ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

10 junho 2026

O LEÃO E AS FORMIGAS

 

O LEÃO E AS FORMIGAS

                                                                  Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Espreguiçava-se o leão sob os galhos de uma das poucas árvores que restara desde as últimas chuvas...

                                    Próximo ao leito do rio, o cenário desértico, seco e sem vida, se acentuava ainda mais pela presença de esqueletos de animais...

                                    As carcaças eram uma evidência da aridez do solo, da sequidão do ambiente, desolador e esquecido pelos seres vivos...

                                    Os barrancos se estendiam ao longo da ravina, contornando os sulcos deixados pela passagem abrupta das violentas correntes d’água que, uma vez ao ano, fluíam por entre as rochas...

                                    Nada lhe parecia incomodar. As moscas, o zumbido insistente dos mosquitos, o voo rasante dos corvos, atraídos pelo mau cheiro dos restos de animais, mortos pela fome e sede.

                                    O leão vivia rodeado pelo que estava incorporado à sua memória, lembranças de sempre, o que lhe dava uma aparente calma...

                                    Todavia, sob o solo, fervilhava um grande formigueiro. Era constante o ir e vir das formigas, recolhendo as últimas folhas e restos de insetos que se escondiam nos sulcos da terra...  

                                    Desenvolviam um labor diário, do amanhecer até ao pôr do sol, aproveitando o calor, o estio, para armazenar o seu pão...

                                    Enquanto as formigas carregavam seus enormes fardos, muitas vezes mais pesados do que as suas forças; o leão aproveitava para dormir, soneca após soneca..., à espera de uma distraída caça...

                                    E o tempo das chuvas chegou. Dia após dia torrentes de desolação e fome se lançaram sobre a ravina. Mas, as laboriosas formigas, abrigadas nas profundezas das rochas, mantiveram-se alimentadas na adversidade e mau tempo.

                                    E o leão, magro e andarilho, então, saiu, tendo consciência do tempo perdido com a preguiça e imprevisão...

 

 

Sábio é quem trabalha aproveitando as oportunidades, porque no inverno (velhice) colherá os resultados.

O FIO DA MEADA

 

                             O FIO DA MEADA

                                                                                                   Maria da Glória Colucci

 

 

                                   Recostou-se à beira da janela para aproveitar os últimos raios de sol do entardecer.

                                   Ao seu lado, seu bichano Quindim, sonolento, ao mesmo tempo, vigilante, dormitava, enquanto tomava conta dos mínimos movimentos da amiga...

                                   Curtiam a companhia um do outro.

                                   Amizade longa, desde que chegara, ainda um bebê, enrolado em mantinha de lã, ronronando baixinho...

                                    Ela, reclinada sobre a cadeira de balanço, pensava sobre a vida que estava levando nos últimos quatro anos...

                                    Seus caminhos, no longo percurso já vencido, foram de altos e baixos – mais altos que baixos; mas alguns acontecimentos marcaram sua vida de tal maneira, que eram difíceis de esquecer.

                                    Recordou-se que chegou a Curitiba após a neve; na década de 70, quando a cidade ainda era muito provinciana...

                                    De tal modo evoluiu como metrópole, com os investimentos e novas tecnologias, que se tornou uma das “Dez Melhores Cidades do Mundo” para se viver...

                                    Vários sentimentos tomaram seu coração, quando se lembrou que sua filha tinha, apenas, 9 meses de idade, ao chegar na bela Curitiba.

                                    Tão linda! Sentia tanto frio em seu pequeno corpinho, enrolado em mantas e gorros de lã...

                                    Ela, então, com pouco mais de 30 (trinta) anos, estranhou tanto o clima; o sol amarelo e gelado, que não esquentava quase nada; para quem tinha vindo do calor do Rio...

                                    No entanto, Curitiba foi seu amor à primeira vista... Prometeu a si mesma que ficaria por vontade própria nesta aprazível cidade...

                                    Os atropelos de uma cidade em evolução não a incomodavam nem um pouco. Muitos dos seus amigos, parentes e vizinhos partiram para outros rumos, em cidades brasileiras e estrangeiras, mas, ela permaneceu...

                                    À época, em suas atividades laborais, verificou a presença dominante de homens, em mais de 85% das situações, tendo aprendido a tolerar descortesias e ciumeiras profissionais, como algo normal.

                                    Demorada e pausadamente, antigos fatos lhe vieram à memória.

                                    Vívidos, como se fossem recentes...

                                    Os novos métodos de ensino, o uso das ferramentas digitais, a liberação da frequência às aulas; a inteligência artificial (IA) e as “pesquisas” de “meia boca”; a pandemia de Covid.

                                    Enfrentou, com paciência, os atrasos na aprendizagem de alunos(as) que vinham de precárias formações no ensino médio...

                                    O uso de smartphones para acompanhamento das aulas, demandas individuais de pessoas com deficiência, que mereciam toda atenção e esforço didático para sua evolução...

                                    O ensino à distância (EAD), nova metodologia que facilitou o acesso ao conhecimento superior e a outras etapas do aprendizado; mas que rompeu os laços de proximidade na relação professor(a)/aluno(a), foi outro impacto no ambiente universitário...

                                    Tudo ao mesmo tempo!

                                    – Chega! Pensou, em desespero, diante de tantas demandas, em tão pouco e curto espaço de profissão!

                                    Aposentou-se aos 76 anos de idade.

                                    Mas, aliviada, lembrou-se que conseguiu atravessar as ruidosas e difíceis fases com muito esforço e alcançar êxito.

                                    – Qual seria o segredo? Ainda lhe perguntam...

                                   Responde sempre com um sorriso de profunda satisfação:

                                    – O fio da meada é a fé em Deus!

                                   

                                                                             

A fé é a chave que abre todas as portas, permitindo vencer obstáculos de qualquer natureza.