O FIO DA MEADA
Maria
da Glória Colucci
Recostou-se
à beira da janela para aproveitar os últimos raios de sol do entardecer.
Ao
seu lado, seu bichano Quindim, sonolento, ao mesmo tempo, vigilante, dormitava,
enquanto tomava conta dos mínimos movimentos da amiga...
Curtiam
a companhia um do outro.
Amizade
longa, desde que chegara, ainda um bebê, enrolado em mantinha de lã, ronronando
baixinho...
Ela,
reclinada sobre a cadeira de balanço, pensava sobre a vida que estava levando
nos últimos quatro anos...
Seus
caminhos, no longo percurso já vencido, foram de altos e baixos – mais altos
que baixos; mas alguns acontecimentos marcaram sua vida de tal maneira, que
eram difíceis de esquecer.
Recordou-se
que chegou a Curitiba após a neve; na década de 70, quando a cidade ainda era
muito provinciana...
De
tal modo evoluiu como metrópole, com os investimentos e novas tecnologias, que
se tornou uma das “Dez Melhores Cidades do Mundo” para se viver...
Vários
sentimentos tomaram seu coração, quando se lembrou que sua filha tinha, apenas,
9 meses de idade, ao chegar na bela Curitiba.
Tão
linda! Sentia tanto frio em seu pequeno corpinho, enrolado em mantas e gorros
de lã...
Ela,
então, com pouco mais de 30 (trinta) anos, estranhou tanto o clima; o sol
amarelo e gelado, que não esquentava quase nada; para quem tinha vindo do calor
do Rio...
No
entanto, Curitiba foi seu amor à primeira vista... Prometeu a si mesma que
ficaria por vontade própria nesta aprazível cidade...
Os
atropelos de uma cidade em evolução não a incomodavam nem um pouco. Muitos dos
seus amigos, parentes e vizinhos partiram para outros rumos, em cidades
brasileiras e estrangeiras, mas, ela permaneceu...
À
época, em suas atividades laborais, verificou a presença dominante de homens,
em mais de 85% das situações, tendo aprendido a tolerar descortesias e
ciumeiras profissionais, como algo normal.
Demorada
e pausadamente, antigos fatos lhe vieram à memória.
Vívidos,
como se fossem recentes...
Os
novos métodos de ensino, o uso das ferramentas digitais, a liberação da
frequência às aulas; a inteligência artificial (IA) e as “pesquisas” de “meia
boca”; a pandemia de Covid.
Enfrentou,
com paciência, os atrasos na aprendizagem de alunos(as) que vinham de precárias
formações no ensino médio...
O
uso de smartphones para acompanhamento das aulas, demandas individuais
de pessoas com deficiência, que mereciam toda atenção e esforço didático para
sua evolução...
O
ensino à distância (EAD), nova metodologia que facilitou o acesso ao
conhecimento superior e a outras etapas do aprendizado; mas que rompeu os laços
de proximidade na relação professor(a)/aluno(a), foi outro impacto no ambiente
universitário...
Tudo
ao mesmo tempo!
–
Chega! Pensou, em desespero, diante de tantas demandas, em tão pouco e curto
espaço de profissão!
Aposentou-se
aos 76 anos de idade.
Mas,
aliviada, lembrou-se que conseguiu atravessar as ruidosas e difíceis fases com
muito esforço e alcançar êxito.
–
Qual seria o segredo? Ainda lhe perguntam...
Responde sempre
com um sorriso de profunda satisfação:
–
O fio da meada é a fé em Deus!
A fé é a chave que abre
todas as portas, permitindo vencer obstáculos de qualquer natureza.