O DRAGÃO E A
LAGOA
Maria
da Glória Colucci
Escondia-se
nas trevas de uma caverna à certa distância de uma linda e plácida lagoa. Quem
passasse não perceberia sua presença, talvez, pudesse sentir seu hálito fétido
e o brilho esverdeado de seus olhos dilatados...
De longe, o
estranho dragão observava o encanto da lagoa, suas margens rodeadas de belas
palmeiras, folhagens coloridas e o alegre canto dos pássaros. Pensava, em sua
insensatez, que se ele morasse mais perto da lagoa, talvez, fosse mais belo,
mais atraente ao olhar dos visitantes...
Imaginou-se,
ao sol, banhando-se na água cristalina da lagoa e ouvindo o som do vento,
suave, deslizando nas largas folhas das palmeiras...
Aos finais
de semana, crianças e seus familiares vinham divertir-se ao redor da lagoa,
correndo e mergulhando em suas águas azuladas... A alegria transbordante dos
inocentes corações parecia tocar o céu...
O tempo
passou... Vieram os dias de chuva e a lagoa aumentou o volume de suas águas,
agora, barrentas, escuras e sem o espelho transparente do verão...
O dragão,
imerso em sua amargura e escuridão, sentiu-se, de algum modo reconfortado;
porque, agora, havia entre eles uma certa afinidade...
Mas, com a chegada do outono e, após, a
primavera, as águas da lagoa foram se tornando, mais e mais, claras, retomando
sua beleza e transparência habituais...
–
Que pena, pensou o dragão...; estávamos tão próximos... quase amigos!...
Recordou
os dias em que contemplou sua carranca distorcida nas águas escuras da lagoa...
Não perdeu a esperança, afinal, outras enchentes ainda poderiam voltar...
A
lagoa, que tudo observava de longe, analisava as reações do obscuro dragão,
entendendo que nunca conseguiria ser sua amiga; porque o dragão somente se
sentia feliz, quando ela estava enlameada e triste...
O invejoso se alegra com a desgraça
alheia; muito mais do que com o próprio sucesso.