ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

21 maio 2026

O DRAGÃO E A LAGOA

 

O DRAGÃO E A LAGOA

                                                                  Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Escondia-se nas trevas de uma caverna à certa distância de uma linda e plácida lagoa. Quem passasse não perceberia sua presença, talvez, pudesse sentir seu hálito fétido e o brilho esverdeado de seus olhos dilatados...

                                    De longe, o estranho dragão observava o encanto da lagoa, suas margens rodeadas de belas palmeiras, folhagens coloridas e o alegre canto dos pássaros. Pensava, em sua insensatez, que se ele morasse mais perto da lagoa, talvez, fosse mais belo, mais atraente ao olhar dos visitantes...

                                    Imaginou-se, ao sol, banhando-se na água cristalina da lagoa e ouvindo o som do vento, suave, deslizando nas largas folhas das palmeiras...

                                    Aos finais de semana, crianças e seus familiares vinham divertir-se ao redor da lagoa, correndo e mergulhando em suas águas azuladas... A alegria transbordante dos inocentes corações parecia tocar o céu...

                                    O tempo passou... Vieram os dias de chuva e a lagoa aumentou o volume de suas águas, agora, barrentas, escuras e sem o espelho transparente do verão...

                                    O dragão, imerso em sua amargura e escuridão, sentiu-se, de algum modo reconfortado; porque, agora, havia entre eles uma certa afinidade...

                                     Mas, com a chegada do outono e, após, a primavera, as águas da lagoa foram se tornando, mais e mais, claras, retomando sua beleza e transparência habituais...

                                    – Que pena, pensou o dragão...; estávamos tão próximos... quase amigos!...

                                    Recordou os dias em que contemplou sua carranca distorcida nas águas escuras da lagoa... Não perdeu a esperança, afinal, outras enchentes ainda poderiam voltar...

                                    A lagoa, que tudo observava de longe, analisava as reações do obscuro dragão, entendendo que nunca conseguiria ser sua amiga; porque o dragão somente se sentia feliz, quando ela estava enlameada e triste...

 

 

O invejoso se alegra com a desgraça alheia; muito mais do que com o próprio sucesso.

 

 

15 maio 2026

A ELEIÇÃO DO CHEFE MAIOR

 

A ELEIÇÃO DO CHEFE MAIOR

                                                                                               Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Agito total...

                                    As ruas ferviam com a baderna dos militantes, faixas, bandeiras e animados slogans gritados. 

                                    Camisetas marrons procuravam transmitir a seriedade dos participantes, eleitores engajados em objetivos nacionalistas...

                                    Tratava-se do lançamento das pré-candidaturas para o preenchimento da vaga de Chefe Maior da respeitada Vila dos Avestruzes...

                                    As tradições sagradas deviam ser guardadas, porque intocáveis... Foram surgindo de costumes centenários, passando de geração a geração...

                                    Lembrava-se a todo momento que os candidatos e militantes deveriam preservar os antigos costumes, espécies de faróis a iluminar os novatos...

                                    Seria punido com severidade qualquer ato contrário; vale dizer, com pena de prisão domiciliar, uso de tornozeleira e controle verbal dos “linguarudos”...

                                    Como cautela, para ninguém alegar desconhecimento, foram postos critérios em edital na internet e, também, espalhados pelas dependências do PUA – Partido Único dos Avestruzes, a saber:

 

1.    Serão aceitas candidaturas, apenas, de avestruzes machos;

2.    Será dada preferência ao candidato de menor estatura física;

3.    Não é necessária experiência anterior ou formação escolar de nível, desde que haja comprovada fidelidade aos ideais do Partido;

4.    Candidatos com opinião própria não serão aceitos;

5.    A última palavra, em qualquer questão relativa às eleições, será sempre do SCA  – Soberano Conselho dos Avestruzes.

 

                                    Estabelecidos os critérios, respeitados os prazos, chegou-se ao esperado dia da eleição...

                                    Dentre os candidatos, houve um que se destacou pela baixa estatura, sendo mais conhecido como “Nanico”; que foi eleito.

                                    Havia, no entanto, um grupo que o conhecia de longa data, que achava mais apropriado chamá-lo de “Maroto”.

                                    Na posse de “Nanico”, pediu-se que fizesse breve discurso, porque todos estavam esgotados da campanha.

                                    Para alegria do público, o eleito alegou dificuldades de leitura, porque esquecera os óculos em casa...

                                    Mas, alguém, gentilmente, ofereceu-se para a difícil tarefa da leitura, o que fez, pausadamente, no dobro do tempo.

                                    Aplausos e alívio geral, seguidos de lauto banquete, regado a vinho fino, marcaram o início da gestão do Nanico...

                                    Passados longos anos, após sucessivas reeleições, respeitado por todos e aplaudido por seus eleitores, chegou à Vila dos Avestruzes um renomado pesquisador internacional para descobrir o segredo do ilustre Nanico.

                                     Coligidos os dados, analisados os indicadores, ficou registrado para a posteridade o seguinte resultado:

 

1.    Nanico não falava porque lhe haviam cortado a língua para não falar besteiras, porque era conhecido por ser “bocudo”;

2.    Não enxergava porque se recusava a usar óculos, para esconder que era analfabeto funcional;

3.    Não ouvia porque se fingia de surdo para não ter que responder aos eleitores;

4.    Não lia e nem estudava para não “confundir” as ideias...

 

                                    Mas, como ficou ressaltado, no prestigiado “relatório” foi reconhecida como sua qualidade principal – esconder com invulgar rapidez a cabeça na areia, todas as vezes que enfrentava um grave problema, uma crise!

                                    Afinal de contas, como um prestigiado e velho avestruz, esconder a cabeça na areia era sua melhor técnica...

                                    Tinha, como espécie de mantra, velho ditado da Vila dos Avestruzes: “Deixa estar para ver como fica”.

                                    Com o tempo, Nanico foi eternizado na praça principal da Vila dos Avestruzes, com uma estátua que todos diziam ser uma réplica “Do Pensador”, do afamado escultor francês, Rodin, admirada por todos que a visitavam.

                                    As Vilas vizinhas começaram, pouco a pouco, a imitar a gestão do Nanico, e, por isso, ficaram tão estagnadas quanto algumas localidades de hoje.

 

 

 

Aviso final: qualquer semelhança com administradores humanos, nos dias atuais, é pura coincidência!

09 maio 2026

BILHETE PARA MAMÃE

 

BILHETE PARA MAMÃE

                                                                             Maria da Glória Colucci

 

 

                        Tenho guardado, como verdadeira relíquia, um bilhete escrito por mim, para minha mãe, em 8 de maio de 1955.

                        À época eu estava com 10 anos de idade...

                        Morávamos em bairro distante, na região suburbana do Rio de Janeiro...

                        O local era agradável e tinha um ar quase bucólico, interiorano...

                        As ruas não eram asfaltadas, porém, ladeadas por pequenos arbustos que, à época, abrigavam passarinhos em seus frágeis ramos.

                        Hoje, no entanto, o abandono dos governantes, a falta de estrutura viária, tornou a bela região quase inabitável...

                        Brincávamos na calçada, de roda, de amarelinha; enquanto os meninos jogavam futebol ou bolas de gude...

                        Íamos a pé para a Escola Pública República do Chile, a razoável distância, sem qualquer medo...

                        Alegres, pulando pelo caminho, voltávamos para casa sãos e salvos...

                        Algum tempo depois, voltamos para o bairro de Ramos, de onde não devíamos ter saído, pelas suas comodidades e proximidade do centro da cidade...

                        Neste singelo bilhete, transcrito por mim na sequência, procuro em meu nome e de meus irmãos, Paulo, Nize e Mira, mostrar nossa preocupação e apoio à nossa mãe...

                        Foram tempos difíceis, em que ela, sem ajudante doméstica, limpava toda a casa e cuidava com esmero dos filhos...

                        Os recursos financeiros eram escassos..., tudo precisava ser feito em casa, desde a comida da criançada “comilona”, até às roupas, costuradas por minha mãe na máquina Singer...

                        Quando de seu falecimento, em 2020, dentre os achados de minha mãe, foi encontrado o bilhetinho escrito há 70 anos:

 

                         

                          “A minha mãe querida”

 

               Minha mãezinha querida, escrevo-lhe este simples bilhete a fim de pedir-lhe mil descupas pelas minhas respostas, macriações, amolações, igijensias etc...

             Porque eu recunheço que você sofre tanto pela causa de nos tirar daqui aonde moramos e nem assim nós como seus filhos não temos ajudado-a devidamente como você merece...

             Nós todos juntos hoje nesse dia tão maravilhoso e festival comemoramos o dia “das mães”.

             Quem inventou tão grande dia merece muitos e muitos aplausos por todos que amam suas mães verdadeiramente.

             Agora todos nós, seus filhos pedimos muitas e muitas descupas pelas nossas faltas de consideração com você que tanto merece os nossos carinhos e atençones.

             Nós todos desse grande mundo comemoramos hoje o dia “das mães” constumamos dar presente, fazer promesas de obediência, abraços, beijos e outras cousas que não me lembro no momento.

             Mas isso não é nada nada pois o que você merece é o queu não sei disser.

             Agora nós despedimos de você com um grande abraço de seus filhos, Paulo, Nize e Mirinha

                                  e

                                          Maria da Glória

 

                                                                      

                        Obs.: os erros ortográficos e repetições foram transcritos como se encontram no bilhete original; amarelado e com vários pequenos “furos” feitos pelas traças...

 

 

Respeitar e amar aos pais é o primeiro mandamento com promessa de sucesso na vida: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que te vá bem e vivas muito tempo sobre a Terra”.

Bíblia Sagrada: Efésios 6: 2 – 3.

             

 





PEDRINHO E MIMI

 

PEDRINHO E MIMI

        Maria da Glória Colucci

 

 

                                    O longo romance durou toda uma vida de afeto e cumplicidade.

                                    Mimi e Pedrinho se conheceram nos primeiros anos da juventude, em Itaperuna, no Rio de Janeiro...

                                    Pedrinho passava ao pé da sacada e, esperançoso, sonhava em ver Mimi, linda como sempre...

                                    De família rica e respeitada, Mimi sabia ser delicada, elegante e sensível...

                                    Era professora de música, de piano e acordeão, ensinando pelo método Mascarenhas...

                                    Tinha muitas alunas. Meninas que se esmeravam para serem admiradas e escolhidas por jovens bem sucedidos e abastados da sociedade local.

                                    Mimi encantou-se, secretamente, por Pedrinho e seus lindos olhos azuis...

                                    Ninguém sabia quem era o dono de seu apaixonado coração...

                                    Havia, no entanto, muitas barreiras sociais à época, separando Mimi e Pedrinho...

                                    Ele viera do interior – que era chamado de “roça” – e, apesar de sua gentileza e bela aparência, não possuía recursos para pedir a mão de Mimi em casamento.

                                    Por isso, conversaram na janela da casa colonial, de propriedade dos pais de Mimi, no centro da cidade, por longo tempo.

                                    Dizem que assim aconteceu por longos 10 anos..., até que Pedrinho foi aceito como “visita”, e convidado a entrar no belo casarão de esquina.

                                    Um dia a família de Mimi mudou-se para o Rio de Janeiro, buscando novos ares...

                                    Inconsolável, Pedrinho foi à procura de sua amada Mimi... e, longe dos preconceitos interioranos, pediu-a em casamento...

                                    Casaram-se, mas nunca tiveram filhos, porque a bela Mimi já tinha perto dos 30 anos de idade...

                                    Nos idos de 1940 era sempre mencionado que seu casamento foi realizado quando Mimi era uma “moça velha” ...

                                    Permaneceram juntos até bem velhinhos, quando Pedrinho faleceu...

                                    Apaixonada e profundamente saudosa e triste, Mimi viveu pouco tempo após a partida de Pedrinho...

                                    Pedrinho e Mimi foram meus tios paternos.

                                    Meu tio Pedrinho nos levava, a mim e meus irmãos, até ao Sítio São Luis, na época das férias, em Comendador Venâncio...

                                    Era muito gentil e carinhoso, com uma paciência, hoje, para mim, incompreensível...

                                    Viajávamos de limusine do Rio de Janeiro até o destino no interior, na “roça”, onde ficávamos por longos, divertidos e saudosos dias...

                                    Tenho de Mimi a mesma lembrança de generosidade e paciência, porque nos dava aulas de acordeão, de graça, apenas pelo prazer de doar do seu tempo e habilidades...

 

Em memória de Mimi e Pedrinho.

Curitiba, 2025.

 

Há pessoas que passam pela Terra como raios de luz, iluminando com amor, bondade e generosidade a todos que os conhecem.

                                   

 

                                                           SAUDADES

 

Não têm nome.

Não têm marca

Nem somem...

Saudades do agora.

Saudades do ontem.

Saudades do outrora...

 

*Disponível no Blog: Nuvem de Cetim Poemas. Endereço eletrônico: https://nuvemdecetimpoemas.blogspot.com

29 abril 2026

AMOR NEGADO

 

AMOR NEGADO

                                                                                        Maria da Glória Colucci

 

 

                                    O “amor negado” se apresenta mais pelas evidências práticas, do que por eventuais conceituações legais ou doutrinárias.

                                    Corresponde àquela situação em que alguém, que tem o “dever de cuidado”, pela lei, por laços familiares ou de outra ordem, se afasta de forma deliberada, intencional e perversa, de outrem, isolando-a ou abandonando-a afetivamente.

                                    As ações ou omissões do negador(a) do afeto, no entanto, são por ele(a) sempre “justificáveis”; como, por exemplo, alegando falta de tempo, excesso de trabalho, ou mesmo “esquecimento” eventual...

                                    O agente da “negação afetiva” é, geralmente, alguém próximo, que pode ser o pai ou mãe da criança ou adolescente, por exemplo...

                                    Hoje, até mesmo o abandono de animais ou maus tratos de pets são condenados pela sociedade... Novos tempos! Mas, nem sempre igual atenção se dá aos seres humanos...

                                    Igualmente, pode ocorrer na relação entre filhos(as) e os pais, irmãos etc.; sobretudo, quando envelhecidos, já aposentados, cansados e doentes, são desprezados.

                                    Vale dizer, são pessoas necessitadas de afeto e mínimas condições de vida, mas que, ao ver dos negadores(as), “não servem para mais nada”...

                                    É bom destacar que, ainda em análise superficial, o abandono ou menosprezo deve ser intencional, como forma de rejeição ou puro desprezo...

                                    Frequentemente, a mídia relata situações de crianças, pessoas com necessidades especiais ou deficiências, idosos, etc, que são encontrados(as) em condições deploráveis físicas e mentais..., devido ao abandono familiar.

                                    Verifica-se, todavia, que há algumas situações em que o abandono se dá por absoluta falta de recursos, ignorância ou outras situações de extrema miséria, sem que haja a intenção de menosprezar...

                                    Mas, o que se tem notado, é que as situações mais comuns envolvem negadores(as) insensíveis, destituídos de mínima afetividade, egoístas e maus, que agem desta forma, pelo simples prazer de ferir...

                                    Negam-se, por exemplo, a atender os telefonemas ou mensagens deixadas no celular pelos filhos(as), pais, ou recados urgentes de ajuda humanitária...

                                    Nos casos de divórcios, o cônjuge que se afasta da família, voluntariamente ou não, “pune” os filhos(as); negando-lhes o amor devido pela Moral, pelo Direito, pela Religião, pela Sociedade!

                                    O que se pode esperar de seres humanos que assim agem?

                                    Esse é um grave problema social que tem aumentado a olhos vistos!

 

  

O amor é a maior dádiva que um ser humano pode compartilhar com outro... 

O FAZENDEIRO E SUA PLANTAÇÃO

 

O FAZENDEIRO E SUA PLANTAÇÃO

                                                                                                                    Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Um certo homem rico, famoso e proprietário de muitas terras, dedicou-se a grande plantação, próspera e bem sucedida.

                                    Rígido, trabalhador e exigente, não poupava esforços para o bom desempenho de seus empregados.

                                    Todos o serviam com temor, porque era implacável em suas decisões.

                                    Levantava-se bem cedo.

                                    Trabalhava até o anoitecer.

                                    Sob chuva e sol, o proprietário do campo o adubava, aumentando os limites de seu poder econômico.

                                    Em razão de sua fama, pessoas que o visitavam, ao mesmo tempo que o elogiavam, alertavam-no para diversificar o plantio...

                                    Nada o demovia de suas práticas...

                                    A insatisfação dos seus trabalhadores com os métodos adotados, com a baixa remuneração e os maus tratos recebidos, eram-lhe completamente indiferentes.

                                    Uma noite, uma repentina ventania se aproximou da preciosa plantação do homem inclemente, deixando-o desesperado com a possibilidade de sua destruição...

                                    Seus vizinhos, empregados e alguns conhecidos tentaram avisá-lo que deveria se abrigar dentro de casa, por segurança, ou seria atingido pela súbita intempérie...

                                    No entanto, seu raciocínio estava tomado pelo pânico, diante do iminente desastre ambiental, permanecendo fora dos limites de sua residência...

                                    Arrebatado pela força do vento, foi o incauto fazendeiro lançado sobre as plantas que, apesar de pequeno porte, o feriram gravemente...; por serem um campo de cactus espinhosos e pontiagudos...

                                    O fazendeiro lamentou consigo mesmo, pela primeira vez, que deveria ter-se dedicado à plantação de delicadas margaridas, humildes agapanthus ou coloridas hortênsias...; conforme tantas “vozes” o haviam sugerido.  

                                    Mas, teimoso, insistiu no plantio de cactus, devido aos elevados preços que os floricultores pagavam para expô-los em suas vitrines..., no movimentado comércio de outras cidades e países.

                                    Ao rolar sobre eles, devido ao impacto do vento, feriu-se em todo o corpo...

                                    No amanhecer, moído, levantou-se e voltou para casa, andando, vagarosamente. Lavou-se, aliviando a dor das feridas físicas e da vergonha moral, banhando-se em camomila...

                                    Curado, vendeu a sede da fazenda e a sua rica plantação de cactus.

                                    Desaparecendo do cenário, sumiu de madrugada pela estrada em direção da cidade próxima e de lá viajou para bem longe...

                                    Em sua arrogância, dizia para si mesmo:

                                    – Por que não dei ouvidos às sugestões que me foram dadas? Nada disso teria acontecido.

                                    Lembrou-se, então, de antigo provérbio popular, que sua mãe repetia com frequência:   

                                    – Quem semeia vento, colhe tempestade!

                                    Muitas lições podem ser tomadas da narrativa oferecida, ainda que mera ficção.

                                    Como, por exemplo, a semeadura que muitos, em posição de poder e autoridade, fazem, no sentido de rigidez excessiva, grosserias, menosprezo pelos mais fracos, analfabetos ou de pouca cultura...

                                    Um dia, quando menos esperarem, a ventania da Justiça de Deus os lançará sobre a própria semeadura que fizeram, colhendo, com grande sofrimento, do mesmo mal que espalharam.     

 

A semeadura é sempre uma escolha,

mas a colheita não!

23 abril 2026

DITADURA DO CELULAR

 

DITADURA DO CELULAR

                                                      Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Controlar o poder da língua é a arte mais difícil de se exercitar...

                                    Com muito esforço e empenho se pode aprender a tocar piano, órgão, pífaro, violão ou qualquer instrumento musical...

                                    Há, até os que se tornam “virtuoses” ...

                                    Demanda muita perseverança, habilidade e, sobretudo, desejo de abrir mão de liberdades e prazeres da vida, para dedicar-se a uma atividade...

                                    Mas, a língua? Quem pode domá-la?

                                    Fala-se demais... Quando se deve calar...

                                    Silencia-se no momento em que seria adequado e útil falar; principalmente, porque falta coragem...

                                    Combater injustiças; defender o pobre, o desvalido, o ferido em seus direitos, etc.; porém..., é preciso muita ousadia!

                                    Não é fácil, nem pelo celular...

                                    Exemplos recentes mostram quantos danos o ato de “bater com a língua nos dentes” tem causado...

                                    Na política, nas rodas de amigos, nas intrigas palacianas etc, o alastramento de injúrias, calúnias e difamações se tornaram nos celulares “lugares de fala”, com muitos atritos e polarizações; há algum tempo impensáveis...

                                    Mas, por trás dos bastidores, toda essa baixaria e vergonha nacional era, devidamente, gravada e divulgada nos celulares.

                                    Tudo registrado, em prosa, em verso, em fatos, em gestos, em “memes” ...  onde? Por óbvio, no celular! 

                                    Descontrole total! Absoluto “non sense”.

                                    Golpes de Estado imaginários ou não...

                                    Trapalhadas e parvoíces, nem são escondidas, são escancaradas...

                                    Destarte, é espantoso como as pessoas divulgam suas debilidades, fotos de crianças, casamentos, etc e as expõem ao escrutínio estranhos.

                                    Por outro lado, quando os celulares são roubados, contas bancárias são invadidas, “nudes” são vasados, vidas são devassadas sem dó, sem piedade...

                                    Tudo, devidamente, gravado!

                                    Vive-se em plena ditadura do celular...

                                    Quando um celular novo é lançado, há um verdadeiro “pânico”, generalizado, dos consumidores, ávidos por comprá-los, mesmo que, para alguns, com endividamento acima de suas posses pessoais...

                                    Que pobreza mental!

                                    Alegam os pedagogos que o celular pode causar dependência psicológica dos adolescentes, prejudicando o aproveitamento escolar e a qualificação dos futuros profissionais do País.

                                    Fala-se, até mesmo, em uma espécie de síndrome de abstinência para seus usuários, quando privados de seu uso, gerando ansiedade, déficit de atenção etc...

                                    Há, ainda, a monetização de vídeos; causando suicídios, os chamados “desafios”, no caso de crianças e adolescentes...

                                    Quantos prejuízos o mau uso do celular pode causar! Até quando?    

                                    Porém, a importância do celular como meio de comunicação é inegável! Não se pode, hoje, viver sem utilizá-lo, desde que de forma equilibrada, respeitosa e sadia...

                                    O grande desafio está, certamente, em estabelecer autolimites e educar a juventude, para dar-lhe o valor, que já possuíram o rádio, a televisão, o computador, a impressora etc.

                                    Mas, como tudo passa, a hipervalorização e idolatria do celular é só uma questão de tempo... vai passar!

 

 

Todo e qualquer bem ao alcance do ser humano deve ser-lhe útil e, jamais, dominá-lo, ao ponto de causar-lhe dano de qualquer natureza.                   

   

15 abril 2026

O DIA DAS COISAS PEQUENAS

 

O DIA DAS COISAS PEQUENAS

                                                                                                                       Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Todos os finais de ano, a Velha Senhora fazia uma espécie de balanço das pendências de limpeza e arrumação da casa...

                                    Aprendera, na infância, com a vida doméstica, que era muito positivo dispensar objetos, roupas, papéis, louças etc., na virada de cada ano...

                                    O agito do ambiente familiar era grande... Revirando-se armários, gavetas, caixas e guardados, com a finalidade de tornar a chegada do Ano Novo em tempo mais leve...

                                    O rádio ligado, tocando Dalva de Oliveira e outros artistas da época, oferecia o fundo musical apropriado para a ocasião e abafava gritos e escorregões da reorganização dos espaços...

                                    Era o ritual de sempre... nos idos dos anos 60...

                                   Coisas quebradas eram lançadas no lixo...; as reutilizáveis deixadas a um canto do quintal, para posteriores doações.

                                    Havia o entendimento, passado de geração em geração, que manter em casa coisas não utilizadas representa retrocesso para a vida familiar...

                                    Além de significar, a olhos mais atentos, egoísmo, avareza e acumulação de bens (tralhas)...

                                    A Velha Senhora imersa em seus tardios pensamentos, teve, então, ligeiro sobressalto ao ouvir a campainha tocar...

                                    Já sabia de quem se tratava.

                                    Sua ajudante havia chegado com pontualidade, às 8:30h, conforme havia sido combinado.

                                    Cabia à Velha Senhora separar os objetos, alguns já retirados das gavetas, para serem deixados no quartinho dos fundos...

                                    Começou por um rádio transistor “a pilha”, que teve em sua juventude, cuja posse representava para a época um sinal de status e maturidade, a exemplo de um celular de marca, hoje...

                                    Os “radinhos” de pilha eram cobiçados como objetos do desejo de rapazes e moças, como um atrativo a mais em suas conquistas, porque as “paqueras” começavam com perguntas sobre o funcionamento das pequenas máquinas de som...

                                    Foram os “radinhos” e suas pilhas os ancestrais dos “chips” dos eletrônicos e dos equipamentos de hoje.

                                    A quantidade de long-plays que acumulara era grande, como selecionar e doar objetos tão preferidos como discos?

                                    Uma a uma, as melodias dos Beatles, Jonny Mathis, Nat King Cole, Diane Ross, Ray Connif, Carpenters etc, passaram por diante de seus olhos rasos de lágrimas e saudades.

                                    Quantas expectativas e sonhos existiram para os pais e filhos, quanto ao acesso à universidade, trabalho, casamento, família etc.

                                    Muitos deles, nunca se realizaram pelas dificuldades econômicas e políticas existentes e pelas mudanças dos costumes...

                                    Na moda, Chanel era a estilista internacional em destaque, com seus tailleurs, o perfume Chanel 5, sonhos de consumo de mulheres do high Society...

                                    Como descartar seu toca discos?

                                    Álbuns com fotografias de antigas amizades? Família, colegas de universidade, excursões etc.? Impossível rasgá-los ou esquecê-los... Voltaram às prateleiras e gavetas... Quem sabe seriam descartados em outro final de ano?

                                    Começou a examinar os livros..., tantos, tantos..., alguns em caixas, outros em pilhas, muitos contendo informações que a internet oferece com mais atualizações...

                                    Sentiu-se cansada... Parou...

                                    Voltou-se à sala de visitas, sentou-se no sofá e resolveu ver o noticiário...

                                    Outros tempos... Salve o Novo Ano!

 

 

De forma simbólica, o ato de desfazer-se de objetos guardados representa uma forma de superação de memórias antigas, e de dizer “adeus” ao passado, vivendo o presente.

 

 

A PULGA FALANTE

 

A PULGA FALANTE

                                                        Maria da Glória Colucci     

 

 

                                    Cansada de não ser ouvida nas Assembleias dos Bichos, a pulga decidiu que ia fazer um curso de oratória.

                                    Começou por longa pesquisa sobre a duração, o preço e os professores disponíveis.

                                    Surpreendeu-se, positivamente, com a variedade e os valores acessíveis cobrados dos interessados, além das exigências quanto ao treinamento dos alunos...

                                    Muitos dos concluintes, conforme a pulga constatou, se destacaram pelo brilho dos seus discursos na festa de formatura, dentre os quais o tucano...

                                    Entusiasmada, iniciou as aulas, dedicando-se, fervorosa e atenta, aos exercícios vocais...

                                    Treinou o tom de voz que, apesar de fraca, pela sua pequena estatura, era agradável e melodiosa.

                                    Seus esforços lhe valeram alegrias, considerando-se satisfeita quando recebeu o certificado de aptidão em oratória...

                                    Marcada a Assembleia Anual dos Bichos, a pulga inscreveu-se como oradora na abertura do esperado evento; quando eram apresentadas novas propostas em benefício dos mais vulneráveis...

                                    O microfone foi ajustado no máximo de sua potência, para que sua tímida voz fosse ouvida por todos.

                                    Recebeu muitos aplausos, como aconteceu com todos os oradores que participavam da abertura...

                                    Terminada a Assembleia, constatou a esforçada pulga que nenhuma das propostas inovadoras foi aprovada, nem sequer examinada...

                                    Foram mantidos os mesmos procedimentos e privilégios de sempre.

                                    Retornando à sua morada, sentiu profunda tristeza e decepção com o ocorrido, apesar de seu empenho e preparo.

                                    Então, ao passar, ouviu o papagaio conversar com a arara dizendo:

                                    – Vencemos mais uma vez! Tudo ficou como antes!

                                    Ao que a arara replicou:

                                    – Tolos! Ainda não entenderam que suas ideias não interessam aos maiorais?

                                    Foi, então, que a pulga compreendeu o abismo existente entre seus sonhos de mudanças e inovação e a realidade dos fatos. 

                                    A coruja, com sua proverbial sabedoria, vendo o desanimo da pulga e seus inúteis esforços, acrescentou:

                                    – Não desanime! Os sonhadores são os únicos que podem resistir ao tradicionalismo e promoverem mudanças...

                                    Em silêncio, a pulga prosseguiu em seu caminho, nutrindo leve esperança que, talvez, algum dia, sua fraca voz pudesse ser ouvida pelos governantes..., em prol dos mais vulneráveis. 

 

 

A exclusão social dos mais pobres e vulneráveis somente será extirpada pelo acesso à educação e pleno exercício dos direitos.