ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

15 abril 2026

O DIA DAS COISAS PEQUENAS

 

O DIA DAS COISAS PEQUENAS

                                                                                                                       Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Todos os finais de ano, a Velha Senhora fazia uma espécie de balanço das pendências de limpeza e arrumação da casa...

                                    Aprendera, na infância, com a vida doméstica, que era muito positivo dispensar objetos, roupas, papéis, louças etc., na virada de cada ano...

                                    O agito do ambiente familiar era grande... Revirando-se armários, gavetas, caixas e guardados, com a finalidade de tornar a chegada do Ano Novo em tempo mais leve...

                                    O rádio ligado, tocando Dalva de Oliveira e outros artistas da época, oferecia o fundo musical apropriado para a ocasião e abafava gritos e escorregões da reorganização dos espaços...

                                    Era o ritual de sempre... nos idos dos anos 60...

                                   Coisas quebradas eram lançadas no lixo...; as reutilizáveis deixadas a um canto do quintal, para posteriores doações.

                                    Havia o entendimento, passado de geração em geração, que manter em casa coisas não utilizadas representa retrocesso para a vida familiar...

                                    Além de significar, a olhos mais atentos, egoísmo, avareza e acumulação de bens (tralhas)...

                                    A Velha Senhora imersa em seus tardios pensamentos, teve, então, ligeiro sobressalto ao ouvir a campainha tocar...

                                    Já sabia de quem se tratava.

                                    Sua ajudante havia chegado com pontualidade, às 8:30h, conforme havia sido combinado.

                                    Cabia à Velha Senhora separar os objetos, alguns já retirados das gavetas, para serem deixados no quartinho dos fundos...

                                    Começou por um rádio transistor “a pilha”, que teve em sua juventude, cuja posse representava para a época um sinal de status e maturidade, a exemplo de um celular de marca, hoje...

                                    Os “radinhos” de pilha eram cobiçados como objetos do desejo de rapazes e moças, como um atrativo a mais em suas conquistas, porque as “paqueras” começavam com perguntas sobre o funcionamento das pequenas máquinas de som...

                                    Foram os “radinhos” e suas pilhas os ancestrais dos “chips” dos eletrônicos e dos equipamentos de hoje.

                                    A quantidade de long-plays que acumulara era grande, como selecionar e doar objetos tão preferidos como discos?

                                    Uma a uma, as melodias dos Beatles, Jonny Mathis, Nat King Cole, Diane Ross, Ray Connif, Carpenters etc, passaram por diante de seus olhos rasos de lágrimas e saudades.

                                    Quantas expectativas e sonhos existiram para os pais e filhos, quanto ao acesso à universidade, trabalho, casamento, família etc.

                                    Muitos deles, nunca se realizaram pelas dificuldades econômicas e políticas existentes e pelas mudanças dos costumes...

                                    Na moda, Chanel era a estilista internacional em destaque, com seus tailleurs, o perfume Chanel 5, sonhos de consumo de mulheres do high Society...

                                    Como descartar seu toca discos?

                                    Álbuns com fotografias de antigas amizades? Família, colegas de universidade, excursões etc.? Impossível rasgá-los ou esquecê-los... Voltaram às prateleiras e gavetas... Quem sabe seriam descartados em outro final de ano?

                                    Começou a examinar os livros..., tantos, tantos..., alguns em caixas, outros em pilhas, muitos contendo informações que a internet oferece com mais atualizações...

                                    Sentiu-se cansada... Parou...

                                    Voltou-se à sala de visitas, sentou-se no sofá e resolveu ver o noticiário...

                                    Outros tempos... Salve o Novo Ano!

 

 

De forma simbólica, o ato de desfazer-se de objetos guardados representa uma forma de superação de memórias antigas, e de dizer “adeus” ao passado, vivendo o presente.

 

 

A PULGA FALANTE

 

A PULGA FALANTE

                                                        Maria da Glória Colucci     

 

 

                                    Cansada de não ser ouvida nas Assembleias dos Bichos, a pulga decidiu que ia fazer um curso de oratória.

                                    Começou por longa pesquisa sobre a duração, o preço e os professores disponíveis.

                                    Surpreendeu-se, positivamente, com a variedade e os valores acessíveis cobrados dos interessados, além das exigências quanto ao treinamento dos alunos...

                                    Muitos dos concluintes, conforme a pulga constatou, se destacaram pelo brilho dos seus discursos na festa de formatura, dentre os quais o tucano...

                                    Entusiasmada, iniciou as aulas, dedicando-se, fervorosa e atenta, aos exercícios vocais...

                                    Treinou o tom de voz que, apesar de fraca, pela sua pequena estatura, era agradável e melodiosa.

                                    Seus esforços lhe valeram alegrias, considerando-se satisfeita quando recebeu o certificado de aptidão em oratória...

                                    Marcada a Assembleia Anual dos Bichos, a pulga inscreveu-se como oradora na abertura do esperado evento; quando eram apresentadas novas propostas em benefício dos mais vulneráveis...

                                    O microfone foi ajustado no máximo de sua potência, para que sua tímida voz fosse ouvida por todos.

                                    Recebeu muitos aplausos, como aconteceu com todos os oradores que participavam da abertura...

                                    Terminada a Assembleia, constatou a esforçada pulga que nenhuma das propostas inovadoras foi aprovada, nem sequer examinada...

                                    Foram mantidos os mesmos procedimentos e privilégios de sempre.

                                    Retornando à sua morada, sentiu profunda tristeza e decepção com o ocorrido, apesar de seu empenho e preparo.

                                    Então, ao passar, ouviu o papagaio conversar com a arara dizendo:

                                    – Vencemos mais uma vez! Tudo ficou como antes!

                                    Ao que a arara replicou:

                                    – Tolos! Ainda não entenderam que suas ideias não interessam aos maiorais?

                                    Foi, então, que a pulga compreendeu o abismo existente entre seus sonhos de mudanças e inovação e a realidade dos fatos. 

                                    A coruja, com sua proverbial sabedoria, vendo o desanimo da pulga e seus inúteis esforços, acrescentou:

                                    – Não desanime! Os sonhadores são os únicos que podem resistir ao tradicionalismo e promoverem mudanças...

                                    Em silêncio, a pulga prosseguiu em seu caminho, nutrindo leve esperança que, talvez, algum dia, sua fraca voz pudesse ser ouvida pelos governantes..., em prol dos mais vulneráveis. 

 

 

A exclusão social dos mais pobres e vulneráveis somente será extirpada pelo acesso à educação e pleno exercício dos direitos.