A
ELEIÇÃO DO CHEFE MAIOR
Maria
da Glória Colucci
Agito
total...
As
ruas ferviam com a baderna dos militantes, faixas, bandeiras e animados slogans
gritados.
Camisetas
marrons procuravam transmitir a seriedade dos participantes, eleitores
engajados em objetivos nacionalistas...
Tratava-se
do lançamento das pré-candidaturas para o preenchimento da vaga de Chefe Maior
da respeitada Vila dos Avestruzes...
As
tradições sagradas deviam ser guardadas, porque intocáveis... Foram surgindo de
costumes centenários, passando de geração a geração...
Lembrava-se
a todo momento que os candidatos e militantes deveriam preservar os antigos
costumes, espécies de faróis a iluminar os novatos...
Seria
punido com severidade qualquer ato contrário; vale dizer, com pena de prisão
domiciliar, uso de tornozeleira e controle verbal dos “linguarudos”...
Como
cautela, para ninguém alegar desconhecimento, foram postos critérios em edital
na internet e, também, espalhados pelas dependências do PUA – Partido Único dos
Avestruzes, a saber:
1.
Serão aceitas candidaturas, apenas, de
avestruzes machos;
2.
Será dada preferência ao candidato de menor
estatura física;
3.
Não é necessária experiência anterior ou
formação escolar de nível, desde que haja comprovada fidelidade aos ideais do
Partido;
4.
Candidatos com opinião própria não serão
aceitos;
5.
A última palavra, em qualquer questão relativa
às eleições, será sempre do SCA –
Soberano Conselho dos Avestruzes.
Estabelecidos
os critérios, respeitados os prazos, chegou-se ao esperado dia da eleição...
Dentre
os candidatos, houve um que se destacou pela baixa estatura, sendo mais
conhecido como “Nanico”; que foi eleito.
Havia,
no entanto, um grupo que o conhecia de longa data, que achava mais apropriado
chamá-lo de “Maroto”.
Na
posse de “Nanico”, pediu-se que fizesse breve discurso, porque todos estavam
esgotados da campanha.
Para
alegria do público, o eleito alegou dificuldades de leitura, porque esquecera
os óculos em casa...
Mas,
alguém, gentilmente, ofereceu-se para a difícil tarefa da leitura, o que fez,
pausadamente, no dobro do tempo.
Aplausos
e alívio geral, seguidos de lauto banquete, regado a vinho fino, marcaram o
início da gestão do Nanico...
Passados
longos anos, após sucessivas reeleições, respeitado por todos e aplaudido por
seus eleitores, chegou à Vila dos Avestruzes um renomado pesquisador
internacional para descobrir o segredo do ilustre Nanico.
Coligidos os dados, analisados os indicadores,
ficou registrado para a posteridade o seguinte resultado:
1.
Nanico não falava porque lhe haviam cortado a
língua para não falar besteiras, porque era conhecido por ser “bocudo”;
2.
Não enxergava porque se recusava a usar óculos,
para esconder que era analfabeto funcional;
3.
Não ouvia porque se fingia de surdo para não ter
que responder aos eleitores;
4.
Não lia e nem estudava para não “confundir” as
ideias...
Mas,
como ficou ressaltado, no prestigiado “relatório” foi reconhecida como sua
qualidade principal – esconder com invulgar rapidez a cabeça na areia, todas as
vezes que enfrentava um grave problema, uma crise!
Afinal
de contas, como um prestigiado e velho avestruz, esconder a cabeça na areia era
sua melhor técnica...
Tinha,
como espécie de mantra, velho ditado da Vila dos Avestruzes: “Deixa estar para
ver como fica”.
Com
o tempo, Nanico foi eternizado na praça principal da Vila dos Avestruzes, com
uma estátua que todos diziam ser uma réplica “Do Pensador”, do afamado escultor
francês, Rodin, admirada por todos que a visitavam.
As
Vilas vizinhas começaram, pouco a pouco, a imitar a gestão do Nanico, e, por
isso, ficaram tão estagnadas quanto algumas localidades de hoje.
Aviso final: qualquer semelhança
com administradores humanos, nos dias atuais, é pura coincidência!