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16 junho 2026

DONA ALMA E SEU SEGREDO

 

DONA ALMA E SEU SEGREDO

                                                                                                          Maria da Glória Colucci

 

                         Era uma família de três pessoas.

                        Três vidas, unidas pelo sangue, pelas tragédias e medo.

                        Três mulheres.

                        A mãe, Almerinda, mais conhecida pelo apelido carinhoso, Dona Alma, trazia consigo um segredo...

                        Nada mais perigoso que um mistério pessoal, guardado a “sete chaves”, apenas preservado por amargas lembranças.

                        O passado era seu fardo invisível...

                        Sua dor oculta, seu calvário pessoal!

                        As filhas, Esperança e Estrela, seguiam-na por toda parte, até mesmo no trabalho, quando era permitido pelos patrões.

                        Dona Alma era cozinheira de “mão cheia”, muito habilidosa em confeitaria de bolos e doces artesanais...

                        Bolos de casamento e de 15 anos eram solicitados a todo tempo, e Dona Alma os preparava nos finais de semana, às sextas-feiras...

                        Noite adentro, empenhava-se em fazer o melhor ao seu alcance.

                        Foi, numa dessas tão esperadas festas, que precisou fugir às pressas do interior, para a cidade do Rio de Janeiro...

                        Um grande casamento, esperado pela comunidade interiorana, seria realizado no terceiro sábado de maio, no chamado “Mês das Noivas” ...

                        Como sempre, fez com absoluto cuidado o bolo, verdadeira peça de arte, decorado com minúsculas flores de laranjeira.

                        Eram assim enfeitados os bolos de noivas, nos idos dos anos 60.

                        Deveria “esconder”, a pedido da família do noivo, no interior da saborosa massa, preciosa joia, presente de elevado valor – um anel de diamante.                

                        Mas, acabou por esquecê-lo sobre a pia da cozinha de sua casa, onde trabalhara a noite inteira...

                        Diante do temor de ser acusada de ter furtado a valiosa joia, fugiu em plena festa, com suas duas filhas...

                        Nunca mais voltou.

                        Não mais soube do desfecho do fato.

                        Nem tomou conhecimento dos resultados da investigação policial...

                        Após sua desesperada fuga, a polícia encontrou a preciosa joia na caixa de brinquedos das meninas.

                        Estrela, a mais nova, encantou-se com o pequeno estojo, onde o anel estava, e brincou por demorado tempo, sem que fosse notada...

                        Enquanto a mais velha, Esperança, com 10 anos, ajudava a mãe, nos limites de sua capacidade infantil.

                        Nenhuma delas reparou que a pequenina, com 4 anos, em sua inocência, brincava, descuidada, com a valiosa joia. 

                        Impactada pelo medo, Dona Alma optou por fugir com as filhas.

                        Carregou por longos anos o medo, o pânico da acusação pelo suposto furto, que nunca praticou...

                        Continuou temendo que fosse identificada como ladra e perdesse os clientes que havia conquistado no Rio de Janeiro.

                        Um dia, porém, a misericórdia de Deus a encontrou... Soube da verdade, através de antiga moradora da pequena cidade...

                        Haviam encontrado o anel valioso!

                        Seu coração desesperado livrou-se do medo, dos temores noturnos, para sempre...

                        Entendeu, na simplicidade de suas íntimas reflexões, que se tivesse aplicado o antigo ditado: “quem não deve, não teme”, sua vida teria tomado outro rumo.

                        Menos medo, mais coragem!

                        Fugir das responsabilidades, adiar as decisões, “terceirizar” as iniciativas e providências, só aumenta o sofrimento, e adoece!

 

 

O pânico destrói a vida de uma pessoa, tanto quanto um veneno tomado em doses homeopáticas, diariamente.