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10 junho 2026

O FIO DA MEADA

 

                             O FIO DA MEADA

                                                                                                   Maria da Glória Colucci

 

 

                                   Recostou-se à beira da janela para aproveitar os últimos raios de sol do entardecer.

                                   Ao seu lado, seu bichano Quindim, sonolento, ao mesmo tempo, vigilante, dormitava, enquanto tomava conta dos mínimos movimentos da amiga...

                                   Curtiam a companhia um do outro.

                                   Amizade longa, desde que chegara, ainda um bebê, enrolado em mantinha de lã, ronronando baixinho...

                                    Ela, reclinada sobre a cadeira de balanço, pensava sobre a vida que estava levando nos últimos quatro anos...

                                    Seus caminhos, no longo percurso já vencido, foram de altos e baixos – mais altos que baixos; mas alguns acontecimentos marcaram sua vida de tal maneira, que eram difíceis de esquecer.

                                    Recordou-se que chegou a Curitiba após a neve; na década de 70, quando a cidade ainda era muito provinciana...

                                    De tal modo evoluiu como metrópole, com os investimentos e novas tecnologias, que se tornou uma das “Dez Melhores Cidades do Mundo” para se viver...

                                    Vários sentimentos tomaram seu coração, quando se lembrou que sua filha tinha, apenas, 9 meses de idade, ao chegar na bela Curitiba.

                                    Tão linda! Sentia tanto frio em seu pequeno corpinho, enrolado em mantas e gorros de lã...

                                    Ela, então, com pouco mais de 30 (trinta) anos, estranhou tanto o clima; o sol amarelo e gelado, que não esquentava quase nada; para quem tinha vindo do calor do Rio...

                                    No entanto, Curitiba foi seu amor à primeira vista... Prometeu a si mesma que ficaria por vontade própria nesta aprazível cidade...

                                    Os atropelos de uma cidade em evolução não a incomodavam nem um pouco. Muitos dos seus amigos, parentes e vizinhos partiram para outros rumos, em cidades brasileiras e estrangeiras, mas, ela permaneceu...

                                    À época, em suas atividades laborais, verificou a presença dominante de homens, em mais de 85% das situações, tendo aprendido a tolerar descortesias e ciumeiras profissionais, como algo normal.

                                    Demorada e pausadamente, antigos fatos lhe vieram à memória.

                                    Vívidos, como se fossem recentes...

                                    Os novos métodos de ensino, o uso das ferramentas digitais, a liberação da frequência às aulas; a inteligência artificial (IA) e as “pesquisas” de “meia boca”; a pandemia de Covid.

                                    Enfrentou, com paciência, os atrasos na aprendizagem de alunos(as) que vinham de precárias formações no ensino médio...

                                    O uso de smartphones para acompanhamento das aulas, demandas individuais de pessoas com deficiência, que mereciam toda atenção e esforço didático para sua evolução...

                                    O ensino à distância (EAD), nova metodologia que facilitou o acesso ao conhecimento superior e a outras etapas do aprendizado; mas que rompeu os laços de proximidade na relação professor(a)/aluno(a), foi outro impacto no ambiente universitário...

                                    Tudo ao mesmo tempo!

                                    – Chega! Pensou, em desespero, diante de tantas demandas, em tão pouco e curto espaço de profissão!

                                    Aposentou-se aos 76 anos de idade.

                                    Mas, aliviada, lembrou-se que conseguiu atravessar as ruidosas e difíceis fases com muito esforço e alcançar êxito.

                                    – Qual seria o segredo? Ainda lhe perguntam...

                                   Responde sempre com um sorriso de profunda satisfação:

                                    – O fio da meada é a fé em Deus!

                                   

                                                                             

A fé é a chave que abre todas as portas, permitindo vencer obstáculos de qualquer natureza.