor “a pilha”, que teve em sua juventude, cuja posse
representava para a época um sinal de status e maturidade, a exemplo de
um celular de marca, hoje...
Os
“radinhos” de pilha eram cobiçados como objetos do desejo de rapazes e moças,
como um atrativo a mais em suas conquistas, porque as “paqueras” começavam com
perguntas sobre o funcionamento das pequenas máquinas de som...
Foram
os “radinhos” e suas pilhas os ancestrais dos “chips” dos eletrônicos e
dos equipamentos de hoje.
A
quantidade de long-plays que acumulara era grande, como selecionar e
doar objetos tão preferidos como discos?
Uma
a uma, as melodias dos Beatles, Jonny Mathis, Nat King Cole, Diane Ross, Ray
Connif, Carpenters etc, passaram por diante de seus olhos rasos de lágrimas e
saudades.
Quantas
expectativas e sonhos existiram para os pais e filhos, quanto ao acesso à
universidade, trabalho, casamento, família etc.
Muitos
deles, nunca se realizaram pelas dificuldades econômicas e políticas existentes
e pelas mudanças dos costumes...
Na
moda, Chanel era a estilista internacional em destaque, com seus tailleurs,
o perfume Chanel 5, sonhos de consumo de mulheres do high Society...
Como
descartar seu toca discos?
Álbuns
com fotografias de antigas amizades? Família, colegas de universidade,
excursões etc.? Impossível rasgá-los ou esquecê-los... Voltaram às prateleiras
e gavetas... Quem sabe seriam descartados em outro final de ano?
Começou
a examinar os livros..., tantos, tantos..., alguns em caixas, outros em pilhas,
muitos contendo informações que a internet oferece com mais
atualizações...
Sentiu-se
cansada... Parou...
Voltou-se
à sala de visitas, sentou-se no sofá e resolveu ver o noticiário...
Outros
tempos... Salve o Novo Ano!
De forma simbólica, o ato de
desfazer-se de objetos guardados representa uma forma de superação de memórias
antigas, e de dizer “adeus” ao passado, vivendo o presente.