ALEGORIAS. CONTOS. CRÔNICAS. FÁBULAS. MEMÓRIAS.

10 junho 2026

O LEÃO E AS FORMIGAS

 

O LEÃO E AS FORMIGAS

                                                                  Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Espreguiçava-se o leão sob os galhos de uma das poucas árvores que restara desde as últimas chuvas...

                                    Próximo ao leito do rio, o cenário desértico, seco e sem vida, se acentuava ainda mais pela presença de esqueletos de animais...

                                    As carcaças eram uma evidência da aridez do solo, da sequidão do ambiente, desolador e esquecido pelos seres vivos...

                                    Os barrancos se estendiam ao longo da ravina, contornando os sulcos deixados pela passagem abrupta das violentas correntes d’água que, uma vez ao ano, fluíam por entre as rochas...

                                    Nada lhe parecia incomodar. As moscas, o zumbido insistente dos mosquitos, o voo rasante dos corvos, atraídos pelo mau cheiro dos restos de animais, mortos pela fome e sede.

                                    O leão vivia rodeado pelo que estava incorporado à sua memória, lembranças de sempre, o que lhe dava uma aparente calma...

                                    Todavia, sob o solo, fervilhava um grande formigueiro. Era constante o ir e vir das formigas, recolhendo as últimas folhas e restos de insetos que se escondiam nos sulcos da terra...  

                                    Desenvolviam um labor diário, do amanhecer até ao pôr do sol, aproveitando o calor, o estio, para armazenar o seu pão...

                                    Enquanto as formigas carregavam seus enormes fardos, muitas vezes mais pesados do que as suas forças; o leão aproveitava para dormir, soneca após soneca..., à espera de uma distraída caça...

                                    E o tempo das chuvas chegou. Dia após dia torrentes de desolação e fome se lançaram sobre a ravina. Mas, as laboriosas formigas, abrigadas nas profundezas das rochas, mantiveram-se alimentadas na adversidade e mau tempo.

                                    E o leão, magro e andarilho, então, saiu, tendo consciência do tempo perdido com a preguiça e imprevisão...

 

 

Sábio é quem trabalha aproveitando as oportunidades, porque no inverno (velhice) colherá os resultados.

O FIO DA MEADA

 

                             O FIO DA MEADA

                                                                                                   Maria da Glória Colucci

 

 

                                   Recostou-se à beira da janela para aproveitar os últimos raios de sol do entardecer.

                                   Ao seu lado, seu bichano Quindim, sonolento, ao mesmo tempo, vigilante, dormitava, enquanto tomava conta dos mínimos movimentos da amiga...

                                   Curtiam a companhia um do outro.

                                   Amizade longa, desde que chegara, ainda um bebê, enrolado em mantinha de lã, ronronando baixinho...

                                    Ela, reclinada sobre a cadeira de balanço, pensava sobre a vida que estava levando nos últimos quatro anos...

                                    Seus caminhos, no longo percurso já vencido, foram de altos e baixos – mais altos que baixos; mas alguns acontecimentos marcaram sua vida de tal maneira, que eram difíceis de esquecer.

                                    Recordou-se que chegou a Curitiba após a neve; na década de 70, quando a cidade ainda era muito provinciana...

                                    De tal modo evoluiu como metrópole, com os investimentos e novas tecnologias, que se tornou uma das “Dez Melhores Cidades do Mundo” para se viver...

                                    Vários sentimentos tomaram seu coração, quando se lembrou que sua filha tinha, apenas, 9 meses de idade, ao chegar na bela Curitiba.

                                    Tão linda! Sentia tanto frio em seu pequeno corpinho, enrolado em mantas e gorros de lã...

                                    Ela, então, com pouco mais de 30 (trinta) anos, estranhou tanto o clima; o sol amarelo e gelado, que não esquentava quase nada; para quem tinha vindo do calor do Rio...

                                    No entanto, Curitiba foi seu amor à primeira vista... Prometeu a si mesma que ficaria por vontade própria nesta aprazível cidade...

                                    Os atropelos de uma cidade em evolução não a incomodavam nem um pouco. Muitos dos seus amigos, parentes e vizinhos partiram para outros rumos, em cidades brasileiras e estrangeiras, mas, ela permaneceu...

                                    À época, em suas atividades laborais, verificou a presença dominante de homens, em mais de 85% das situações, tendo aprendido a tolerar descortesias e ciumeiras profissionais, como algo normal.

                                    Demorada e pausadamente, antigos fatos lhe vieram à memória.

                                    Vívidos, como se fossem recentes...

                                    Os novos métodos de ensino, o uso das ferramentas digitais, a liberação da frequência às aulas; a inteligência artificial (IA) e as “pesquisas” de “meia boca”; a pandemia de Covid.

                                    Enfrentou, com paciência, os atrasos na aprendizagem de alunos(as) que vinham de precárias formações no ensino médio...

                                    O uso de smartphones para acompanhamento das aulas, demandas individuais de pessoas com deficiência, que mereciam toda atenção e esforço didático para sua evolução...

                                    O ensino à distância (EAD), nova metodologia que facilitou o acesso ao conhecimento superior e a outras etapas do aprendizado; mas que rompeu os laços de proximidade na relação professor(a)/aluno(a), foi outro impacto no ambiente universitário...

                                    Tudo ao mesmo tempo!

                                    – Chega! Pensou, em desespero, diante de tantas demandas, em tão pouco e curto espaço de profissão!

                                    Aposentou-se aos 76 anos de idade.

                                    Mas, aliviada, lembrou-se que conseguiu atravessar as ruidosas e difíceis fases com muito esforço e alcançar êxito.

                                    – Qual seria o segredo? Ainda lhe perguntam...

                                   Responde sempre com um sorriso de profunda satisfação:

                                    – O fio da meada é a fé em Deus!

                                   

                                                                             

A fé é a chave que abre todas as portas, permitindo vencer obstáculos de qualquer natureza.  

27 maio 2026

O SABOR AMARGO DA INIMIZADE

 

O SABOR AMARGO DA INIMIZADE

                                                 Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Laços de sangue nem sempre são indicativos de longas e permanentes amizades...

                                    Compartilhar o mesmo DNA não quer significar construir bases sólidas de afinidades entre indivíduos da mesma família...

                                    Que pena! Mas, isso é um fato cada vez mais comum.

                                    No entanto, são conhecidas as amizades entre pessoas que se conheceram, por acaso, e permaneceram ligadas até o fim de suas vidas.

                                    Tenho sido agraciada por Deus com muitas amizades, que começaram com o magistério e, até hoje, mesmo na aposentadoria, ainda, se mantêm...

                                    A amizade é, assim, uma dádiva de Deus aos seres humanos!

                                    Foi-me contada uma estória de amizade antiga entre duas senhoras, desde os idos de 1970 e, hoje, já bem idosas, conservam o mesmo respeito e afeto que sinceras amizades requerem.

                                    Nunca haviam se encontrado até que em uma viagem do Rio para São Paulo, se conheceram e, desde então, não mais se afastaram...

                                    Podem ser chamadas de Margarida e Pérola, nomes fictícios e detalhes criativos serão utilizados para não lhes ferir a privacidade.

                                    Viajavam com o propósito de comprarem o enxoval para seus casamentos, como era praxe à época.

                                    Muitos bordados, rendas e aplicações tornavam aquelas peças o sonho das noivas...

                                    Tinham, assim, os mesmos propósitos e conversaram muito.

                                    Trocaram os números dos telefones fixos e se propuseram a manter contacto...

                                    E assim aconteceu...

                                    Após retornarem ao Rio e iniciarem suas famílias, sempre conversavam e se visitavam, quanto era possível à época.

                                    Margarida teve filhos que foram amadrinhados por Pérola.

                                    Todavia, Pérola não teve filhos, vivendo em boas condições financeiras com seu esposo.

                                    Pérola ajudava Margarida com boa vontade, socorrendo-a na doença de seus pais, porque tinha coração nobre e espírito elevado.

                                    As duas famílias se tornaram amigas, até que viúvas, voltaram a viajar juntas, nas excursões para idosos...

                                    Creio que aquele primeiro encontro foi marcado por Deus nos céus...

                                    O entrosamento entre suas respectivas famílias se estendeu até à segunda geração, apenas, por um encontro casual entre duas jovens, em uma viagem interestadual...

                                    Há, no entanto, pessoas que cultivam inimizades e mágoas por toda vida, porque nutrem inveja e ciúme nos seus sentimentos...

                                    São seres humanos com muitas qualidades que, porém, não se valorizam; preferindo desejar ter o que os outros possuem (inveja), ou se sentirem defraudados por outros no que julgam ser seu (ciúme).

                                      Em ambientes profissionais e familiares, vizinhanças, comércio etc., estes sentimentos negativos causam muitos prejuízos, “adoecendo” o ar laboral com “energias” maléficas...

                                    Tanto a “inveja” profissional, quanto o “ciúme”, brotam de pessoas com pensamentos destrutivos, cujos resultados são deletérios a todos.

                                    Ambos, inveja e ciúme, são a base da inimizade gratuita, dos comentários desagradáveis, que azedam qualquer ambiente, sobretudo, o familiar...

                                    Há, no entanto, um antídoto para o ciúme e a inveja, qual seja, a amizade, baseada no respeito e no elogio sincero...

                                    “Almas generosas” sempre prosperam, onde quer que se encontrem...

                                    Pessoas invejosas e ciumentas “azedam” as conversas, porque são, basicamente, inseguras, medrosas, egoístas...

                                    Procuram, sempre, denegrir o talento alheio, além de serem incapazes de elogiar, ou encontrar bondade e afeto nos demais...

                                    A ajuda de um profissional de saúde, psicólogo, psiquiatra ou outro conhecedor da saúde mental, poderá ser de grande valia.

                                    Há muitas causas, conhecidas ou não, que levam ao ciúme e inveja, refletindo o desequilíbrio mental daqueles que, reiteradamente, buscam (e encontram) motivos para criticarem os que não pensam como eles...

                                    Talvez, o maior obstáculo de tais pessoas é a falta de coragem de buscar tratamento terapêutico ou clínico, porque não reconhecem tal necessidade de ajuda profissional...

                                    Consideram-se autossuficientes, procurando justificar suas atitudes erradas, como se fosse algo certo.

                                    Utilizam-se da conhecida afirmação: Todo mundo faz isso!

                                    O sabor amargo da inimizade, gerado pelo ciúme e inveja, somente desaparece quando há o sincero desejo de mudar!   

                                    E, como sempre, o efeito benéfico do perdão dos ofendidos..., é essencial à superação da inimizade.

 

 

Aquele(a) que possui amigos(as) é mais rico e próspero do que o que ostenta fama e bens.

                                      

 

 

TRÊS COISAS

Maria da Glória Colucci

 

 São difíceis de entender

Três coisas comuns de acontecer:

  A ingratidão de quem não agradece,

Apesar de tudo que recebe.

 A mentira que distorce a verdade,

Encobrindo-a com toda falsidade.

 A traição que destrói a confiança,

Desprezando o amor e a esperança

De sinceros e leais corações.

 

 

*Disponível no Blog: Nuvem de Cetim Poemas.

Endereço eletrônico: https://nuvemdecetimpoemas.blogspot.com

 

 

 

21 maio 2026

O DRAGÃO E A LAGOA

 

O DRAGÃO E A LAGOA

                                                                  Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Escondia-se nas trevas de uma caverna à certa distância de uma linda e plácida lagoa. Quem passasse não perceberia sua presença, talvez, pudesse sentir seu hálito fétido e o brilho esverdeado de seus olhos dilatados...

                                    De longe, o estranho dragão observava o encanto da lagoa, suas margens rodeadas de belas palmeiras, folhagens coloridas e o alegre canto dos pássaros. Pensava, em sua insensatez, que se ele morasse mais perto da lagoa, talvez, fosse mais belo, mais atraente ao olhar dos visitantes...

                                    Imaginou-se, ao sol, banhando-se na água cristalina da lagoa e ouvindo o som do vento, suave, deslizando nas largas folhas das palmeiras...

                                    Aos finais de semana, crianças e seus familiares vinham divertir-se ao redor da lagoa, correndo e mergulhando em suas águas azuladas... A alegria transbordante dos inocentes corações parecia tocar o céu...

                                    O tempo passou... Vieram os dias de chuva e a lagoa aumentou o volume de suas águas, agora, barrentas, escuras e sem o espelho transparente do verão...

                                    O dragão, imerso em sua amargura e escuridão, sentiu-se, de algum modo reconfortado; porque, agora, havia entre eles uma certa afinidade...

                                     Mas, com a chegada do outono e, após, a primavera, as águas da lagoa foram se tornando, mais e mais, claras, retomando sua beleza e transparência habituais...

                                    – Que pena, pensou o dragão...; estávamos tão próximos... quase amigos!...

                                    Recordou os dias em que contemplou sua carranca distorcida nas águas escuras da lagoa... Não perdeu a esperança, afinal, outras enchentes ainda poderiam voltar...

                                    A lagoa, que tudo observava de longe, analisava as reações do obscuro dragão, entendendo que nunca conseguiria ser sua amiga; porque o dragão somente se sentia feliz, quando ela estava enlameada e triste...

 

 

O invejoso se alegra com a desgraça alheia; muito mais do que com o próprio sucesso.

 

 

15 maio 2026

A ELEIÇÃO DO CHEFE MAIOR

 

A ELEIÇÃO DO CHEFE MAIOR

                                                                                               Maria da Glória Colucci

 

 

                                    Agito total...

                                    As ruas ferviam com a baderna dos militantes, faixas, bandeiras e animados slogans gritados. 

                                    Camisetas marrons procuravam transmitir a seriedade dos participantes, eleitores engajados em objetivos nacionalistas...

                                    Tratava-se do lançamento das pré-candidaturas para o preenchimento da vaga de Chefe Maior da respeitada Vila dos Avestruzes...

                                    As tradições sagradas deviam ser guardadas, porque intocáveis... Foram surgindo de costumes centenários, passando de geração a geração...

                                    Lembrava-se a todo momento que os candidatos e militantes deveriam preservar os antigos costumes, espécies de faróis a iluminar os novatos...

                                    Seria punido com severidade qualquer ato contrário; vale dizer, com pena de prisão domiciliar, uso de tornozeleira e controle verbal dos “linguarudos”...

                                    Como cautela, para ninguém alegar desconhecimento, foram postos critérios em edital na internet e, também, espalhados pelas dependências do PUA – Partido Único dos Avestruzes, a saber:

 

1.    Serão aceitas candidaturas, apenas, de avestruzes machos;

2.    Será dada preferência ao candidato de menor estatura física;

3.    Não é necessária experiência anterior ou formação escolar de nível, desde que haja comprovada fidelidade aos ideais do Partido;

4.    Candidatos com opinião própria não serão aceitos;

5.    A última palavra, em qualquer questão relativa às eleições, será sempre do SCA  – Soberano Conselho dos Avestruzes.

 

                                    Estabelecidos os critérios, respeitados os prazos, chegou-se ao esperado dia da eleição...

                                    Dentre os candidatos, houve um que se destacou pela baixa estatura, sendo mais conhecido como “Nanico”; que foi eleito.

                                    Havia, no entanto, um grupo que o conhecia de longa data, que achava mais apropriado chamá-lo de “Maroto”.

                                    Na posse de “Nanico”, pediu-se que fizesse breve discurso, porque todos estavam esgotados da campanha.

                                    Para alegria do público, o eleito alegou dificuldades de leitura, porque esquecera os óculos em casa...

                                    Mas, alguém, gentilmente, ofereceu-se para a difícil tarefa da leitura, o que fez, pausadamente, no dobro do tempo.

                                    Aplausos e alívio geral, seguidos de lauto banquete, regado a vinho fino, marcaram o início da gestão do Nanico...

                                    Passados longos anos, após sucessivas reeleições, respeitado por todos e aplaudido por seus eleitores, chegou à Vila dos Avestruzes um renomado pesquisador internacional para descobrir o segredo do ilustre Nanico.

                                     Coligidos os dados, analisados os indicadores, ficou registrado para a posteridade o seguinte resultado:

 

1.    Nanico não falava porque lhe haviam cortado a língua para não falar besteiras, porque era conhecido por ser “bocudo”;

2.    Não enxergava porque se recusava a usar óculos, para esconder que era analfabeto funcional;

3.    Não ouvia porque se fingia de surdo para não ter que responder aos eleitores;

4.    Não lia e nem estudava para não “confundir” as ideias...

 

                                    Mas, como ficou ressaltado, no prestigiado “relatório” foi reconhecida como sua qualidade principal – esconder com invulgar rapidez a cabeça na areia, todas as vezes que enfrentava um grave problema, uma crise!

                                    Afinal de contas, como um prestigiado e velho avestruz, esconder a cabeça na areia era sua melhor técnica...

                                    Tinha, como espécie de mantra, velho ditado da Vila dos Avestruzes: “Deixa estar para ver como fica”.

                                    Com o tempo, Nanico foi eternizado na praça principal da Vila dos Avestruzes, com uma estátua que todos diziam ser uma réplica “Do Pensador”, do afamado escultor francês, Rodin, admirada por todos que a visitavam.

                                    As Vilas vizinhas começaram, pouco a pouco, a imitar a gestão do Nanico, e, por isso, ficaram tão estagnadas quanto algumas localidades de hoje.

 

 

 

Aviso final: qualquer semelhança com administradores humanos, nos dias atuais, é pura coincidência!

09 maio 2026

BILHETE PARA MAMÃE

 

BILHETE PARA MAMÃE

                                                                             Maria da Glória Colucci

 

 

                        Tenho guardado, como verdadeira relíquia, um bilhete escrito por mim, para minha mãe, em 8 de maio de 1955.

                        À época eu estava com 10 anos de idade...

                        Morávamos em bairro distante, na região suburbana do Rio de Janeiro...

                        O local era agradável e tinha um ar quase bucólico, interiorano...

                        As ruas não eram asfaltadas, porém, ladeadas por pequenos arbustos que, à época, abrigavam passarinhos em seus frágeis ramos.

                        Hoje, no entanto, o abandono dos governantes, a falta de estrutura viária, tornou a bela região quase inabitável...

                        Brincávamos na calçada, de roda, de amarelinha; enquanto os meninos jogavam futebol ou bolas de gude...

                        Íamos a pé para a Escola Pública República do Chile, a razoável distância, sem qualquer medo...

                        Alegres, pulando pelo caminho, voltávamos para casa sãos e salvos...

                        Algum tempo depois, voltamos para o bairro de Ramos, de onde não devíamos ter saído, pelas suas comodidades e proximidade do centro da cidade...

                        Neste singelo bilhete, transcrito por mim na sequência, procuro em meu nome e de meus irmãos, Paulo, Nize e Mira, mostrar nossa preocupação e apoio à nossa mãe...

                        Foram tempos difíceis, em que ela, sem ajudante doméstica, limpava toda a casa e cuidava com esmero dos filhos...

                        Os recursos financeiros eram escassos..., tudo precisava ser feito em casa, desde a comida da criançada “comilona”, até às roupas, costuradas por minha mãe na máquina Singer...

                        Quando de seu falecimento, em 2020, dentre os achados de minha mãe, foi encontrado o bilhetinho escrito há 70 anos:

 

                         

                          “A minha mãe querida”

 

               Minha mãezinha querida, escrevo-lhe este simples bilhete a fim de pedir-lhe mil descupas pelas minhas respostas, macriações, amolações, igijensias etc...

             Porque eu recunheço que você sofre tanto pela causa de nos tirar daqui aonde moramos e nem assim nós como seus filhos não temos ajudado-a devidamente como você merece...

             Nós todos juntos hoje nesse dia tão maravilhoso e festival comemoramos o dia “das mães”.

             Quem inventou tão grande dia merece muitos e muitos aplausos por todos que amam suas mães verdadeiramente.

             Agora todos nós, seus filhos pedimos muitas e muitas descupas pelas nossas faltas de consideração com você que tanto merece os nossos carinhos e atençones.

             Nós todos desse grande mundo comemoramos hoje o dia “das mães” constumamos dar presente, fazer promesas de obediência, abraços, beijos e outras cousas que não me lembro no momento.

             Mas isso não é nada nada pois o que você merece é o queu não sei disser.

             Agora nós despedimos de você com um grande abraço de seus filhos, Paulo, Nize e Mirinha

                                  e

                                          Maria da Glória

 

                                                                      

                        Obs.: os erros ortográficos e repetições foram transcritos como se encontram no bilhete original; amarelado e com vários pequenos “furos” feitos pelas traças...

 

 

Respeitar e amar aos pais é o primeiro mandamento com promessa de sucesso na vida: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que te vá bem e vivas muito tempo sobre a Terra”.

Bíblia Sagrada: Efésios 6: 2 – 3.

             

 





PEDRINHO E MIMI

 

PEDRINHO E MIMI

        Maria da Glória Colucci

 

 

                                    O longo romance durou toda uma vida de afeto e cumplicidade.

                                    Mimi e Pedrinho se conheceram nos primeiros anos da juventude, em Itaperuna, no Rio de Janeiro...

                                    Pedrinho passava ao pé da sacada e, esperançoso, sonhava em ver Mimi, linda como sempre...

                                    De família rica e respeitada, Mimi sabia ser delicada, elegante e sensível...

                                    Era professora de música, de piano e acordeão, ensinando pelo método Mascarenhas...

                                    Tinha muitas alunas. Meninas que se esmeravam para serem admiradas e escolhidas por jovens bem sucedidos e abastados da sociedade local.

                                    Mimi encantou-se, secretamente, por Pedrinho e seus lindos olhos azuis...

                                    Ninguém sabia quem era o dono de seu apaixonado coração...

                                    Havia, no entanto, muitas barreiras sociais à época, separando Mimi e Pedrinho...

                                    Ele viera do interior – que era chamado de “roça” – e, apesar de sua gentileza e bela aparência, não possuía recursos para pedir a mão de Mimi em casamento.

                                    Por isso, conversaram na janela da casa colonial, de propriedade dos pais de Mimi, no centro da cidade, por longo tempo.

                                    Dizem que assim aconteceu por longos 10 anos..., até que Pedrinho foi aceito como “visita”, e convidado a entrar no belo casarão de esquina.

                                    Um dia a família de Mimi mudou-se para o Rio de Janeiro, buscando novos ares...

                                    Inconsolável, Pedrinho foi à procura de sua amada Mimi... e, longe dos preconceitos interioranos, pediu-a em casamento...

                                    Casaram-se, mas nunca tiveram filhos, porque a bela Mimi já tinha perto dos 30 anos de idade...

                                    Nos idos de 1940 era sempre mencionado que seu casamento foi realizado quando Mimi era uma “moça velha” ...

                                    Permaneceram juntos até bem velhinhos, quando Pedrinho faleceu...

                                    Apaixonada e profundamente saudosa e triste, Mimi viveu pouco tempo após a partida de Pedrinho...

                                    Pedrinho e Mimi foram meus tios paternos.

                                    Meu tio Pedrinho nos levava, a mim e meus irmãos, até ao Sítio São Luis, na época das férias, em Comendador Venâncio...

                                    Era muito gentil e carinhoso, com uma paciência, hoje, para mim, incompreensível...

                                    Viajávamos de limusine do Rio de Janeiro até o destino no interior, na “roça”, onde ficávamos por longos, divertidos e saudosos dias...

                                    Tenho de Mimi a mesma lembrança de generosidade e paciência, porque nos dava aulas de acordeão, de graça, apenas pelo prazer de doar do seu tempo e habilidades...

 

Em memória de Mimi e Pedrinho.

Curitiba, 2025.

 

Há pessoas que passam pela Terra como raios de luz, iluminando com amor, bondade e generosidade a todos que os conhecem.

                                   

 

                                                           SAUDADES

 

Não têm nome.

Não têm marca

Nem somem...

Saudades do agora.

Saudades do ontem.

Saudades do outrora...

 

*Disponível no Blog: Nuvem de Cetim Poemas. Endereço eletrônico: https://nuvemdecetimpoemas.blogspot.com

29 abril 2026

AMOR NEGADO

 

AMOR NEGADO

                                                                                        Maria da Glória Colucci

 

 

                                    O “amor negado” se apresenta mais pelas evidências práticas, do que por eventuais conceituações legais ou doutrinárias.

                                    Corresponde àquela situação em que alguém, que tem o “dever de cuidado”, pela lei, por laços familiares ou de outra ordem, se afasta de forma deliberada, intencional e perversa, de outrem, isolando-a ou abandonando-a afetivamente.

                                    As ações ou omissões do negador(a) do afeto, no entanto, são por ele(a) sempre “justificáveis”; como, por exemplo, alegando falta de tempo, excesso de trabalho, ou mesmo “esquecimento” eventual...

                                    O agente da “negação afetiva” é, geralmente, alguém próximo, que pode ser o pai ou mãe da criança ou adolescente, por exemplo...

                                    Hoje, até mesmo o abandono de animais ou maus tratos de pets são condenados pela sociedade... Novos tempos! Mas, nem sempre igual atenção se dá aos seres humanos...

                                    Igualmente, pode ocorrer na relação entre filhos(as) e os pais, irmãos etc.; sobretudo, quando envelhecidos, já aposentados, cansados e doentes, são desprezados.

                                    Vale dizer, são pessoas necessitadas de afeto e mínimas condições de vida, mas que, ao ver dos negadores(as), “não servem para mais nada”...

                                    É bom destacar que, ainda em análise superficial, o abandono ou menosprezo deve ser intencional, como forma de rejeição ou puro desprezo...

                                    Frequentemente, a mídia relata situações de crianças, pessoas com necessidades especiais ou deficiências, idosos, etc, que são encontrados(as) em condições deploráveis físicas e mentais..., devido ao abandono familiar.

                                    Verifica-se, todavia, que há algumas situações em que o abandono se dá por absoluta falta de recursos, ignorância ou outras situações de extrema miséria, sem que haja a intenção de menosprezar...

                                    Mas, o que se tem notado, é que as situações mais comuns envolvem negadores(as) insensíveis, destituídos de mínima afetividade, egoístas e maus, que agem desta forma, pelo simples prazer de ferir...

                                    Negam-se, por exemplo, a atender os telefonemas ou mensagens deixadas no celular pelos filhos(as), pais, ou recados urgentes de ajuda humanitária...

                                    Nos casos de divórcios, o cônjuge que se afasta da família, voluntariamente ou não, “pune” os filhos(as); negando-lhes o amor devido pela Moral, pelo Direito, pela Religião, pela Sociedade!

                                    O que se pode esperar de seres humanos que assim agem?

                                    Esse é um grave problema social que tem aumentado a olhos vistos!

 

  

O amor é a maior dádiva que um ser humano pode compartilhar com outro...