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15 maio 2026

A ELEIÇÃO DO CHEFE MAIOR

 

A ELEIÇÃO DO CHEFE MAIOR

                                                                                               Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Agito total...

                                    As ruas ferviam com a baderna dos militantes, faixas, bandeiras e animados slogans gritados. 

                                    Camisetas marrons procuravam transmitir a seriedade dos participantes, eleitores engajados em objetivos nacionalistas...

                                    Tratava-se do lançamento das pré-candidaturas para o preenchimento da vaga de Chefe Maior da respeitada Vila dos Avestruzes...

                                    As tradições sagradas deviam ser guardadas, porque intocáveis... Foram surgindo de costumes centenários, passando de geração a geração...

                                    Lembrava-se a todo momento que os candidatos e militantes deveriam preservar os antigos costumes, espécies de faróis a iluminar os novatos...

                                    Seria punido com severidade qualquer ato contrário; vale dizer, com pena de prisão domiciliar, uso de tornozeleira e controle verbal dos “linguarudos”...

                                    Como cautela, para ninguém alegar desconhecimento, foram postos critérios em edital na internet e, também, espalhados pelas dependências do PUA – Partido Único dos Avestruzes, a saber:

 

1.    Serão aceitas candidaturas, apenas, de avestruzes machos;

2.    Será dada preferência ao candidato de menor estatura física;

3.    Não é necessária experiência anterior ou formação escolar de nível, desde que haja comprovada fidelidade aos ideais do Partido;

4.    Candidatos com opinião própria não serão aceitos;

5.    A última palavra, em qualquer questão relativa às eleições, será sempre do SCA  – Soberano Conselho dos Avestruzes.

 

                                    Estabelecidos os critérios, respeitados os prazos, chegou-se ao esperado dia da eleição...

                                    Dentre os candidatos, houve um que se destacou pela baixa estatura, sendo mais conhecido como “Nanico”; que foi eleito.

                                    Havia, no entanto, um grupo que o conhecia de longa data, que achava mais apropriado chamá-lo de “Maroto”.

                                    Na posse de “Nanico”, pediu-se que fizesse breve discurso, porque todos estavam esgotados da campanha.

                                    Para alegria do público, o eleito alegou dificuldades de leitura, porque esquecera os óculos em casa...

                                    Mas, alguém, gentilmente, ofereceu-se para a difícil tarefa da leitura, o que fez, pausadamente, no dobro do tempo.

                                    Aplausos e alívio geral, seguidos de lauto banquete, regado a vinho fino, marcaram o início da gestão do Nanico...

                                    Passados longos anos, após sucessivas reeleições, respeitado por todos e aplaudido por seus eleitores, chegou à Vila dos Avestruzes um renomado pesquisador internacional para descobrir o segredo do ilustre Nanico.

                                     Coligidos os dados, analisados os indicadores, ficou registrado para a posteridade o seguinte resultado:

 

1.    Nanico não falava porque lhe haviam cortado a língua para não falar besteiras, porque era conhecido por ser “bocudo”;

2.    Não enxergava porque se recusava a usar óculos, para esconder que era analfabeto funcional;

3.    Não ouvia porque se fingia de surdo para não ter que responder aos eleitores;

4.    Não lia e nem estudava para não “confundir” as ideias...

 

                                    Mas, como ficou ressaltado, no prestigiado “relatório” foi reconhecida como sua qualidade principal – esconder com invulgar rapidez a cabeça na areia, todas as vezes que enfrentava um grave problema, uma crise!

                                    Afinal de contas, como um prestigiado e velho avestruz, esconder a cabeça na areia era sua melhor técnica...

                                    Tinha, como espécie de mantra, velho ditado da Vila dos Avestruzes: “Deixa estar para ver como fica”.

                                    Com o tempo, Nanico foi eternizado na praça principal da Vila dos Avestruzes, com uma estátua que todos diziam ser uma réplica “Do Pensador”, do afamado escultor francês, Rodin, admirada por todos que a visitavam.

                                    As Vilas vizinhas começaram, pouco a pouco, a imitar a gestão do Nanico, e, por isso, ficaram tão estagnadas quanto algumas localidades de hoje.

 

 

 

Aviso final: qualquer semelhança com administradores humanos, nos dias atuais, é pura coincidência!