DONA
ALMA E SEU SEGREDO
Maria
da Glória Colucci
Três
vidas, unidas pelo sangue, pelas tragédias e medo.
Três
mulheres.
A
mãe, Almerinda, mais conhecida pelo apelido carinhoso, Dona Alma, trazia consigo
um segredo...
Nada
mais perigoso que um mistério pessoal, guardado a “sete chaves”, apenas
preservado por amargas lembranças.
O
passado era seu fardo invisível...
Sua
dor oculta, seu calvário pessoal!
As
filhas, Esperança e Estrela, seguiam-na por toda parte, até mesmo no trabalho,
quando era permitido pelos patrões.
Dona
Alma era cozinheira de “mão cheia”, muito habilidosa em confeitaria de bolos e
doces artesanais...
Bolos
de casamento e de 15 anos eram solicitados a todo tempo, e Dona Alma os
preparava nos finais de semana, às sextas-feiras...
Noite
adentro, empenhava-se em fazer o melhor ao seu alcance.
Foi,
numa dessas tão esperadas festas, que precisou fugir às pressas do interior,
para a cidade do Rio de Janeiro...
Um
grande casamento, esperado pela comunidade interiorana, seria realizado no
terceiro sábado de maio, no chamado “Mês das Noivas” ...
Como
sempre, fez com absoluto cuidado o bolo, verdadeira peça de arte, decorado com
minúsculas flores de laranjeira.
Eram
assim enfeitados os bolos de noivas, nos idos dos anos 60.
Deveria “esconder”, a pedido da família do noivo, no interior da saborosa massa, preciosa joia, presente de elevado valor – um anel de diamante.
Mas, acabou por esquecê-lo sobre
a pia da cozinha de sua casa, onde trabalhara a noite inteira...
Diante
do temor de ser acusada de ter furtado a valiosa joia, fugiu em plena festa,
com suas duas filhas...
Nunca
mais voltou.
Não
mais soube do desfecho do fato.
Nem
tomou conhecimento dos resultados da investigação policial...
Após
sua desesperada fuga, a polícia encontrou a preciosa joia na caixa de
brinquedos das meninas.
Estrela,
a mais nova, encantou-se com o pequeno estojo, onde o anel estava, e brincou
por demorado tempo, sem que fosse notada...
Enquanto
a mais velha, Esperança, com 10 anos, ajudava a mãe, nos limites de sua
capacidade infantil.
Nenhuma
delas reparou que a pequenina, com 4 anos, em sua inocência, brincava,
descuidada, com a valiosa joia.
Impactada
pelo medo, Dona Alma optou por fugir com as filhas.
Carregou
por longos anos o medo, o pânico da acusação pelo suposto furto, que nunca
praticou...
Continuou
temendo que fosse identificada como ladra e perdesse os clientes que havia
conquistado no Rio de Janeiro.
Um
dia, porém, a misericórdia de Deus a encontrou... Soube da verdade, através de
antiga moradora da pequena cidade...
Haviam
encontrado o anel valioso!
Seu
coração desesperado livrou-se do medo, dos temores noturnos, para sempre...
Entendeu,
na simplicidade de suas íntimas reflexões, que se tivesse aplicado o antigo
ditado: “quem não deve, não teme”, sua vida teria tomado outro rumo.
Menos
medo, mais coragem!
Fugir
das responsabilidades, adiar as decisões, “terceirizar” as iniciativas e providências,
só aumenta o sofrimento, e adoece!
O pânico destrói a vida de
uma pessoa, tanto quanto um veneno tomado em doses homeopáticas, diariamente.